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O Silmarillion: Ainda Vale a Pena Ler?

Por: Bernardo Stamato

4 de setembro de 2018

Antes de mais nada, eu preciso falar que gosto d’O Senhor dos Anéis. Na verdade, eu adoro praticamente tudo d’O Senhor dos Anéis, apesar de “só” gostar dos livros – e O Senhor dos Anéis é muito mais do que os livros. É filmes, jogos, RPGs e basicamente quase toda a fantasia feita depois dele. Lógico que os livros são o começo de tudo, mas ainda assim são livros escritos por um linguista (não um romancista) britânico (não um brasileiro) na década de 30 (meu avô ainda era criança), ou seja, um autor que não era especializado em narratologia, não falava o nosso idioma e viveu em outra época, muitos atributos que tornam sua leitura um tanto problemática para um brasileiro no século XXI. E tanto quanto ninguém é obrigado a ler os quadrinhos da Marvel para gostar dos filmes da Marvel, ninguém é obrigado a ser fã dos livros d’O Senhor dos Anéis para gostar do multiverso de coisas que foram lançados depois deles.

Glaurung destrói Nargothrond em O Silmarillion

Dito isto, eu não li O Silmarillion até o final por alguns motivos. Se O Senhor dos Anéis já é uma trilogia que exige um esforço para ler, O Silmarillion é ainda mais pesado. Eu não conheço ninguém que tenha lido O Silmarillion até o final sem precisar fazer anotações sobre os muitos termos que o Tolkien usa. Se eu preciso conferir um bloco de notas a cada linha de um livro para entender o que está acontecendo, eu não vou estar de fato me concentrando e degustando o livro na minha mão.

Deixa eu explicar melhor. Nenhum nome na Terra-Média é comum. Você já deve conhecer Aragorn, Frodo, Sauron, mas você só conhece porque são nomes que já estão eternizados na cultura pop. Não são nomes intuitivos, são estranhos e você apenas decorou eles em algum momento – eu digo estranhos não só no sentido de esquisitos, mas também no sentido de desconhecidos e complexos. N’O Senhor dos Anéis, esses são três dos muitos nomes que estão nos livros do começo até o final, então você consegue ler sem precisar do tal bloco de notas. Mas tudo na Terra-Média tem um nome desse tipo. Cada personagem, cada reino, cada arma, cada raça, cada poça d’água. E eles não têm só um nome estranho, eles têm vários nomes estranhos! Uma versão em élfico, outra versão entre os homens, uma variante dos elfos, e assim vai. São muitos nomes e todos são estranhos. E, diferente d’O Senhor dos Anéis, que os principais nomes vão do começo até o final da trilogia, O Silmarillion é um único livro onde muitos dos nomes se renovam de um capítulo para o outro. Você começa a memorizar os nomes daqueles personagens, reinos, armas etc e no capítulo seguinte tem que aprender muitos outros. Isso é um obstáculo na leitura e é péssimo ter tantos obstáculos como leitor.

Alguns dos muitos nomes estranhos em O Silmarillion

Como se não bastasse o excesso de nomes estranhos, a narrativa também sofre de alguns problemas. O primeiro ponto aqui é a narrativa indireta: O Silmarillion não narra uma história, ele descreve acontecimentos. Tem pouquíssimos diálogos e ações, é muito mais uma descrição superficial do que aconteceu com os reinos e os personagens, para onde foram, quando morreram, quem brigou com quem e coisas do gênero. Sinceramente, um livro inteiro assim simplesmente não é divertido. E os próprios acontecimentos descritos não são tão bons assim. Eu perdi a conta de quantas profecias foram ditas e quantas vezes alguma águia gigante salvou algum personagem da morte certa. Como que tantos personagens têm o dom da profecia e de que serve falar essas profecias o tempo todo? E não esqueça que eu falei que o elenco muda de um capítulo para o outro, então é muita coisa acontecendo em pouca página, o que ficou bem confuso. Eu entendo ler um capítulo assim a critério de informação, mas um livro inteiro nesse ritmo?

O Silmarillion acaba sendo uma espécie de enciclopédia sobre a história da Terra-Média, mas não é uma enciclopédia divertida de ler. Hoje em dia nós temos o Filhos do Éden: Universo Expandido do Eduardo Spohr, O Mundo de Gelo e Fogo do George R. R. Martin e até mesmo o World Of Warcraft – Crônica, belos exemplos de enciclopédias de mundos fantásticos, que são leituras deliciosas. Tenho certeza que um livro com todas as informações d’O Silmarillion, mas organizado de outra forma teria ficado muito mais interessante.

Túrin enfrenta Glaurung em O Silmarillion

Acho importante notar também que o filho do Tolkien lançou alguns livros nos últimos tempos. Histórias como Os Filhos de Húrin e A Queda de Gondolin já foram narradas n’O Silmarillion, mas agora foram lançadas como romances propriamente dito. Não tive a oportunidade de ler ainda, mas se forem tão bons quanto O Hobbit e a trilogia O Senhor dos Anéis, com certeza são livros incríveis.

O Silmarillion peca pelo excesso e pela narrativa. São muitas histórias condensadas em poucas páginas, de uma forma que é fácil se perder entre tantos nomes estranhos. É uma leitura difícil e não achei nada recompensadora. Com certeza os fãs do Tolkien estão me considerando um herege nesse momento, e eu entendo porque eles adoram O Silmarillion. E esse é o ponto: se você leu O Hobbit e O Senhor dos Anéis e adorou esses livros, provavelmente vai gostar d’O Silmarillion também. Mas se você não adorou, se você só gostou, aí é bem provável que O Silmarillion não seja uma leitura para você – como não foi para mim.

Eu continuo adorando O Senhor dos Anéis. Tolkien está para a literatura fantástica como os Beatles estão para o rock e isso é um baita mérito. Mas isso não quer dizer que eu gosto de tudo que o Tolkien escreveu – principalmente aquilo que foi editado pelo filho dele – e nem que eu goste de todas as músicas dos Beatles.

Enfim, se você adora o Tolkien, leia e ame O Silmarillion. Se não, O Silmarillion é um prólogo totalmente desnecessário.

PS: Antes de tacar pedra em mim, saiba que Stephen King também não gostou d’O Silmarillion, então eu não sou o único.

Fingolfin enfrenta Morgoth em O Silmarillion

 

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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