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Vingadores: 4 Lições que os Escritores Deveriam Aprender com os Filmes

Por: Bernardo Stamato

30 de abril de 2019

“O único conselho que qualquer um pode dar é, se você quer ser um escritor, continue escrevendo. E leia tudo o que conseguir, leia de tudo.” — Stan Lee.

Cheguei à conclusão de que os Vingadores fazem parte da minha vida desde sempre. Personagens como Homem-Aranha e Hulk são como Mickey Mouse ou Goku, você simplesmente sabe que eles existem a partir do momento em que chegou ao mundo. Eu comecei a conhecer os super-heróis de fato com as séries animadas dos anos 90, principalmente do Homem-Aranha e X-Men — além do Batman, é claro. Depois passei a acompanhar os quadrinhos do Homem-Aranha — na fase em que o Peter Parker perdeu os poderes e o Aranha Escarlate, Ben Reilly, assumiu o lugar dele como herói titular — e do Spawn — tive todas as edições do 1 ao 101. Ao longo dos anos, li um bocado de quadrinhos, joguei vários jogos e assisti a muitos filmes.

Mas hoje, os super-heróis como os Vingadores já passaram do ponto de “todo mundo sabe que existem”. Hoje, os filmes de super-heróis são os recordes de bilheteria ano após ano, é comum pessoas usando blusas dos personagens que mais gostam pelas ruas e você não precisa mais ser nerd para adorar o Homem de Ferro ou o Thor. Hoje, os Vingadores fazem parte da cultura pop mainstream.

Como escritor e nerd, é impossível não ter inspirações assistindo aos filmes dos Vingadores. Os personagens são divertidos, o universo fictício é fértil e as histórias são espetaculares. Assisti aos Vingadores: Ultimato, cheguei em casa e decidi escrever esse texto com as 4 maiores lições que aprendi assistindo aos filmes da Marvel — e que acredito que são úteis para todos os escritores e também interessantes para todos os fãs dos Vingadores.

E não custa esclarecer: esse texto não tem spoilers de nenhum filme.

O Básico Funciona

Uma das maiores críticas ao Universo Cinematográfico Marvel é que os filmes de origem sempre utilizam a Jornada do Herói e um vilão com os mesmos poderes do herói. Na minha humilde opinião de um mero mortal, essa crítica demorou para surgir. Dos quatro primeiros super-heróis do Universo Cinematográfico Marvel — Homem de Ferro, Incrível Hulk, Thor e Capitão América —, todos eles usaram a Jornada do Herói e só um não teve um vilão cópia de si mesmo. Muitos anos e filmes depois, Homem-Formiga, Doutor Estranho e Pantera Negra ainda utilizaram os mesmos subterfúgios.

Mas uma coisa é inegável: funcionou. Mesmo que seja uma forma fórmula de bolo clichê, a Marvel decidiu não arriscar e aqui estamos: 11 anos, 22 filmes e uma legião de fãs. Lembro de ouvir o Affonso Solano dizer que o público gosta da Jornada do Herói durante o DIGI Festival e é verdade. Apostar num método que já é testado e comprovado aumenta as chances de uma história cativar os fãs.

Você com certeza gosta de várias histórias da Jornada do Herói, desde Vingadores e Harry Potter, até O Senhor dos Anéis e A Batalha do Apocalipse. O próprio Eduardo Spohr ministrava oficinas de escrita baseadas nesse método. Estudar e testar uma fórmula básica ajuda qualquer escritor, nem que seja para desconstruí-la depois.

Mas Precisamos Ir Além do Básico

Muitos escritores acham broxante a ideia de seguir uma fórmula de bolo pré-estabelecida, incluindo eu. Felizmente, alguns Vingadores já escaparam dessa fórmula também.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar não é um filme de origem e nem usa um vilão idêntico ao herói. Na verdade é um filme que explora o cenária estabelecido ao longo dos outros filmes de um ponto de vista civil e até minimalista e traz um vilão que é um efeito colateral de alguns eventos passados. Ouso dizer que o filme do Homem-Aranha foi o que se saiu melhor em explorar os vários elementos do Universo Cinematográfico.

Guardiões da Galáxia vol. 2 e Thor: Ragnarok são mais dois bons exemplos de como as fórmulas de bolo são dispensáveis. Ambos os filmes trazem deuses como vilões, muito mais poderosos do que os heróis, mas a narrativa foca mais nos personagens e nas desventuras em que eles se metem do que nos arcos típicos que já cansamos de ver. Cada um desses filmes assumiu alguns riscos ao sair do roteiro padrão e o resultado foi bem satisfatório.

Ironicamente, Vingadores: Guerra Infinita inovou ao usar a Jornada do Herói no vilão, o Thanos. Ele é o personagem com mais tempo de tela no filme e é inevitável empatizar com ele enquanto assistimos aos seus esforços para dizimar metade do universo. Vingadores: Ultimato, por sua vez, aproveita que não precisa apresentar nenhum personagem e se foca nas consequências da Guerra Infinita e na aventura dos heróis para dar a volta por cima e na conclusão de uma história contada ao longo de 22 filmes.

Uma boa história não precisa de fórmulas de bolo, precisa de bons personagens e de ação — seja ação no sentido de aventura, ou no sentido de trama e conflitos emocionais. A gente não gosta de uma história só porque ela segue a Jornada do Herói tanto quanto podemos gostar de histórias que seguem rumos totalmente diferentes. E tanto quanto é válido testar e experimentar a Jornada do Herói, subvertê-la e desconstruí-la também é fundamental.

Universo Cinematográfico Marvel

Apesar de todo esse debate sobre a Marvel usar os mesmos elementos narrativos na maioria dos filmes ou não, os Vingadores ainda são mais lembrados pelo universo cinematográfico compartilhado. O primeiro universo cinematográfico de todos os tempos foi os filmes de monstros da Universal nos anos 40, mas sem os grandes crossovers como a Marvel faz hoje. De lá para cá, outras franquias tentaram criar seus universos, mas nenhuma chegou nem aos pés dos Vingadores.

Pensando em literatura, poucos autores criaram universos compartilhados, mas não podemos deixar de notar que Westeros não se limita aos eventos após a Rebelião de Robert e que a Terra-Média tem mais histórias além da Terceira Era. Livros como O Cavaleiro dos Sete Reinos e Fogo e Sangue expandem a narrativa d’As Crônicas de Gelo e Fogo, assim como O Silmarillion, Os Filhos de Húrin e Beren e Lúthien expandem a criação de Tolkien.

Fazendo a ponte entre cinema e literatura, Star Wars também é um prato cheio. Temos três trilogias cinematográficas, além de dois spin-offs e uma tonelada de livros — e quadrinhos e jogos. Para quem quer ler uma história em um canto de uma galáxia com uma temática, depois outra história com uma temática totalmente diferente em outro canto e depois mais outra história com séculos de distância entre as outras, Star Wars com certeza é um universo bem fértil.

Falando em literatura brasileira, o mundo de Tormenta já tem a Trilogia de Leonel Caldela, a Joia da Alma de Karen Soarele e dois volumes de Crônicas da Tormenta — além das aventuras de RPG, livros-jogos, quadrinhos etc. Um universo, mais de uma dezena de escritores, centenas de personagens e incontáveis histórias. É lógico que fica mais fácil quando temos várias mentes criativas num projeto só, então permita-me focar no que um único escritor pode fazer.  

Acredito que a lição aqui é que uma história não precisa sempre ser sequência direta da outra. Tanto quanto podemos ver filmes de super-heróis diferentes, mas conectados, e ler livros e jogar videogames dentro de um mesmo universo, também podemos escrever histórias paralelas, que “ramifiquem” a narrativa em vez de apenas seguir em frente. A ideia de livros paralelos pode parecer distante para escritores iniciantes, mas por que não contos paralelos?

Particularmente, meu próximo livro não será sequência do primeiro. Comecei com A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, a história de um grupo de aventureiros que desafia um torneio de gladiadores cada um por seu próprio motivo, e estou escrevendo o último capítulo de A Era do Abismo: Crônicas do Éden, uma coletânea de contos dentro do mesmo mundo — alguns dos personagens foram inspirados em alguns dos Vingadores, inclusive. E o terceiro livro não será sequência de nenhum desses. Se tudo sair como planejo, vai se chamar A Era do Abismo: O Castelo nas Profundezas, um standalone, também paralelo aos outros. Só depois escreverei a sequência d’O Torneio dos Campeões.

Personagens Icônicos

No fim das contas, o que faz uma boa história é um bom elenco. Vasculhe na sua mente, veja quais são suas histórias favoritas e perceba que todas vêm com personagens marcantes. Particularmente, além de Vingadores como Capitão América, Thor, Hulk, Homem de Ferro, Doutor Estranho, Pantera Negra, Capitã Marvel etc, adoro como o Leonel Caldela elabora seus personagens, adoro as rivalidades e alianças de Game of Thrones e adoro os companions de Dragon Age. Seja na literatura, nos cinemas, nos quadrinhos, ou nos games, o que faz uma boa história é um bom elenco.

O Homem de Ferro se destacou pelo comportamento mais egocêntrico do que heroico na maior parte do tempo. Thor é um dos poucos que já nasceu com super-poderes, o que o levou a atitudes problemáticas até ele compreender suas responsabilidades. Pantera Negra precisou lidar com as tradições ancestrais da sua nação em contrapartida ao caos em que nosso mundo vive. Homem-Aranha quer fazer bom uso dos seus poderes, mas ainda precisa fazer o dever de casa e dar satisfação à sua tia. Perceba que eu não citei nenhum dos super-poderes específicos de cada um deles e mesmo assim citei alguns dos seus traços mais marcantes.

Quem são seus personagens favoritos? Harry Potter? Arya Stark? Geralt de Rivia? Batman? Deadpool? Com certeza eles têm habilidades legais, mas isso não garante boas histórias — se fosse assim, o filme do Lanterna Verde teria sido um sucesso. Boas histórias deixam bons personagens marcados nas nossas memórias e os Vingadores não marcaram nossa geração porque salvaram o mundo, a galáxia e o universo, eles marcaram porque souberam apresentar e desenvolver excelentes personagens.

E é isso que um escritor precisa ter em mente acima de tudo. O que importa é os personagens. Os diálogos. A relação que eles constroem e destroem em suas jornadas. Esse sim é o elemento mais fundamental de toda e qualquer história.

Vingadores Eternamente

Não sei se teremos um Vingadores 5 nos cinemas. E, se tivermos, não faço ideia de como vai ser. Mas com certeza ainda vamos ter muitos super-heróis, até porque ainda precisamos ver os X-Men e o Quarteto Fantástico no Universo Cinematográfico Marvel. O que importa é que todos esses quadrinhos, filmes e personagens marcaram a minha história e a de muita gente, então o mínimo que posso fazer é continuar acompanhando suas próximas aventuras e continuar criando as minhas próprias aventuras também.

Se você quiser ver como botei essas ideias em prática, confira A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, meu livro de Fantasia Sombria, clique aqui.

E quais são seus Vingadores favoritos? Por que gosta de cada um deles? Como você poderia se inspirar neles para criar seus próprios personagens e próprias histórias? Solta o verbo nos comentários!

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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