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Dys4ia: Uma biografia interativa sobre gênero e sexualidade

Por: Bernardo Stamato

30 de maio de 2018

Deixe-me começar aqui com um esclarecimento.

O assunto de hoje é um jogo que lida com alguns assuntos delicados. Lida com o corpo e percepções de gênero, e faz tudo isso de um modo sério.

Dito isto, Dys4ia é um jogo artístico de sucesso porque discute abertamente e honestamente estas questões.

Dys4ia só se qualifica como um jogo em um nível central: você tem interatividade, objetivos e obstáculos. Mas ele é na verdade um exemplo de narrativa interativa. Tudo é controlado com as setas do teclado e os aspectos de “jogar” a história geralmente envolvem uma ação simples e única, como andar em linha reta.

Mas o objetivo de Dys4ia não é “vencer”. Não há pontuação. O objetivo é experimentar a narrativa da autora a partir de sua perspectiva. Na verdade, você pode até falhar em alguns dos minijogos e ainda seguir em frente com a história.

Mas estou me adiantando. Primeiro, alguns antecedentes. A autora, que atende por Anna Anthropy ou Auntie Pixalante, dependendo de onde você a encontra, é uma transexual lésbica contando a história sobre sua decisão de se submeter à terapia de reposição hormonal. Traduzindo suas palavras:

“Esse é um jogo autobiográfico sobre minhas experiências com terapia de reposição hormonal. A minha experiência não é a de mais de ninguém e não pretende ser representativa para todas as pessoas trans.”

O jogo é dividido em quatro partes diferentes, com uma narrativa consistente em todas elas.

A primeira parte detalha o desconforto inicial da autora sobre seu corpo, tanto em termos de autoestima quanto na maneira como ela é vista pelos outros. Ela expressa isso de várias maneiras, mas acho que a imagem a seguir é um bom exemplo.

Nesta cena, você controla a bolha verde sem forma com um objetivo: mover pra onde a seta aponta, passando pela parede. A lacuna na parede é enorme e parece uma tarefa fácil. Mas você esbarra em todos os lugares errados e, eventualmente, fica preso, incapaz de se encaixar no molde diante de você.

Neste momento, surge a frase: “Eu me sinto estranha sobre o meu corpo.”

Na segunda parte, a autora começa a falar sobre suas dificuldades em realmente encontrar uma clínica e um médico dispostos a atendê-la e prescrever o estrogênio.

Ela analisa todos os critérios da clínica que está procurando, enquanto expressa implicitamente por que quer evitar certas exigências.

A autora continua a enfrentar dificuldades mesmo depois de encontrar uma clínica, principalmente por conta de um médico que se recusa a prescrever estrogênio até que ela tenha sua pressão arterial controlada.

A terceira parte é sobre a autora realmente lidando com os efeitos – e efeitos colaterais – do tratamento. Em outras palavras, ela está experimentando um completo desequilíbrio hormonal.

Na cena acima, você tem um cenário no estilo Pong, controlando a barra à direita. Seu objetivo é claramente recuperar os pontos de interrogação vindos pela boca à esquerda.

Mas quando a interrogação encosta em você, a barra pisca e, inexplicavelmente, começa a chorar, uma metáfora apropriada pra aparente instabilidade emocional da autora, mesmo com as pessoas mais próximas a ela.

Na final, intitulado apropriadamente “It Gets Better” – Fica Melhor -, muitos dos minijogos anteriores retornam, mas com resultados muito mais positivos.

Na narratologia, falamos muito sobre “mostrar, não contar”. Nesse caso, a autora faz mais do que mostrar. Ela está fazendo com que você experimente seu crescimento e progressão pessoal ao longo deste período de sua vida, inicialmente apresentando-lhe uma tarefa impossível ou difícil e tornando essa tarefa possível ou extremamente simples como um resultado aparentemente direto de sua terapia de reposição hormonal.

Independentemente de você se identificar ou apoiar a ideologia de gênero – particularmente, esse é um assunto bem abstrato pra mim -, esta é uma história cativante – e corajosa! – que exemplifica de forma espetacular vários elementos da narrativa digital.

Este jogo não é complicado ou longo – leva menos de 10 minutos pra jogar. Os gráficos são retrô. Os efeitos sonoros são apenas a própria autora fazendo sons num microfone.

No entanto, a história em si é pungente e nos influencia muito mais do que se a mesma história tivesse sido escrita apenas em texto. A interatividade da história não muda o que ela quer expressar, mas é mais tangível e cria imersão ao colocar o “leitor” diretamente no lugar da autora.

Interessante, não? Clique aqui e experimente Dys4ia por si mesmo.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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