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Jogos Vorazes: 10 anos de uma das sagas mais lucrativas do mundo

Por: Heloisa Castro

13 de Abril de 2018

O primeiro livro de Jogos Vorazes completa 10 anos de lançamento em 2018. Mais do que uma aventura distópica, a saga é uma reflexão nada inocente sobre a sociedade contemporânea.

No dia 14 de setembro de 2008, chegava às livrarias norte-americanas uma obra que se tornaria sucesso mundial de vendas: Jogos Vorazes teve mais de 50 milhões de cópias impressas só nos Estados Unidos, vendeu mais de meio milhão de exemplares no Brasil, foi traduzido para mais de 26 idiomas e teve seus direitos adquiridos por 38 países. Além disso, a saga foi adaptada para o cinema, tendo seus quatro filmes dentro do TOP 100 maiores sucessos de bilheteria da história. Mas, afinal, o que torna Jogos Vorazes tão viciante?

The Hunger Games apresenta uma sociedade pós-apocalíptica distópica. No território que corresponderia à América do Norte, houve uma sangrenta e violenta revolta, após a qual o país – Panem – foi dividido em 13 distritos e uma Capital. Para manter subjugada a população dos distritos, foi instituída uma competição anual, onde são recrutados um menino e uma menina de cada uma das 13 localidades para um reality show. O vitorioso sai rico, mas é também o único sobrevivente. O detalhe macabro: os “tributos” – como são chamados os representantes dos distritos – são adolescentes que têm apenas de 12 a 18 anos de idade.

A autora Suzanne Collins diz ter se inspirado para escrever a história ao assistir TV: enquanto um canal transmitia um famoso reality show, o outro exibia cenas de um combate da Guerra do Iraque. A escritora conta que as cenas foram naturalmente se misturando dentro de sua cabeça, dando origem à saga.

A crueldade transformada em espetáculo é o grande chamariz em Jogos Vorazes, mas essa é apenas a ponta do iceberg. A crítica brutal à sociedade tem base filosófica e serve de analogia a importantes teorias do pensamento contemporâneo.

Michael Foucault – filósofo francês falecido em 1984 – disserta sobre sociedades disciplinares em seu livro “Vigiar e Punir”. Resumidamente, uma sociedade disciplinar dissemina dispositivos disciplinares, os quais permitem vigilância e controle sobre os indivíduos. Com a evolução de novas tecnologias de comunicação e informação, ampliaram-se os meios de vigilância, dissimulando-os e naturalizando-os dentro da sociedade. Em paralelo a esse pensamento, outro filósofo francês, chamado Gilles Deleuze – falecido em 1995 – desenvolve sua ideia de “sociedades de controle”, que podem ser observadas em sistemas como escolas e hospitais, por exemplo. Para Deleuze, todos nós passamos a vida inteira migrando de uma instituição de controle para outra: da família para a escola, da escola para a fábrica etc. Cada uma dessas instituições é também um dispositivo propício à vigilância, esquadrinhamento e controle de indivíduos, o que os mantém “mansos”, dentro de padrões de comportamento e pensamento previamente estabelecidos pelo sistema.

Em Jogos Vorazes, Panem é uma sociedade de controle. A Capital explora os distritos, detendo e gerindo os recursos tecnológicos, financeiros e substanciais. Como justificativa para isso, propaga um discurso de paz, apoiado na lembrança – e ameaça velada – da revolta que ocasionou a divisão. Os tributos são selecionados entre a juventude dos distritos, representando a morte de novos ideais, revoluções e, principalmente, da esperança. Panem é o olho que tudo vê, a mão que tudo controla. O show de horror transmitido ao vivo é uma forma de alienação tão forte quanto a manipulação feita antes que os participantes dos Jogos apareçam para os habitantes da Capital: o objetivo é mostrá-los como se vivessem em condições bastante confortáveis – lembra que os tributos recebem uma repaginada completa no visual antes de fazerem sua primeira aparição pública? -, distorcendo completamente a imagem do que realmente enfrenta a população dos distritos. Ou seja, assim como os Jogos intimidam e controlam os rebeldes, também alienam e dominam a própria Capital.  

Aliás, a manipulação é bastante explorada dentro de Jogos Vorazes. Os tributos são orientados a interpretarem “personagens”, como estratégia para conquistarem o público e, assim, conseguirem regalias dentro da Arena. Nos bastidores, os técnicos dos tributos articulam com possíveis patrocinadores para o envio de presentes que deem vantagens aos participantes. Ao mesmo tempo, a direção do reality show interfere diretamente nas condições da Arena, a fim de provocar os tributos e, até mesmo, eliminar aqueles que são considerados ameaças à Capital.

Quando Katniss se rebela durante os Jogos, incita ao vivo a revolta dos distritos, provocando uma crise com a qual a Capital ainda não estava preparada para lidar. Se a direção da Arena conseguisse fazer com que Katniss fosse morta, os distritos a teriam como mártir. Se ela vencesse os Jogos, os distritos a teriam como líder. Nas duas situações, Katniss continuaria queridinha pelo público da Capital – que passou a amá-la por sua beleza e por seu suposto romance com Peeta, seu companheiro de distrito. O casal consegue sobreviver aos Jogos, mudando a principal regra da competição, ao desafiar, novamente, a direção: pela primeira vez os Jogos Vorazes tiveram dois vencedores, que ganharam a competição contrariando a decisão do Sistema.

Após a vitória, Katniss e Peeta se viram obrigados a manterem a farsa criada para sua própria sobrevivência. Foi a forma que a Capital encontrou de manter o controle sobre eles e abafar uma possível revolução dos distritos. Mais uma vez, o espetáculo aparece como forma de alienação da população e de domínio sobre os potenciais agentes de transformação.

Conforme história avança, o conflito entre o sistema e seus integrantes fica cada vez mais iminente. Até que, finalmente, a revolução estoura. É nesse momento que a ironia surge: os distritos se vêem obrigados a usar das mesmas técnicas e estratégias de manipulação da Capital, a fim de difundir sua ideologia e conquistar o apoio da população. Lutam contra um Sistema usando as mesmas ferramentas que ele, com a justificativa de mudá-lo. É claro que isso é proposital. Ela é uma provocação para levar à reflexão: é possível criar uma sociedade totalmente isenta de controle, manipulação e alienação? Ou será que estas três características são pilares de qualquer sociedade contemporânea? Será que apenas os níveis de dissimulação das instituições de poder mudam? Nós realmente sabemos diferenciar o que é verdade do que é mentira nos meios de comunicação? Até que ponto aceitamos a justificativa da segurança em detrimento do monitoramento das Instituições sobre as nossas vidas?

Jogos Vorazes dá muito pano para manga.

Não é à toa que, dez anos depois, ainda o discutimos e descobrimos mais correlações com a nossa sociedade.

 

Panem today. Panem tomorrow. Panem forever.

Author: Heloisa Castro

Também conhecida como Diana Organa Granger. Concebida para ser a nerd da família, louca por livros, que se infiltra em salas de cinema e viaja entre mundos. Amante da culinária por necessidade e incapaz de escolher apenas um universo fantástico para amar. Conta uns causos da vida aqui: https://goo.gl/UjVcMf

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