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Medieval: Contos de uma Era Fantástica – Jornadas Épicas no Nosso Mundo

Por: Bernardo Stamato

8 de maio de 2018

A Idade Média nos inspira até hoje. Época de cavaleiros, donzelas, castelos, guerras e superstições. Medieval: Contos de uma Era Fantástica viaja para essa época e desbrava Europa e Ásia em busca de histórias fascinantes, recriando o imaginário das civilizações que fundamentaram a cultura do nosso mundo atual.

A obra foi organizada por Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse – especialistas em Idade Média e ficção histórica – e escrita por Nikelen Witter, A. Z. Cordenonsi, Melissa de Sá, Roberto de Sousa Causo, Erick Santos Cardoso, Helena Gomes e Karen Alvares, cada um abordando uma localidade e uma faceta diferente da fantasia de cada povo.

Medieval: Contos de uma Era Fantástica tem uma narrativa dinâmica e prazerosa justamente pela multiplicidade de autores. O leitor pode ler uma historieta no ônibus de manhã, outro no horário de almoço, outro antes de dormir e como quiser, sem ficar preso a um enredo maior. Cada fábula é um fragmento independente e completo, que retrata um elemento fantástico que pode ser real ou só imaginação do protagonista, o que mantém o ritmo e a surpresa em cada capítulo e permite que o leitor interprete como preferir. E justamente pela multiplicidade de estilos, personagens e histórias, vou dar minha breve opinião sobre cada conto, na ordem em que foram apresentados no livro.

Erva Daninha, escrito por Melissa de Sá, apresenta um jovem na Itália a caminho da Guerra Santa, mas que conhece uma dupla de pai e filha que muda seu destino. Chega a ser poético um livro que trata de uma era envolta de fantasia e misticismo começar justamente com uma história sobre imortalidade. Melissa de Sá soube equilibrar o romance, a tensão e a tragédia numa narrativa sem clichês.

O Desejo de Pungie, escrito por A. Z. Cordenonsi, viaja para a China e apresenta um desafortunado cidadão de origem mongol durante as invasões de Genghis Khan. Cordenonsi vai além de narrar a fábula de um herói dividido entre seu presente pessoal e o passado distante do seu sangue, ele explora o contexto da época, o milenar racismo pelos imigrante e a cultura rica que nossos livros de história não mostram. Esse conto vale tanto pela história divertida quanto por sua pesquisa e valor cultural.

A Clareira Mágica, escrito por Roberto de Sousa Causo, nos traz um cenário mais reconhecível: Portugal. Aqui, um jovem mutilado pela guerra ganha nova vida após um misterioso encontro com uma rapariga, talvez uma fada, talvez uma bruxa, para então ter que escolher entre a decisão certa e a fácil. Roberto de Sousa Causo faz um belo trabalho ao inovar dentro da fábula clássica do herói que salva a vítima em apuros, mas a questão é: quem salvou quem, afinal?

Sacrifício, escrito por Eduardo Kasse, retrata as invasões vikings e viaja entre Escandinávia e Ilhas Britânicas, mas o encontro com um draugen, um “desmorto”, oferece uma profecia agourenta para a próxima jornada. O conto de Eduardo Kasse é especialmente visceral, o que se encaixa com maestria na representação de um povo violento, que não tem opção, além de saquear e matar.

Kitsune, escrito por Erick Santos Cardoso, traz a dualidade entre honra e redenção no Japão feudal. E não é apenas um samurai desafiado pelo dever, é um samurai que já perdeu tudo e segue em frente até o depois do fim com o seu múnus. Erick Santos Cardoso também fez bom uso da pesquisa e apresenta mais do que uma fábula onírica, apresenta também a cultura daquele povo e daquela época.

A Dama Negra e a Donzela de Palha, escrito por Nikelen Witter, viaja para a França e explora a aura arturiana. Aqui, não é apenas um elemento fantástico em jogo, e sim dois, um de cada canto do mundo. Nikelen Witter explora o dilema de ter gratidão pelas origens, mesmo que isso exija o sacrifício de tudo que foi conquistado.

O Grande Livro do Fogo, escrito por Ana Lúcia Merege, é uma historieta que poderia ser contada durante uma das 1001 noites. Três muçulmanos, cada um movido por uma ambição pessoal, embarcam no tapete voador de um gênio, acreditando que enfrentarão desafios, mas acabam enfrentando os próprios vícios para alcançar – ou abrir mão de – o que desejam. Ana Lúcia Merege prova sua competência em usar tanto seu conhecimento histórico quanto sua excelente narrativa, criando um mito empolgante e admirável.

A Flor Vermelha, escrito por Karen Alvares, apresenta Pingyang, uma brava menina que vai além de ousar se tornar uma guerreira, ela desafia o próprio império e a dinastia decadente da China. Esse conto é a ascensão de alguém que luta pelo que acredita, nem que isso custe o sacrifício de todas as expectativas depositadas nela – mas se ela nunca pediu por tais expectativas, sua luta seria um sacrifício ou uma libertação? A narrativa da Karen Alvares é literalmente uma “flor vermelha”, delicada e intensa.

Lenora dos Leões, escrito por Helena Gomes, finaliza o livro na Espanha, com a história de uma jovem bastarda que é salva pelo rei de Castela, Pedro, o Cruel. Lenora e Pedro são dois personagens tão complexos quanto é humanamente possível: eles buscam suas ambições com garras e dentes ao mesmo tempo em que defendem o que amam de forma implacável. Helena Gomes desbrava a Península Ibérica não só pelo contexto da época, mas também pelos conflitos pessoais, familiares e territoriais que aquele povo enfrentava.

Medieval: Contos de uma Era Fantástica é mais do que uma coletânea de contos, é uma viagem por um mundo tão fantástico quanto a Terra-Média ou Westeros, uma viagem pelo nosso mundo e toda a fertilidade dos mitos e das culturas dos povos que inspiraram não só nossa história, como também nossos livros, séries e filmes contemporâneos. Um excelente livro que explora tanto a fantasia da nossa mitologia, quanto também a incrível capacidade e habilidade dos escritores do nosso país.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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