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Noitário de A Todo Vapor – Locações

Por: Bernardo Stamato

3 de Maio de 2018

Nesta nova entrada do Noitário de Produção, Enéias Tavares discute o desafio de encontrar por locações adequadas para a criação de cenários em um projeto audiovisual. Especialmente quando se parte de um mundo ideal e se chega à dura realidade: a falta de incentivo de muitas prefeituras para a realização de arte no Brasil!

Em julho de 2014, eu estava imerso nas provas finais de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, que seria lançado na bienal do mês seguinte, quando recebi a notícia de que teríamos, no estande da LeYa Brasil, a participação do Conselho Steampunk de São Paulo. Além de grato pelo apoio ao lançamento, fiquei ainda mais surpreso em saber que eles faziam um evento anual fantástico e de total imersão num pequeno vilarejo do interior de São Paulo: Paranapiacaba, uma vila ferroviária congelada no tempo que serviu de base de operações quando os ingleses vieram construir a malha ferroviária paulistana. Além de cenários surreais, histórias de fantasmas (verdadeiras, obviamente) e uma beleza natural fascinante e selvagem – eu voltaria várias vezes aquele cenário, uma delas para uma trilha perigosa e inesquecível, na companhia dos amigos Raul Cândido, Adriana Cabral e Giovana Bomentre – Paranapiacaba era também a cidade da névoa espessa, uma neblina que surgia sem avisar, muitas vezes transformando um ensolarado meio-dia em um climático inverno europeu!

Cartazes da Primeira e da Mais Recente SteamCon & um pouco da sua audiência!

A SteamCon já teve cinco edições e em todas elas o que os visitantes puderem ver foi um festival de amantes da estética retrofuturista dando um show, uma programação cultural de fazer inveja a qualquer evento e atrações que envolviam desde o Circo de Horrores do Dr. Absonus até a Caça ao Tesouro organizada pela Aliança Pirata de São Paulo, além de um mercado de produtos variados que incluíam relógios, goggles, livros, luminárias, roupas, acessórios, absinto (!) e cupcake (!!). Na última edição, ela concorreu ao Guinness de Maior Evento Steampunk do Planeta. Infelizmente, não ganhou, mas ficou na lembrança a tentativa audaciosa e inspiradora dos organizadores, os mesmos Raul e Adriana citados anteriormente.

Por todas essas razões, quando chegou a hora de pensar num audiovisual inspirado no universo de Brasiliana Steampunk, não pude não pensar imediatamente na vila turística e ferroviária de Paranapiacaba. É claro que seria apenas um cenário inspirado no mundo real, como adoro fazer com todas as cidades brasileiras que acabo usando para as minhas histórias. Além disso, também num esforço de redescobrirmos nosso patrimônio cultural e geográfico tão desmerecido. Foi assim que nascia Parapiacaba das Névoas e seus cenários insólitos, como a Árvore do Enforcado (e sim, ela existe!), a Pensão McHell (inspirada na Hospedaria Avalon), o Castelinho Camargo e o Theatro Lyra dos Ventos, onde se daria o clímax do oitavo episódio.

SteamCon de Paranapiacaba pelo olhar de Jota Jota Rugal e Marco Sanches

O roteiro dos oito episódios foi pensado exatamente assim, como um passeio por Paranapiacaba, tendo por mote muitos dos seus cenários e lugares. Felipe Reis já havia definido que as filmagens internas dificilmente se dariam nos interiores reais, uma vez que além das permissões serem mais difíceis, poucos lugares eram cênicos o bastante para tal empresa. Além disso, desde o início, nossa intensão era a de homenagear Paranapiacaba e não interferir de qualquer maneira nas vidas ou nas rotinas de seus moradores. Com isso em mente e com o roteiro já escrito e fechado – na época estávamos realizando já as leituras com o elenco e a equipe – iniciamos o processo para obtenção das licenças, preenchendo os formulários, encaminhando as informações da equipe e dando continuidade aos trabalhos de pré-produção, que envolviam transformar uma roteiro de oito episódios em diárias. Mas como não tínhamos previsto, conseguir essa liberação não seria tão fácil quanto pensávamos!

Como Paranapiacaba não é um município autônomo, sua administração está aos cuidados de uma das Secretarias da Prefeitura de Santo André. Ao entregarmos aos responsáveis toda a documentação necessária para as filmagens, recebemos duas respostas, ambas pedindo mais informações sobre o projeto, tanto sobre o nível de violência quando a eventuais situações envolvendo sexo e erotismo. Nas duas respostas, explicamos detalhadamente que nossa proposta era produzir um seriado de aventura e suspense que não tivesse classificação etária. Obviamente, há cenas de proximidade amorosa – dois beijos, para ser mais exato! – e de lutas, uma vez que temos heróis e… vilões. Como em todo projeto, compreendemos perfeitamente tal cuidado, uma vez que a utilização de espaços públicos necessita de tais esclarecimentos.

Algumas das Locações de Paranapiacapa visitas por Felipe Reis para as Filmagens

Para a nossa alegria e tristeza, tivemos a permissão de filmagem – calculamos que iríamos utilizar cinco diárias para todas as cenas pretendidas – mas apenas mediante pagamento de R$ 3.500,00 por dia. Sim, façam as contas e pensem em quanto iríamos gastar! Diante de tal resposta, elaboramos uma detalhada descrição do projeto – além das duas respostas prévias que já havíamos encaminhado – que comunicava, entre outras coisas, que a) Nossa produção era independente, contanto com um orçamento limitadíssimo, que não incluía verba para o pagamento de locações; b) que nosso propósito era educacional, uma vez que tratava-se de uma reinterpretação da literatura brasileira em um contexto super-heroico; e c) que nossa meta também era cultural, uma vez que a realização da série reverteria em visibilidade para a própria Vila de Paranapiacaba, que vive também de turismo e visitação periódica.

Infelizmente, nossos pedidos foram negados – uma, duas e três vezes. Tentamos outras abordagens, desde conversarmos com conhecidos que trabalham na Prefeitura de Santo André até fazermos novos encaminhamentos. Todos frustrados, para a nossa grande tristeza. Nesse meio tempo, Felipe Reis já estava buscando outras opções e encontrou uma locação muito boa e adequada aos nossos propósitos em Campinas, num lugar chamado Vila Antiga. Foi assim que, pouco a pouco, percebemos duas coisas: Primeiro, que seria mais aconselhável alterarmos a geografia da cidade pretendida inicialmente, uma vez que não conseguiríamos gravar todas as cenas no mesmo lugar. Segundo, que seria inteligente, dada a frustração de homenagearmos a cidade que tanto gostávamos, alterar o nome do nosso cenário. E foi assim que Paranapiacaba das Névoas se tornou Vila Antiga dos Astrônomos!

Outras locações visitadas pela equipe de A Todo Vapor!

Como as filmagens já tinham começado, vários elementos do roteiro original continuariam lá, e os amantes da sede da SteamCon irão notar: a história do enforcado, a lenda do véu da noiva, a ideia do Castelinho onde vive Aurélia Camargo e o Theatro Netuno, no centro da vila. Mas agora, o que temos é um apanhado de várias locações – mais de 20 – unidas apenas pela nossa imaginação e materializadas pela galera da edição. Foi nessa época também que começamos a produção do mapa da cidade, que ficou aos cuidados da artista e designer Jessica Lang. Como Lang já havia trabalhado comigo nos mapas de Brasiliana Steampunk e também num outro projeto envolvendo minha cidade natal – Sussurros da Boca do Monte, coletânea de contos organizada por Jessica Dalcin – ela foi uma das nossas primeiras escolhas para a geografia improvável da nossa cidade cenográfica imaginária.

Mapa Fumacento do Cenário de A Todo Vapor!, por Jessica Lang

A busca por locações é uma constante em qualquer projeto audiovisual. Segundo Felipe Reis e Thais Barbeiro, talvez uma das tarefas mais inglórias e trabalhosas. Para um escritor dedicado à recuperação das nossas cidades e dos nossos espaços, trabalhar em A Todo Vapor! tem sido uma aventura fascinante e a construção dessa cidade de sonhos e pesadelos que é Vila Antiga dos Astrônomos, ao lado de Reis e Lang, uma dádiva do início ao fim. Por outro lado, a frustração do diálogo com os gestores de um espaço público como o de Paranapiacaba e sua recusa em entender tanto o retorno cultural que nosso projeto daria à vila como também nossas condições de trabalho foram sem dúvida frustrantes.

Mas o que fica é a esperança de que A Todo Vapor! também ajude a mudar esse panorama. Se fazer arte neste país é constantemente transformar limão em limonada, acho que teremos um belo refresco para dias quentes abafados: Sejam Bem-Vindos à Vila Antiga dos Astrônomos! Apenas tomem cuidado com suas ruas desertas e sombras frondosas, especialmente depois do anoitecer. Dizem que arcanos do Tarô estão sendo usados como inspiração para crimes medonhos!

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E confira também as demais entradas do diário, Montando o Vapor clicando aquiDefinindo os Suspeitos clicando aqui e Quem gosta de literatura brasileira clicando aqui.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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