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Os erros e acertos de Altered Carbon

Por: Luiz Guilherme Cortez de Figueiredo Guedes

28 de janeiro de 2018

Nova produção da Netflix, Altered Carbon tem estreia mundial na próxima sexta, dia 2 de fevereiro. Nós já vimos e contamos o que achamos aqui para você SEM SPOILLER.

A Netflix investiu pesado na divulgação de sua nova série original aqui no Brasil: Altered Carbon teve anúncios no rádio, na TV, na Internet e em mídia exterior nas grandes capitais do país. O elenco que compõe o núcleo principal da trama também participou do painel sobre a série na CCXP, em São Paulo, em dezembro do ano passado, a fim de instigar o público a assistir a primeira temporada.

A série é baseada na trilogia homônima escrita por Richard K. Morgan, que se passa no século XXV, onde consciências podem ser armazenadas em cartuchos e reinseridas em novos corpos – chamados de “capas” – no caso de falecimento físico do indivíduo.  Mas a tecnologia, que deveria trazer liberdade e certa imortalidade, tornou-se instrumento de controle social e perversidade, ocasionando a maior parte dos problemas que surgem no decorrer da história.

Takeshi Kovacs – personagem principal – é um homem aparentemente sem escrúpulos que se envolve em crimes e é preso pela polícia, sendo condenado ao congelamento de seu cartucho. 250 anos depois ele é reencapado por ordem de um magnata, que o contrata para investigar seu próprio assassinato. Mas a galáxia colonizada pela humanidade se tornou um lugar ainda mais imprevisível, injusto e cruel do que antes. Kovacs começa sua jornada em busca de respostas, tanto para si mesmo, quanto para os problemas que surgem em seu caminho.

altered carbon
Altered Carbon

O personagem principal é interpretado por dois atores: Joel Kinnaman, o Takeshi Kovacs do presente, e Will Yun Lee, o do passado. Joel entrega uma atuação meio robótica, talvez um pouco caricata – destoante da sua versão do livro, sarcástico e debochado. Falta naturalidade em muitos momentos, o que poderia ser encarado como “normal”, se a história permitisse que o personagem não se adaptasse bem à sua capa nova – fato que não explicaremos aqui em detalhes para não dar spoiller. O Takeshi do passado é mais convincente e muitas vezes me fez desejar que a série inteira se passasse nos acontecimentos anteriores ao reencapamento do personagem.

Na minha opinião, não há nenhuma atuação extremamente marcante em Altered Carbon, muito por culpa de um problema no roteiro: nenhum dos personagens é bem aprofundado, passado e presente se conectam e reconectam o tempo inteiro, mas de forma muito picotada. O que é uma pena, porque personagens como Kristin Ortega – Martha Higareda -, Quellcrist Falcone – Renee Elise Goldsberry -, Vernon Elliot – Ato Essandoh – e Reileen Kawahara – Dichen Lachman – têm muito potencial a ser explorado, que tornaria a trama ainda mais complexa e interessante.

Um ponto que merece destaque, mesmo sendo pouco explorado, é o conflito entre ciência e religião que há na série: fanáticos, praticantes comuns, pessoas que apenas têm fé em algo, sem ligação com nenhuma religião, indivíduos que consideram a si mesmos deuses, gente que não crê em nada, cada um enxerga e julga o mundo conforme a sua crença pessoal, entrando em constante conflito por causa dessas diferenças.

altered carbon
altered carbon

Há ainda uma pegada “Black Mirror” em virtude do universo cyberpunk e repleto de problemas derivados do mau uso da tecnologia. A falta de contextualização sobre o que se tornou o planeta e como são os outros mundos, ou como a Matusa se tornou a classe dominante, também nos faz lembrar da estrutura narrativa de Black Mirror, com a – enorme – diferença que, em Altered Carbon, conhecer esses detalhes tornaria a experiência muito mais imersiva e interessante.

Mesmo com o problema da superficialidade, há um ponto louvável na história: a perda do fator humano do indivíduo. Pessoas se tornam claramente objetos comerciais em todos os sentidos possíveis, não há mais apreço pela vida ou pelo corpo, almas se resumiram a consciências trancadas em cartuchos. Não existe limite, certo ou errado: o que existe é uma classe dominante e uma maioria completamente subjugada. O fator comum a todas as situações-problema é a perda da noção de humanidade, de finitude, de valores. Vale tudo para estar acima de alguém ou ser melhor em algum aspecto. É uma crítica pertinente e interessante para a sociedade atual sobre os rumos que a humanidade pode tomar, caso permaneça em um ritmo incansável de mudanças sem reflexões aprofundadas a respeito de suas consequências.

Sobre os episódios em si: achei os quatro primeiros um pouco massantes e previsíveis. Do quinto episódio em diante, o ritmo muda um pouco e melhora a experiência do espectador. Acompanharia uma segunda temporada confiando que nela os personagens sejam aprofundados como merecem, mas se a história simplesmente seguir em frente, há grandes chances da série se tornar um clássico “tiro, porrada e bomba” sem nenhum roteiro marcante por trás.

altered carbon
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Por fim, vale a pena assistir Altered Carbon por sua representatividade dentro do gênero e pelo entretenimento em si. Porém, se você procura uma série revolucionária, ou que possa chamar de “série da minha vida”, provavelmente não vai encontrar nela a sua preferida. De 0 a 5 estrelas, minha nota seria um 3,5.

Melhor Episódio: 07

Pior Episódio: 01

altered carbon
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Autor: Luiz Guilherme Cortez de Figueiredo Guedes

Founder do GRUPO EPIC, especialista em conectar grandes marcas ao mercado POP | GEEK | NERD | GAMER. www.guedesonline.com

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