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Trilogia Filhos do Éden: Quando os Anjos Jogam Xadrez na Terra

Por: Bernardo Stamato

27 de abril de 2018

Eu não sou de ler uma trilogia toda de uma vez – minha leitura é um caos, estou meio que terminando de ler quatro livros meio que ao mesmo tempo. Mas decidi fazer diferente com a Trilogia Filhos do Éden, não sei o que me deu, talvez eu tenha gostado muito do primeiro desde o começo, talvez tenha sido só mais uma ideia doida minha, sei que eu li os três livros em sequência e decidi dar minha humilde opinião sobre a obra de Eduardo Spohr. Como não são livros recentes – o terceiro foi lançado em 2015 -, vou fazer diferente aqui: vou fazer uma análise geral de cada livro e falar o que mais gostei em cada um em específico.

Herdeiros de Atlântida

Herdeiros de Atlântida é um ponto de partida e um recomeço. Quem nunca leu nada do Spohr encontra um livro que equilibra uma leitura fácil e dinâmica com um universo fértil e complexo. A narrativa segue Levih e Urakin, dois anjos em missão para encontrar sua líder, Kaira, mas quando a encontram, ela parece ser apenas uma humana sem conhecimento nenhum a respeito dos anjos e dos céus. Ao longo da jornada, o trio se vê obrigado a confiar em Denyel, um anjo exilado, e acabam desafiando todas as probabilidades para encontrar a cidade perdida de Atlântida.

O primeiro livro da trilogia conquista o leitor com um elenco diversificado e um mundo de infinitas possibilidades. Kaira – ou melhor, Rachel, a universitária que hospeda a celestial – começa como uma protagonista que está descobrindo as milhares de camadas de realidade que os humanos não contemplam, o que guia o leitor a cada nova descoberta. Urakin é o soldado que mantém a retidão e a fidelidade da equipe. Levih é aquele melhor amigo que todos gostam de ter por perto, tão generoso e benevolente, que beira à ingenuidade. Denyel é completamente diferente de todos: enquanto o trio se complementa em suas peculiaridades, ele destoa do grupo por viver na Terra há mais tempo e ter desenvolvido um instinto de sobrevivência e malandragem típico dos mortais, e por isso mesmo acaba sendo uma peça necessária e inconveniente, do tipo que não tem como o leitor não adorar.

O que mais gostei em Herdeiros de Atlântida foi a forma como Spohr equilibrou os mitos bíblicos e brasileiros. O autor já havia explorado outras mitologias em A Batalha do Apocalipse e expandiu ainda mais as fronteiras ao longo de Filhos do Éden, mas o primeiro livro da trilogia se passa quase todo no Brasil e explora também a mitologia amazônica. Andira, em particular, é uma deusa dos tempos do Império Yamí, que precedeu os índios da floresta Amazônica, que governa um reino feérico e mostra como a mitologia brasileira é poderosa, tanto dentro do universo do livro, quanto no universo literário.

Anjos da Morte

Anjos da Morte é um livro fora da curva – em todos os bons sentidos. O grande foco é o passado do Denyel, explicando não só como ele se tornou um exilado, mas também desvendando a influência dos anjos na Terra ao longo do Século XX, principalmente nos conflitos armados que mais marcaram nossa história. Denyel, um fiel soldado do Arcanjo Miguel, é designado à missão de participar ativamente das guerras dos mortais, de forma a jamais interferir, apenas se infiltrar e coletar informações, uma missão amarga e ingrata, que faz o celeste ver como os humanos conseguem ser brilhantes, perversos e fadados à tragédia – e, ainda mais crítico, uma missão que faz o celeste sentir na pele como é ser um humano.

Enquanto o primeiro livro apresenta a cosmologia do universo, o segundo se profunda na relação dos mortais e o cosmo. Inclusive, é o primeiro livro de Spohr com participação pesada de mortais, tanto os soldados nas guerras, quanto magos que se escondem em ruínas perdidas, e até forças governamentais que encontram artefatos místicos e escondem sua existência do mundo ao mesmo tempo que tentam usá-los em busca de benefício próprio. Anjos da Morte consolida Denyel como um anti-herói amargurado, apesar de convicto até o fim. Alguém que, como anjo da morte, viu tantas vidas ceifadas, que vive numa batalha paradoxal entre buscar e negar o propósito da própria existência – e da inevitável morte.

O que mais gostei em Anjos da Morte foi justamente o foco nos mortais, algo que sinto falta nos livros do Spohr. Lógico que adoro o tom épico dos anjos e demônios em batalhas cósmicas, mas tudo gira em todo do mundo mortal, então o ponto de vista “daqui de baixo” também é importante. Anjos da Morte mostra como nossas vidas são influenciadas pelo cosmo ao nosso redor, mesmo sem percebermos, e mostra também o caminho sem volta daqueles que percebem. Que Spohr escreva mais livros dentro do seu universo dando foco aos mortais.

Paraíso Perdido

Paraíso Perdido traz o grande desfecho da saga de Kaira e Denyel, além de introduzir a base de A Batalha do Apocalipse e um prelúdio para a saga de Ablon. A guerra entre os arcanjos entra em uma frágil trégua enquanto Metatron, o primeiro anjo, está prestes a concluir seu plano de salvar e proteger a Terra para sempre – nem que isso custe o livre arbítrio dos mortais. Apesar de, particularmente, não gostar quando uma narrativa é cortada no meio para que outra seja introduzida – como é o caso entre a jornada em Asgard de Kaira, a missão de Ablon nos tempos antediluvianos, para finalmente a batalha final contra Metatron -, o terceiro livro de Filhos do Éden consegue concluir de forma espetacular a trilogia e dar o pontapé para A Batalha do Apocalipse.

O terceiro livro começa em Asgard, mostrando pela primeira vez na prática como o universo pode ser diversificado não só em paisagens e habitantes, mas em leis e poderes. Acho que qualquer nerd gosta de mitologia nórdica, e Spohr honra os aesires em Paraíso Perdido. A jornada de Ablon nos mostra quem são as sentinelas, anjos criados antes mesmo dos arcanjos, e do que elas são capazes, além de explicar como e porquê Metatron foi aprisionado e apresentar a primeira missão de Ablon na Terra – e a semente das suas motivações em A Batalha do Apocalipse. Por fim, os heróis finalmente partem para a missão suicida de impedir que Metatron, uma entidade que não pode ser derrotado nem pelos arcanjos, condene a Terra à sua visão distorcida de salvação.

O que mais gostei em Paraíso Perdido foi como Spohr consegue criar as regras do seu universo e consegue usá-las de maneira coerente e épica. Isso já havia sido visto nos livros anteriores – inclusive na batalha final do segundo livro, entre Denyel e um adversário insuperável -, mas o terceiro livro é cheio de batalhas decisivas, entre dragões, aesires e sentinelas, onde os heróis precisam usar mais astúcia do que força bruta para superar desafios lendários. Spohr conseguiu amarrar criação de personagens, mundos e enredo de forma única para que todos entrelaçados fizessem sentido como uma tapeçaria divina – uma noção de divina um tanto dantesca, naturalmente. A propósito, já falei que o livro tem batalhas épicas? Esse – nada pequeno – detalhe é incrível também.

Filhos do Éden

Eu já falei a minha opinião sobre A Batalha do Apocalipse aqui, mas é notável como Eduardo Spohr progrediu na Trilogia Filhos do Éden. Os diálogos melhoraram, as cenas de ação melhoraram, a apresentação e a exploração do universo melhoraram, a complexidade e apresentação do enredo melhoraram. O resultado é uma tetralogia incrível, que merece o sucesso internacional que alcançou.

O que mais gostei na Trilogia Filhos do Éden foi esse equilíbrio entre uma cosmologia fértil e personagens intensos e carismáticos. Miguel, Gabriel, Lúcifer, Sif, Hermes, cada personagem mitológico consegue impor sua presença e seu poder através de diálogos, motivações e ações que transcendem o papel e ganham vida na mente do leitor com a intensidade de um Big Bang – ou de um Gênesis.

E mesmo depois de quatro livros, Spohr deixa claro que seu universo é expansível e ainda pode abrigar muitas jornadas lendárias. Só resta saber quando teremos mais um recomeço.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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