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O Príncipe Dragão: É uma boa ideia produzir série e jogo ao mesmo tempo?

Por: Bernardo Stamato

3 de outubro de 2018

Os príncipes humanos Callum e Ezran começam uma inesperada aliança com Rayla, uma elfa assassina enviada pra matá-los, quando o trio encontra o ovo do Príncipe Dragão. Juntos, eles embarcam em uma jornada épica na busca de paz pra seus reinos em guerra.

O Príncipe Dragão é a mais nova série animada do Netflix, escrita por Aaron Ehasz, criador de Avatar: A Lenda de Aang e A Lenda Korra. Se você quiser ter uma noção bem resumida da animação, ela é basicamente “Dragon Age pra todas as idades”. Se quiser entender o que isso significa, vem comigo.

O mundo de O Príncipe Dragão foi dividido por uma guerra entre humanos e elfos. Enquanto os elfos dominaram todos os tipos de magia, os humanos inventaram uma forma inescrupulosa de absorver energia vital e transmutá-la em poder arcano. O mundo entrou numa paz tênue quando os dois reinos foram literalmente separados, mas tudo muda quando uma comitiva de elfos assassinos invade a capital humana pra assassinar o rei e seus herdeiros.

Callum, Ezran, Isca e Rayla são os protagonistas. Callum é enteado do rei, um jovem nada habilidoso com armas, mas cheio de curiosidade por tomos antigos e mistérios ancestrais. Ezran é o herdeiro legítimo, um jovem que não oferece nenhuma habilidade ao grupo, a não ser seu coração gentil e sua convicção de sempre fazer o certo. Isca é o inseparável animal de estimação de Ezran, uma mistura de sapo com bulldogue, feinho e amável. Rayla é uma jovem elfa que quer fazer o melhor pro seu povo, o que começa com ordens de assassinato, mas logo se transforma numa missão épica quando ela descobre que o ovo do Príncipe Dragão não foi morto e que a paz entre as duas raças ainda é possível.

Além dos heróis, a série é cheia de personagens carismáticos, como o benevolente rei Harrow, o dúbio conselheiro Viren e seus filhos, a perspicaz maga Claudia e o abobalhado cavaleiro Soren, o implacável elfo assassino Runaan, a resoluta amazona Amaya, e não há espaço pra citar todos e nem pra dar a cada um o seu devido crédito. O que devo dizer é: O Príncipe Dragão é cheio de personagens cativantes.

A narrativa se divide entre a guerra dos humanos contra elfos e a aventura de Callum, Ezran, Isca e Rayla. O grupo logo percebe que não conseguiria a paz através do diálogo simples, então parte numa jornada pra proteger o ovo do Príncipe Dragão, provar pros elfos que ele ainda está vivo e encerrar a guerra de uma vez por toda. Enquanto os jovens se aventuram, os veteranos medem forças, explicando ao espectador a história da guerra, as regras da magia e todos os pormenores que tornam a paz tão improvável. Infelizmente, a primeira temporada termina do nada, sem fechar um arco narrativo. É evidente que haverá sequência e um jogo também está sendo produzido simultaneamente, então a promessa é que a história se desdobre em inúmeras aventuras, mas eu preferiria uma conclusão mais sólida pra primeira temporada em vez de um corte tão abrupto.

Visualmente, O Príncipe Dragão divide opiniões. A animação mescla 3D e 2D, sendo renderizada em 3D, mas polida com pintura digital. Por um lado, essa técnica ofereceu detalhes realmente belos e minuciosos aos personagens e cenários, por outro, o frame rate – quadros por segundo – ficou baixo, prejudicando a fluidez das cenas. Acredito que os fãs de Aaron Ehasz esperavam uma animação ao nível de Avatar, então seria melhor o estúdio investir um pouco menos em detalhes e mais na fluidez da animação.

Considerando que O Príncipe Dragão é um projeto transmídia, talvez a série tenha sido lançada cedo demais. Como eu disse, um jogo está em desenvolvimento, mas não temos absolutamente nada, nenhum trailer ou screenshot, o que indica pelo menos mais dois anos de desenvolvimento. Se a ideia é produzir série e jogo ao mesmo tempo, o único motivo que vejo de lançar a série tão cedo é a necessidade da empresa pagar suas contas. Talvez fosse melhor lançar um curta-metragem ou uma série de curtas com menos episódios, apresentando o mundo e a guerra em vez de partir direto pra jornada do ovo do Príncipe Dragão. A proposta transmídia é boa, mas só o tempo vai dizer se vai valer a pena.

E sobre a comparação inicial com Dragon Age, é inevitável encontrar semelhanças entre as duas franquias. Rixa entre raças, magia profana, dragões épicos. Não chega a ser um plágio, o mundo apresentado é distinto o suficiente, mas os temas abordados com certeza nos remetem à fantasia sombria de Dragon Age. De fato, estava faltando uma franquia com classificação infantil que abordasse todos esses elementos.

Eu gostei da animação, irei assistir à segunda temporada e quero ver como vai ficar o tal jogo. Com certeza os personagens e o mundo têm potencial pra muitas aventuras, mas tenho receio de que o lucro não alcance tanto investimento. Por enquanto, ainda falta muito pra O Príncipe Dragão honrar o legado de Avatar.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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