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Os 4 maiores problemas ao criar um Universo Cinematográfico

Por: Bernardo Stamato

16 de setembro de 2018

Depois do sucesso do Universo Cinematográfico Marvel, muitos estúdios querem brincar de narrativas compartilhadas. Entre mil promessas, três outros estúdios de fato começaram a tentar algo: a Warner com a Liga da Justiça, a Fox com X-Men, Deadpool e Quarteto Fantástico e a Universal com os monstros dos seus filmes clássicos – caso você não saiba, os filmes em preto e branco do Lobisomem, Frankenstein, Drácula etc se passavam no mesmo universo. Isso mesmo, não foi a Marvel que inventou a roda, tudo começou em 1941 com O Lobisomem.

Além desses, Star Wars já lançou dois spin-offs, a Legendary está lançando seu universo compartilhado de monstros gigantes, começando com King Kong e Godzilla, outras editoras de heróis, como Image e Valiant, também estão prestes a entrar nos cinemas e até a Hasbro quer um universo dos Comandos em Ação e outros brinquedos.

Criar um universo cinematográfico é uma aposta delicada, um território pouco explorado em Hollywood, apesar dos 10 anos da Marvel. A maioria dos estúdios ainda está na fase de tentativa e erro, e os erros já apontam tendências. Quando o assunto é um universo de filmes conectado, esses são os quatro maiores problemas que precisamos observar.

Apostar alto muito cedo

Lembra quando anunciaram o filme do Homem de Ferro como “Marvel aposta em herói menor”? Pois é, hoje ele é um dos maiores heróis do mundo. E o mesmo vale pro Deadpool entre os mutantes, outro filme de baixo orçamento, que cativou o público e elevou o herói ao status de protagonista.

E se esses filmes fossem fracassos? Os estúdios perderiam pouco, pois apostaram pouco, e poderiam direcionar seus esforços pra outros projetos dentro do mesmo universo. Quem sabe Capitão América ou Thor não fossem os verdadeiros líderes da Marvel?

A Universal, por sua vez, apostou demais na Múmia, um filme com atores bons – e caros -, que prometeu muito, mas não cativou o público. As críticas intercalam entre personagens rasos, narrativa confusa e muita preocupação em avisar que o filme era parte de um universo maior e pouca em contar uma história divertida. A consequência foi que a Universal adiou todos os seus planos e parece que já cancelou seu universo cinematográfico.

Cantar vitória antes da hora

A Marvel só divulgou um cronograma amplo na chegada da terceira fase do seu universo cinematográfico, enquanto Warner e Universal já anunciaram cronogramas antes mesmo de garantir que os primeiros filmes fizessem sucesso com o público.

Homem de Aço teve críticas medíocres, Batman V Superman foi abaixo do esperado e Esquadrão Suicida foi um completo desperdício de potencial. O único filme do Universo Expandido DC que se saiu bem foi Mulher Maravilha, seguido pela Liga da Justiça, que também dividiu opiniões. Com as avaliações tendendo mais pra mal do que pra bem, a Warner mudou vários planos e começou até a perder alguns dos seus principais atores.

Por outro lado, quem diria que Deadpool abriria portas pra uma franquia? A gente não sabe qual é o futuro do Mercenário Tagarela depois que a Disney comprou a Fox, mas é inevitável que ele ganhe mais filmes depois de dois sucessos. Deadpool provavelmente não teria esse sucesso se estivesse mais preocupado com a sequência do que com o seu pontapé inicial.

Divergências criativas e inconsistências

Kevin Feige e Joss Whedon tinham uma visão clara sobre o Universo Cinematográfico Marvel. Um exemplo disso é que Falcão e Máquina de Guerra poderiam ser parte da equipe no Vingadores: Era de Ultron, mas Joss Whedon estava fazendo uma sequência direta do Vingadores e não havia trabalhado com Falcão e Máquina de Guerra antes, então preferiu manter apenas o elenco original. Mesmo sem Joss Whedon, Kevin Feige mantém o foco da Marvel, liderando algumas equipes que mantém o universo cinematográfico coerente.

Zack Snyder não recebeu o mesmo respeito pela Warner. Batman V Superman sofreu edições drásticas – e muitos elogiaram a edição do diretor lançada em dvd e blu-ray – e Liga da Justiça recebeu refilmagens dirigidas pelo Joss Whedon. Isso sem falar nas refilmagens de Esquadrão Suicida sob a justificativa de torná-lo mais engraçado. Fica difícil fazer filmes bons quando Dr. Frankenstein parece estar no comando.

Pra não ficar elogiando só a Marvel, permita-me falar do Super Hero Taisen, o universo cinematográfico da Toei. O que eles fazem é basicamente pegar alguns tokusatsu famosos, botar pra lutar juntos e… E é basicamente só isso. Funciona porque eles juntam meia dúzia de personagens famosos e porque eles não estão preocupados com sequência ou continuidade. Você assiste, se diverte e ponto final. Seja o Universo Cinematográfico Marvel, que segue uma única narrativa maior, ou o Super Hero Taisen, que é o extremo oposto, apenas crossovers descompromissados, um estúdio precisa saber o que está sabendo e ter alguma constância pra fazer dar certo – quem sabe a Warner tem mais sorte com os Mundos da DC?

Desistir cedo demais

O Universo Sombrio da Universal não dá sinal de vida há um tempo e os boatos indicam que foi simplesmente cancelado, enquanto a Warner está trocando a roda com o carro andando, o que fez com que Ben Affleck e Henry Cavill pulassem fora. Por mais que esses universos cinematográficos não estivessem bem, eles estavam além da salvação?

Liga da Justiça não é um filme ruim, acho que merecia uma nota 6 ou 7, o problema é vivemos uma geração de alguns filmes nota 9 ou 10 com Pantera Negra, Guardiões da Galáxia e Guerra Infinita, o que faz de Liga da Justiça um filme decepcionante. Se o primeiro Vingadores fosse nota 6 ou 7, com certeza não teríamos três filmes da Marvel por ano hoje.

Mas qual nota você daria pra Capitão América: O Primeiro Vingador, O Incrível Hulk ou Thor? Foram filmes legais, mas acho que não entrariam nem no TOP 10 do Universo Cinematográfico Marvel hoje. O que não impediu de Capitão América e Thor se tornarem trilogias – e olha que Thor: O Mundo Sombrio também foi abaixo das expectativas. A Marvel não é perfeita, mas aprendeu com seus erros e também trocou rodas com o carro andando, tanto que grandes atores falavam em sair antes de Guerra Civil ser o sucesso que foi, e estão atuando até hoje sem demonstrar mais qualquer insatisfação.

Se organizar direitinho, todo mundo se diverte

Falando no Thor, também é válido notar os anos de lançamento dos filmes: Thor em 2011, O Mundo Sombrio em 2013 e Ragnarok em 2017, ou seja, dois anos de intervalo entre os primeiros filmes e quatro anos entre os últimos, além de uma abordagem completamente diferente entre um e outro. A Marvel não cancelou o Thor porque o segundo filme foi criticado, ela apenas deu um tempo pra não saturar o público, gerar demanda retida e voltar com uma nova roupagem – e Ragnarok foi um sucesso de bilheteria e de crítica. Já ouviu falar de “dar um passo pra trás pra dar dois pra frente”?

O mesmo se aplica a Star Wars. Episódios 1, 2 e 3 dividiram opiniões e lucraram abaixo do esperado, por isso tivemos um hiato de dez anos até o episódio 7. Episódio 7, por sua vez, foi aclamado por público e crítica e então a Disney prometeu um filme por ano pelos próximos dez anos – uma promessa arriscada, ainda assim menor do que a Warner com dois filmes da DC por ano. Mesmo com opiniões divididas entre Episódio 8 e Han Solo, as expectativas ainda são favoráveis pro Episódio 9, então a Disney ainda tem tempo e dinheiro pra replanejar.

Warner poderia fazer a mesma coisa – até deveria – em vez de simplesmente demitir bons funcionários, retalhar os filmes que já estão sendo feitos e fazer mudanças incoerentes a cada fracasso, enquanto a Universal poderia ter tentado mais uma ou duas vezes com outros monstros antes de sumir do mapa.

O fato é: há muitos riscos em fazer qualquer filme, mas quando você está trabalhando em algo tão ambicioso quanto um universo compartilhado, você tem que se permitir algum espaço – e verba – pra cometer erros. Até agora só a Marvel fez dar certo, mas muitas tentativas ainda vão surgir.

Só falta saber quais vão aprender com os erros do passado.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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