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Videogames e Mitologia: Como imaginário influencia os jogos digitais?

Por: Bernardo Stamato

1 de julho de 2018

Videogames e Mitologia estuda a criação das mecânicas e narrativas dos jogos digitais e como esse processo dialoga com a Mitologia, focando nos mitos gregos. Além da teoria, que apresenta o conceito do ‘Imaginário’, também são analisados os jogos BioShock, God of War e Eternal Sonata, cada qual representando uma característica do estudo do imaginário.

A autora é Flávia Gasi, doutoranda e mestra pela PUC-SP, colunista do IGN Brasil, CEO da Ni Game Content, professora e tradutora. Além disso tudo, ela é defensora da democratização dos consoles, direitos iguais nos jogos e – tão importante quanto – o direito de comer sucrilhos sem leite.

O livro Videogames e Mitologia se divide em três partes, para contextualizar a pesquisa, apresentar suas bases e enfim exemplificar como que a teoria se aplica à prática.

Videogames e Mitologia, de Flávia Gasi

Na primeira parte, “A Poética do imaginário dos videogames”, Gasi fala sobre a cibercultura, o que é jogo e narrativa ludológica, conceitos do imaginário e antropologia. O interessante desse capítulo é compreender os conceitos de várias coisas que usamos no nosso dia a dia, como redes sociais, pesquisas online e, naturalmente, jogos digitais. A autora abrange tanto o fenômeno que o videogame se tornou, quanto suas bases antropológicas e até seu diálogo com o imaginário da nossa sociedade contemporânea – ou seja, como nós expressamos nossa cultura através das mídias que temos acesso, desde o teatro, até o cinema e finalmente nas narrativas digitais.

Na segunda parte, “O processo de criação de videogames como narrativas ludológicas”, Gasi disserta sobre o processo de criação do jogo e a tradução intersemiótica nele. É possível criar uma narrativa com interação entre os interlocutores? Quem cria o jogo, seus desenvolvedores, a máquina, o jogador ou todos juntos? Como que os mitos e os arquétipos se manifestam nos jogos digitais? A autora apresenta os argumentos de vários teóricos e profissionais do ramo e explora cada possibilidade, sempre exemplificando jogos já lançados que comprovam a teoria. Afinal, já é mais do que comum pessoas terem seu primeiro contato com mitos e obras literárias através de filmes, séries de televisão ou até desenhos animados, pois então é também natural que as novas gerações tenham o mesmo tipo de experiência através dos videogames.

Por fim, a terceira parte – e a mais legal – é “As passagens do imaginário e dos mitos gregos no videogame”, estudos de caso de como os jogos digitais usam os mitos em suas narrativas. Eu não quero entrar em muitos detalhes sobre o conteúdo específico porque este texto ficaria longo demais para um artigo de internet e resumido demais em vista à densidade do livro, mas é importante falar rapidamente sobre “tradução intersemiótica”. Num mega resumo, tradução intersemiótica é como a obra se inspira na outra. Por exemplo, quando a Disney lançou seu desenho Hércules, ela fez uma tradução intersemiótica – cheia de licenças poéticas – do mito da Grécia Antiga. Da mesma forma que os filmes do Thor da Marvel trazem traduções intersemióticas dos deuses, dos Nove Reinos e das narrativas dos mitos nórdicos. E o mesmo se aplica à Mulher Maravilha, The Witcher, O Senhor dos Anéis, Frozen, Game of Thrones, Dragon Ball etc, todos obras originais, mas que bebem de fontes clássicas, ou seja fazem traduções intersemióticas de mitos clássicos.

Atlas, aquele que sustenta o mundo distópico de Bioshock

A imagem intrínseca é quando a narrativa usa o mito de forma literal. O principal exemplo que Gasi usa é o God of War, onde deuses e heróis gregos são recriados numa narrativa nova. Nesse caso, os próprios mitos são representados, o que a autora chama de literalismo. Zeus é literalmente o rei dos deuses gregos, Ares é literalmente o deus da guerra, Afrodite é a própria deusa do amor e da beleza etc.

O sincretismo mitológico, por sua vez, é quando o mito é usado de forma referencial. O principal exemplo que Gasi usa é Bioshock, onde existe um personagem chamado Atlas, que faz referência ao titã dos mitos gregos. Ele obviamente não é uma figura mítica, mas um personagem dentro do jogo que, além do nome, tem a história cheia de paralelos com o titã. O próprio cenário do jogo é uma cidade submersa que faz referência à Atlântida, outro mito grego. Não por acaso, outro nome para Atlântida é Atlante, que também é outro nome para Atlas e, na arquitetura, é um tipo de coluna que tem a forma esculpida de um homem – lembrando que Atlas sustenta o nosso planeta nas costas de acordo com o mito. Em outras palavras, no sincretismo, nomes e termos são usados fazendo uma referência às origens culturais e folclóricas em questão.

Por fim, a aura imaginária é quando o mito não é citado ou referenciado, mas se apresenta de forma sútil, praticamente uma aura. O exemplo de Gasi é o jogo Eternal Sonata, uma aventura fantástica do pianista Frédéric Chopin durante suas três horas de coma antes da morte. Essa narrativa digital explora as temáticas do sonhar e da morte durante esse período de coma evocando os mitos de Morfeu e Tânatos sem citá-los em momento algum. Analisando o jogo e os mitos em paralelo, as referências se tornam evidentes, mas elas não são apresentadas por meio de citação ou referência, mas sim através dos arquétipos.

O sonho de morte de Chopin em Eternal Sonota

Flávia Gasi fez uma belíssimo trabalho dissecando cada um desses exemplos e traçando paralelos com outras mídias – como cinema, literatura e histórias em quadrinhos -, o que deixou sua pesquisa abrangente e completa. Na verdade, o leitor termina o livro querendo que ele fosse ainda maior, com ainda mais jogos sendo analisados dentro de cada uma dessas categorias, tanto pelo prazer quanto pelo enriquecimento que a leitura proporciona. Até acho que o livro poderia ficar um pouco menos técnico – afinal de contas, ainda se trata de um trabalho de mestrado – e englobar ainda mais exemplos, expandindo a experiência original e tornando-a mais acessível e palatável para um público mais leigo.

Videogames e Mitologia é uma leitura deliciosa tanto para os gamers, quanto para os amantes de mitologia. O livro oferece um olhar aprofundado em assuntos como game design, narratologia, produção cultural e, logicamente, nos vários jogos citados ao longo da obra. Na verdade, o livro é tão bom, que me inspirou a escrever meu TCC da pós-graduação – porém meu foco foi literatura e videogames. Eu só tenho a agradecer à Flávia Gasi por essa leitura extraordinariamente divertida e enriquecedora e pela inspiração na minha própria pesquisa.

Sabia que existe um personagem chamado Kratos na Mitologia Grega? Mas não tem nada a ver com o nosso God of War…

 

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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