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Extraordinário: do livro ao longa

Por: Gabriela Coiradas

9 de outubro de 2018

Adaptações de temas sensíveis quase sempre são um desafio para o mundo do cinema. Muitas vezes, os autores dos livros alcançam a abordagem emotiva exata em suas obras, o que pode não ser tão facilmente obtido na tela grande.

Mas hoje, o que eu trago para vocês é Extraordinário.

O livro de R. J. Palacio

Extraordinário é uma obra atemporal. Comecei a sua leitura por razões profissionais, pois sou professora, e percebi que a mensagem do autor ia  além de um livro infantojuvenil sobre bullying.

A narrativa fluida do autor sobre temáticas densas como empatia e respeito às diferenças cativa rápido e logo você já caiu nas graças de Auggie e sua perspicácia. A força do personagem é evidente durante todo o livro, recheado de frases que trazem reflexões para todas as idades.

O protagonista é uma criança com uma deformidade genética que compromete todo o seu rosto (síndrome de Treacher Collins). Pela primeira vez, ele encara as dificuldades de ir para uma escola comum e perceber que gentileza nem sempre é a primeira escolha das pessoas.

E a estratégia de contar a história sob pontos de vista diferentes é o tempero que faltava para percebermos que todo mundo luta suas próprias guerras (e isso é mais explorado ainda no livro Auggie & Eu, uma espécie de complemento para Extraordinário).

A adaptação para o cinema

A sensibilidade do texto foi diretamente transportada para o filme. E com muito sucesso.

Ainda que conte com alguns clichês como a presença de Owen Wilson, o cuidado com os detalhes deu uma fidelidade impressionante à adaptação.

Como eu já disse antes aqui, essa “fidelidade” não é só “fazer igual ao livro”, e sim trazer as mesmas sensações de quem consome a obra, seja a mídia que for.

A caracterização de Jacob Tremblay em Auggie Pullman é excelente, tanto pelo trabalho de maquiagem como pela atuação do garoto. Quando sua voz emite as frases do livro, oscilando entre sabedoria e fragilidade, dá até um arrepio. Parece que a criança pulou das páginas pro nosso colo.

Os pontos de vista dos que convivem com Auggie foram bem trabalhados, pois o modo como eles veem as situações constrói o que sentimos durante o filme e mostra os conflitos internos das crianças diante de algo diferente.

Dramas da irmã, Via, quase sempre “esquecida”, a amiga da família que muda depois do verão e ninguém sabe o que realmente há com ela, todos compõem a mensagem de que cada um tem um mundo nas costas e não sabemos o seu peso.

Na maioria das vezes, ainda que não haja justificativa, há explicação para um mau comportamento.

Por que assistir Extraordinário?

Eu poderia dar uma lista de motivos. Técnicos, emocionais, vários. Mas a minha resposta é simples: porque a sociedade precisa de empatia.

Extraordinário nos convida a refletir se estamos pensando na diversidade do mundo. O filme pode ser sobre um problema físico, entretanto, a reflexão é sobre tudo que é diferente de nós, não importa o aspecto. E o longa faz questão de evidenciar que, muitas vezes, o problema da intolerância já vêm dos pais. Um tapa, né não?

Levar os seus filhos ou seus irmãos menores para ver uma obra que tem esse cuidado em mostrar os efeitos das atitudes na vida do outro é enriquecedor, porque a linguagem é feita para que os pequenos compreendam e absorvam para suas vidas o que viram na tela.

E nós, maiores, poderemos ter certeza de que a influência e atuação de bons educadores e professores é imprescindível para evitar que o ódio e a intolerância se espalhem. E até mesmo para que tenham resultados práticos no futuro.

Escolha ser gentil.

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