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O Amante de Um Dia – Crítica

Por: Bernardo Stamato

15 de março de 2018

Após um doloroso término de namoro, Jeanne – Esther Garrel – vai pra casa do pai, Gilles – Éric Caravaca -, um professor universitário de filosofia. Estabelecida, a jovem ainda abatida pela separação descobre que a namorada do pai, Ariane – Louise Chevillotte -, tem a sua idade e, aos poucos, as duas começam a compartilhar segredos.

O Amante de Um Dia é ao mesmo tempo um filme “solo” e a última parte da “trilogia do amor” do diretor Philippe Garrel, iniciada em 2013 com Ciúme e seguida dois anos depois com À Sombra das Mulheres. O Amante de Um Dia comemora 50 anos de carreira do diretor e mostra como ele consegue narrar uma história de amor e tragédia com maestria e delicadeza.

O que mais me chamou a atenção no filme foi a dinâmica entre os três personagens centrais. Eu diria que o filme é a história do pai e da filha, cada um vivendo um momento diferente do amor – enquanto o pai está feliz e apaixonado num romance inusitado e praticamente secreto, a filha está sofrendo a desilusão de ter acreditado que teria um futuro ao lado do seu amor e agora não sabe o que fazer com a própria vida.

A terceira personagem, Ariane, é ao mesmo tempo quem move a maior parte do enredo, quanto uma secundária na vida do namorado e da “nora”. Ela é inteligente, participativa, sensual e companheira, realmente uma personagem fascinante. Ariane provavelmente é a engrenagem central de O Amante de Um Dia. Mas tanto quanto ela faz a história se mover, essa não é a história dela, é a história de Gilles e Jeanne.

O filme tem um ritmo e uma narrativa muito prazerosos. Os cenários e os ângulos foram escolhidos com esmero, valorizando a casualidade das cenas. Os diálogos são ao mesmo tempo despreocupados e profundos, ora falando sobre amor, ora falando sobre a vida, ora falando sobre nada. Cada personagem que convive na mesma casa está passando por um momento único e distinto, e ainda assim eles convivem e compartilham, às vezes em harmonia, às vezes em crise.

O Amante de Um Dia conquista pelas sutilezas e pelo realismo ao mesmo tempo banal e intrínseco. Algumas cenas são tão mundanas que sentimos que passamos por elas cotidianamente. Outras são tão absurdas que sentimos que já vivemos ou presenciamos algo idêntico ou semelhante. O conjunto da ópera é tão inusitado que com certeza poderia ser real.

No fim das contas, o filme faz todo sentido. É uma história de amor legítima, onde o espectador já se sentiu na pele de cada um dos personagens. Consegue surpreender, mas sem fazer pular da cadeira, e sim respirar fundo, arregalar os olhos e pensar “vai dar ruim” e “como eu não notei que isso ia acontecer?”.

O Amante de Um Dia é um filme que nos faz lembrar o quanto somos humanos e falhos – e como isso é prazeroso.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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