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Sword Legacy: Omen – Antes de Rei Artur, a Britânia já tinha a Excalibur

Por: Bernardo Stamato

21 de setembro de 2018

Embarque em uma releitura sangrenta e brutal dos mitos do Rei Artur como Uther, um cavaleiro vingativo auxiliado pelo mago ancião Merlin em busca da espada Excalibur há muito perdida. Sobreviva a intensos combates em turnos neste RPG tático enquanto viaja pela Britânia Partida, uma terra devastada pela intriga e pela guerra.

Sword Legacy: Omen é um jogo brasileiro desenvolvido pela Fableware Narrative Design – que também produziu as experiências em realidade virtual Angest e O Rastro – e Firecast Studio – que desenvolveu Jelly Dreams – e distribuído pelo Team17 – também responsável por The Escapists 2, My Time at Portia, Raging Justice, entre outros.

Um dos principais focos do jogo é a narrativa. Acompanhamos sir Uther em sua jornada para resgatar a princesa sequestrada e repelir as tropas invasoras que desejam não só dominar a Britânia, mas também fazer seu povo de cobaia pra experimentos alquímicos e sacrifício pra entidades cósmicas. Em termos de história, Uther é um cavaleiro patriota e honrado que lidera um grupo para salvar seu reino, mesmo contra as expectativas.

Merlin é o feiticeiro misterioso, que acredita em profecias e fala com muita fé, mas através de enigmas. Duanne é um jovem pajem, que se sente pequeno demais diante da imensa guerra. Gwen é uma ladra que faz de tudo pra sobreviver, até mesmo andar com seus antigos captores.

Felix é um sacerdote que se divide entre pregar sua fé pelo bem dos necessitados e fortalecer sua igreja e sua influência. Ferghus é um bárbaro do norte que deseja ressuscitar a tradição guerreira do seu povo. Flint é uma sílfide batedora, leal à sua rainha, porém desconfiada com os humanos. Por fim, Gorr é o sílfide ferreiro, um beberrão, que bate forte e fala alto.

Além da personalidade, cada um dos heróis tem uma jogabilidade totalmente distinta. Uther é o defensor, tem resistência alta, movimentação limitada e ataque moderado, excelente pra proteger e liderar os aliados. Merlin é o conjurador, que pode tanto dar dano em vários ao mesmo tempo, quanto manipular e despistar os adversários.

Duanne é um guerreiro mais tático, com sua lança de longo alcance e movimentos estratégicos, ótimo pra manter os adversário no lugar certo. Gwen é mais furtiva, útil em atacar pelas costas, provocar penalidade nos adversários e fugir, além de destrancar baús.

Ferghus é o mais agressivo, pode derrubar um – ou alguns – inimigos com facilidade, mas não tem uma resistência muito boa. Felix é bom tanto pra curar e fortalecer os aliados, quanto em penalizar os adversários.

Flint é a única que ataca à distância livremente, boa pra conter os inimigos de longe, além de encontrar caminhos secretos pelos mapas. E gorr é um guerreiro mais versátil, que sabe um pouco de alquimia e manipulação do terreno, além de desativar armadilhas.

Todos os personagens são divertidos tanto nos diálogos, quanto na jogabilidade. Falando na jogabilidade, os mapas de Sword Legacy: Omen são cheios de informações extras sobre a narrativa na forma de “descobertas” – pergaminhos e diários perdidos -, o que os torna saborosos de explorar, enquanto ficamos atentos pra próxima batalha. As batalhas, por sua vez, são desafiadoras e interativas.

Assim como cada personagem tem suas próprias habilidades, os adversários são cheios de truques nas mangas, além do cenário sempre ter obstáculos e armadilhas que podemos usar a nosso favor – tanto quanto precisamos ficar atentos pra não serem usados contra a gente.

O gratificante é que todas as vezes que eu morri, foi por culpa minha. Tanto que na terceira – ou quarta, ou quinta – tentativa, eu tirava de letra e saía ileso do combate. Tudo é uma questão de posicionar seus personagens, usar a habilidade certa na hora certa e manter o controle da situação. A curva de aprendizado é justa e o sentimento de recompensa ao vencer é garantido.

Visualmente, o jogo é um belo equilíbrio entre o cartunesco e o sombrio. As cidades são escuras, as florestas estão envenenadas, os castelos são cheios de armadilhas, sempre nos lembrando que a ameaça é constante. As batalhas não poupam sangue, desmembramento, carbonização e outros tipos de fatalidades, tudo gráfico o suficiente pra você saber que a guerra é real, mas não tão explícito ao ponto de dar revertério ou pesadelos. Tudo isso embalado numa identidade visual cartunesca e gótica, que remete a séries animadas como Gárgulas e Batman dos anos 90 ou o mais recente Castlevania do Netflix.

A trilha sonora também ajuda a ambientação visceral de Sword Legacy: Omen. Os tambores pesados marcam o ritmo tático da narrativa, enquanto os momentos de tensão são sublimes e frígidos. As músicas cumprem seu papel em climatizar cada cena e são tão divertidas que ficaram na minha cabeça ao longo do expediente de trabalho entre uma partida e outra.

Posso me gabar de ter encontrado todas as descobertas do diário? Fala sério, a graça de jogar videogame, ainda mais RPGs, é explorar cada canto do mapa e desvendar a narrativa ao máximo possível. E foi isso que eu fiz, focei todos mapas e só segui em diante depois de ter encontrado todas as descobertas. Isso deveria valer um troféu no Steam.

Ao terminar o jogo, é impossível não querer mais. Como outros RPGs indies, como Chroma Squad, Knights of Pen and Paper e Evoland, a narrativa é linear na maior parte do tempo e podemos finalizar em relativamente poucas horas – eu levei 14 horas em Sword Legacy: Omen. Foram 14 horas muito bem investidas e eu espero que a sequência seja lançada em breve – afinal, a lenda da Excalibur não está completa sem Artur.

Sword Legacy: Omen cumpre todas as suas missões. Como RPG, tem uma história divertida, personagens únicos e memoráveis e momentos de clímax épicos. Como jogo tático, tem um excelente equilíbrio entre desafio e aprendizagem. É inevitável morrer algumas vezes, mas os mapas são tão ricos que chega a ser divertido jogá-los de novo.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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