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Noitário de A Todo Vapor! – O Desafio dos Figurinos

Por: Enéias Tavares

13 de março de 2018

Nesta semana, nosso Noitário de Produção traz uma conversa super animada entre Enéias Tavares e as responsáveis por um dos departamentos mais desafiadores no desenvolvimento de qualquer audiovisual: o figurino. E ainda mais quando o projeto significa uma série steampunk passada em 1908. Fiquem com o nosso roteirista e com as talentosas Jesse Reeves, Débora Puppet e Thaís Viana!

Retomamos o Noitário de Produção nesta semana para tratar de um assunto para lá de complicado. Mesmo que você parta de concepts já pensados para serem transformados em roupas reais e práticas – como foi o trabalho de Karl Felippe, que discutirmos no último texto da coluna – os desafios são vários, a começar pelo financeiro e pelo prazo apertado. Figurinos eficientes e visualmente aprazíveis exigem um orçamento opulento, algo que nunca foi o forte do nosso projeto, que desde o início contou com profissionais talentosos e experientes, mas sem o orçamento de grandes produções.

Assim, foi com coragem e paixão que Jesse Reeves, Débora Puppet e Thaís Viana aceitaram o desafio. Jesse é uma integrante do Conselho Steampunk de São Paulo e uma estudante de moda; Déb é arquiteta, estilista e a responsável pelo Canal Steampunk no Youtube e uma aficionada pela estética retrofuturista; já Thais Viana é formada em Design de Moda e a criadora da Trapezia, marca que desenvolve cosplays e coleções de moda pin-up. Das três, Viana é a que entrou por último no projeto e a que acabou assinando boa parte dos figurinos da série. No bate-papo que segue, tive o prazer de conversar com essas damas de um futuro passado sobre como foi e como está sendo o trabalho apaixonante – e insano! – de dar vida aos personagens de A Todo Vapor!

Jesse Reeves, Débora Puppet e Thaís Viana trabalhando A Todo Vapor!

Olá, queridas. Muito obrigado por aceitarem o convite. É um prazer conversar com vocês e saber um pouco mais do processo criativo por trás dos figurinos de Juca Pirama, Capitu de Machado e Vitória Acauã, entre outros heróis da série. Pra começar, me falem um pouco das influências que vocês trouxeram pro trabalho com os figurinos.

Jesse Reeves: Influências visuais como From Hell e Hugo Cabret estavam em minha mente quando montávamos os primeiros figurinos. Em resumo, quadrinhos e cinema.

Débora Puppet: Me inspirei muito nos figurinos de Penny Dreadful e, acima de tudo, me foquei muito na estética do steampunk, presente em filmes e clipes de música e também, claro, na responsabilidade que estava sendo recriar esses nomes da literatura brasileira clássica.

Thaís Viana: Nos inspiramos nos trajes da Era Vitoriana, porém trouxemos peças básicas e clássicas de roupas sociais que foram adquiridas em brechós e bazares. Mas confesso, a grande maioria das roupas faz parte do guarda roupa pessoal de cada uma, além dos guarda-roupas dos atores e de apoiadores do Conselho Steampunk, como a Petra Leão, que nos emprestou muitas coisas, além da Luciana Oliva, da Korukru. Também foram de grande auxílio os concept arts do Karl Felippe, que nos inspiraram muito. Cada figurino foi pensado também de acordo com as características dos personagens da série e suas origens.

Thaís Viana e Débora Puppet dando os últimos retoques no figurino de Vitória Acauã

A próxima pergunta tem a ver com isso, Thaís. Eu percebi que alguns dos figurinos seguiram à risca os concepts, como o da Vitória Acauã da Pamela Otero. Já o figurino da Capitu ficou bem diferente. Isso foi uma limitação financeira ou de materiais?

Reeves: Infelizmente, não conseguimos seguir os concepts do Karl à risca, pois eles eram muito bons e detalhados, além de muito bonitos, e não tínhamos nem tempo nem o recurso necessário. Karl chegou ao pronto de sugerir até mesmo o tecido ideal para a confecção de algumas peças. Como não tínhamos como corresponder a essas referências, por razões financeiras mesmo, os usamos como principal inspiração para nosso trabalho.

Puppet: Eu acredito que a grande dificuldade esteve na contraposição entre tempo x limitação financeira x qualidade. Queríamos fazer um figurino bem detalhado, porém por conta desses pontos acabamos optando por algumas escolhas mais práticas e adaptando com materiais e peças que tínhamos à mão. O elenco é muito grande – mais de trinta atores! – e com isso tivemos o desafio de adequar as roupas de todos os protagonistas e figurantes contando apenas com três pessoas. Quanto aos concepts do Karl Felippe, eles nos ajudaram de uma forma tremenda, pois nos deram um norte em relação a qual caminho seguir, porém tivemos de fazer algumas adaptações e em alguns personagens, tivemos de seguir outra direção, partindo não do ideal, e sim das peças e acessórios que tínhamos em mãos.

Viana: Assim como os props, nem todo figurino steampunk é possível de se encontrar pronto. Algumas peças de roupas foram bem difíceis de encontrar. No caso do Dr. Benignus, por exemplo, um dos figurinos mais marcantes, partimos da ajuda do Bruno Accioly, que confeccionou o casaco do nosso doutor baseado no seu cosplay de Dr. Steel, feito pra SteamCon de 2017. Quanto aos materiais em si, falamos de veludos, couros e tecidos de decoração, que são materiais que custam caro. Além disso, os figurinos têm de ter certa mobilidade pros atores, pois diferente de um ensaio fotográfico onde tudo é possível com truques e efeitos no Photoshop, no cinema as roupas tem de ser duráveis e de fácil vestimenta – dentro do possível, claro. Personagens como Dr. Benignus, interpretado por Luiz Carlos Bahia, e do Bento Alves, vivido por Claudio Bruno, particularmente considero os mais complexos de serem montados em set. Além disso, desenvolver cada figurino do zero gera custos com teste de peça piloto, roupa feita sob medida e provas com cada ator. Ou seja, um trabalho de meses, que tivemos de fazer em semanas ou dias. Então, você pode imaginar a loucura que está sendo produzir os figurinos dessa série.

Outros figurinos de A Todo Vapor!

Já que vocês falaram de props, podem detalhar um pouco a dificuldade que tiverem com eles. Afinal, a série conta com goggles estilosos, bússolas impossíveis, armas exóticas, dispositivos eletrostáticos, projetores fantasmáticos, além de retrofuturistas cafeteiras! Como produzir todas essas coisas? Certamente isso não ficou aos cuidados de vocês!

Viana: Não, porque seria impossível. De fato, um dos maiores desafios foram os props ou acessórios que, em grande parte, não são encontrados prontos ou com materiais que não são fáceis de achar, mesmo numa cidade como São Paulo. Então você tem que fazê-los do zero muitas vezes. Como nós estávamos trabalhando nos figurinos, não teríamos como assumir a customização dos props, por mais que nós três tenhamos essa experiência.

Puppet: Felizmente, o meio steampunk é muito generoso e criativo e o Conselho Steampunk, uma mina de ouro de talentos. Assim, tivemos a ajuda do Alexandre Bader, da Isa Alves, do Andre Kalixto, do Marcos Barolli, de São Paulo, e do Ricardo Cavalcanti, do Rio de Janeiro, que nos emprestaram muitos dos props que usamos. Além disso, o Hermes Barreto Neto, que tem um estúdio incrível de criação de props e cosplay em Brasília, passou quatro meses trabalhando diariamente em props inacreditáveis de lindos e fantásticos pra série.

Viana: Ou seja, tivemos ajuda de muitas pessoas criativas e empenhadas pra que nossos figurinos tivessem elementos com um nível muito profissional, todos produzidos ou emprestados com muito carinho. Levamos isso em conta ao cuidar de cada uma dessas peças, que estão devidamente guardadas e protegidas.

O figurino final de Vitória Acauã – Pamela Otero

Eu gostaria de estender meus agradecimentos aos amigos citados acima. Num noitário futuro, quero também conversar com eles sobre a artesania da customização. Sem esses props e os figurinos de vocês, A Todo Vapor! não seria possível. Pra finalizar, Jesse, Deb e Thaís, podem descrever o trabalho referente à criação dos figurinos da série, detalhando a complexidade de todo o processo?

Reeves: Na montagem do figurino, sempre partíamos de peças prontas. Com elas, iniciamos a montagem com uma roupa base – calça e camisa para os homens e vestido ou saia e camisa para as mulheres – logicamente levando em consideração as especificidades de cada personagem, classe social, personalidade e ações durante a série. Então, depois da montagem base adicionamos os acessórios steampunk, fazendo ajustes e costuras quando eram necessários, levando também em conta as opiniões dos produtores e dos próprios atores.

Puppet: Eu auxiliei em todo o processo de criação dos personagens principais e também de alguns secundários, além de ter confeccionado algumas peças e reformado outras, como o casaco do Juca Pirama. Primordialmente, partimos do meu acervo pessoal de figurinos, selecionando peças que foram somadas a algumas peças da Jesse e da Thaís. Depois, fomos atrás de vários brechós. Os atores também levaram peças menores, como sapatos ou calças. Foi uma produção totalmente colaborativa, no melhor estilo do Faça Você Mesmo, que é a base da estética steampunk. E o espectador verá isso na tela!

Viana: Cheguei neste projeto através da Débora. Além de sempre curtir figurinos de peças de teatro e de filmes, eu já tinha certa intimidade com o tema steampunk. Inclusive foi através de um Picnic Steampunk que eu a conheci, em 2010 mais ou menos. Quando aceitei participar como figurinista da série, vi uma grande oportunidade de pisar em novas terras e também de divulgar a minha marca, a Trapezia, onde desenvolvo figurinos e cosplays. Inicialmente, a ideia era eu dividir a minha experiência como produtora de moda com as meninas. Mas acabei me dedicando bem mais do que eu previ no início. Estou presente em todas as filmagens e definitivamente lembro de cada detalhe de cada figurino. Mesmo assim, sempre confiro as fotos que temos como referência para a continuidade das filmagens. Antes dos atores entrarem em cena, checo tudo isso. Com alfinetes, fita crepe, costura feita à mão e consertos de roupas e acessórios que surgem durante nossa trajetória de filmagens. É assim que trabalho, com esta equipe que me recebeu de braços abertos e com quem me divirto bastante. Fazer parte deste projeto tem sido uma montanha russa de sentimentos, pois estamos dando toda a nossa energia e nossa dedicação para que este projeto aconteça! Desviando de imprevistos e de outros problemas menores aqui ou ali, na real, o que importa mesmo é fazer parte de um projeto maravilhoso como esse e que têm me dado grande experiência profissional.

Muito obrigado por esta conversa, meninas, e parabéns ao trabalho primoroso de vocês. Os figurinos estão lindos e o público já está começando a notar e a elogiar. Como criador desse universo e cocriador da série, ao lado do Felipe Reis, fico muito emocionado ao ver esses personagens ganharem vida nas mãos de vocês e na pele dos atores maravilhosos que temos conosco. Sem dúvida, pra todos os envolvidos, tem sido um projeto inacreditável, de muitos desafios, alegrias e grande aprendizado!

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E confira também as demais entradas do diário, Montando o Vapor clicando aqui, Definindo os Suspeitos clicando aquiQuem gosta de literatura brasileira clicando aqui.

Author: Enéias Tavares

Enéias Tavares é o criador de Brasiliana Steampunk – Editora LeYa – e cocriador de Guanabara Real – Editora Avec –, duas séries ambientadas em um Brasil retrofuturista. É um dos coordenadores do projeto Bestiário Criativo na UFSM, onde ensina Literatura Clássica. Nas poucas horas vagas, escreve, caminha e pesquisa a História da Literatura Fantástica no Brasil, junto de Bruno Matangrano, para o projeto Fantástico Brasileiro. Ministra workshops de escrita de ficção e projetos transmídia, além de integrar e gerenciar o Grupo Epic.

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