Home » Literatura » Trilogia Tormenta: Sadismo e Escatologia em Grande Estilo

Trilogia Tormenta: Sadismo e Escatologia em Grande Estilo

Por: Bernardo Stamato

27 de janeiro de 2018

Ouso dizer que vivemos a era de ouro da Literatura Fantástica no Brasil. Temos vários bons autores, como Affonso Solano, Enéias Tavares e Eduardo Spohr. E temos também um certo gaúcho que teve o seu primeiro romance publicado em 2004, que merece seu espaço no hall da fama dos autores fantásticos brasileiros. Hoje também conhecido pelos streamings de RPG na Guilda do Macaco Caolho, no Nerdcast RPG e até na BlizzardBrasil, Leonel Caldela é mais sádico, mais visceral e mais cruel do que seus colegas, suas obras são impiedosas, seus personagens são muito humanos e palpáveis e suas páginas tiram o fôlego. E aqui está a minha humilde opinião sobre sua primeira saga: a Trilogia Tormenta.

O Inimigo do Mundo

É difícil definir quando tudo começa. Para os mortais, foi com os assassinatos. Um ser insano conhecido com Albino surge em lugares aleatórios e espalha cadáveres por onde passa, e um grupo de aventureiros é recrutado para caçá-lo. Para os deuses – ou, até mesmo, para o Multiverso –, começa com a Deusa dos Humanos descobrindo um espaço vazio e infértil além da Criação. O Inimigo do Mundo, primeiro romance de Leonel Caldela, é ambientado no continente de Arton, cenário do jogo de RPG Tormenta. A ideia de fazer um romance para o mundo já existia entre os autores e foi ao descobrirem o talento do Caldela, que eles viram a possibilidade de dar vida à obra. JM Trevisan, um dos autores originais, foi o editor do livro e acompanhou e guiou o – na época – novato.

O resultado foi excelente: a história ficou épica, os personagens são todos cativantes, a trama envolve os leitores e as cenas de ação brutais e as personalidades desprezíveis que se revelam dão o tempero especial ao romance. Inimigo do Mundo só tem um defeito: a narrativa se torna repetitivo ao longo do livro. Os heróis caem num ciclo de descobrir uma pista sobre o Albino, seguir o rastro, encontrar um desafio muito acima da capacidade deles, uma revelação de que a pista estava errada, fuga de uma quase-morte e a descoberta de outra pista, recomeçando o ciclo. Tirando esse detalhe, o primeiro livro da Trilogia Tormenta é impecável.

O Crânio e o Corvo

O Crânio e O Corvo, segundo livro da Trilogia Tormenta, é considerado por muitos o melhor livro da saga. Muitos anos depois d’O Inimigo do Mundo, Orion, um Cavaleiro da Luz, está numa jornada em busca por seu pai – homem que desonrou sua mãe e trouxe desgraça para sua família e que deve ser morto –, enquanto sua esposa Vanessa, clériga do Deus da Guerra, está grávida e a procura do marido para que ele encerre sua vida de aventureiro e assuma seu dever paterno. A situação se complica quando Orion é convocado para ser o general das tropas da Ordem da Luz numa guerra contra Crânio Negro e sua horda de bárbaros infestados pela Tormenta – a chuva rubra que espalha destruição e corrupção.

A evolução do autor é notável. O enredo é tão bem construído quanto o do primeiro livro, mas a narrativa está mais madura, o clima mais denso, os personagens mais elaborados – um dos principais fatores para a melhoria nos personagens se dá pela redução da quantidade, enquanto O Inimigo do Mundo tem um grupo de aventureiros com nove membros, O Crânio e o Corvo se limita a cinco heróis.

Um detalhe interessante é que o título do romance representa perfeitamente a trama. O segundo livro da Trilogia Tormenta apresenta o protagonista e o vilão definitivos da saga, mas sem que eles estejam prontos: tudo o que acontece n’O Crânio e o Corvo é para prepará-los. Cada conflito, cada dor, cada perda, cada batalha, cada cena épica e reviravolta drástica tem a função de prepará-los para se tornarem o que eles realmente estão destinados a ser – o algoz da tormenta, Crânio Negro, e o general do Exército do Reinado, sir Orion Drake, sob o estandarte do Corvo.

O Terceiro Deus

O Inimigo do Mundo nos apresentou ao clima visceral da história. O Crânio e O Corvo preparou o herói e o vilão para protagonizarem o real conflito da saga. Por fim, O Terceiro Deus narrou o embate entre a Tormenta contra os artonianos e os deuses. Tudo – simplesmente tudo – que aconteceu antes do terceiro livro era meramente um preparativo para o ápice, para o confronto definitivo entre sir Orion Drake e Crânio Negro, e para os eventos que abalaram todo o Multiverso que cerca Arton. O herói se encontra pressionado e angustiado pelas circunstâncias e se vê obrigado a seguir os seus códigos de honra de forma radical para fazer o que é necessário: matar o Algoz da Tormenta que planeja nada menos que assassinar um Deus Maior e abrir caminho para que a Tormenta tome o seu lugar.

O romance se aprofunda nos personagens já apresentados de forma satisfatória e ainda consegue apresentar novos personagens tão carismáticos quanto os antigos e, como se não bastasse, introduz novos elementos ao cenário, como os Cavaleiros do Corvo e o Exército dos Deuses, tudo com um único objetivo: desafiar a Tormenta. O Terceiro Deus encerra a Trilogia Tormenta com chave de ouro e deixa como legado uma desconstrução amarga – e divertida – no mundo de Arton.

Leonel Caldela

Leonel Caldela se destaca entre os escritores de literatura fantástica pela sua narrativa cruel e impactante, recheada dilaceramentos em campo de batalha, vilões imensamente engenhosos e cativantes e reviravoltas imprevisíveis que fazem o leitor pular da cadeira.

Para quem gosta de literatura fantástica, Caldela é leitura obrigatória. Para quem gosta de tramas malévolas e impiedosas, Caldela é leitura obrigatória.

E para quem gosta de perder alguns fragmentos de sanidade, Caldela é leitura obrigatória.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

[mashshare]