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Black Mirror: Bandersnatch – Entenda o Episódio Interativo!

Por: Bernardo Stamato

3 de janeiro de 2019

Black Mirror: Bandersnatch redefiniu minhas configurações de explodir miolos.

Logo nos primeiros dez minutos de Bandersnatch, eu já sabia que assistiria/jogaria do começo ao menos uma vez. Na verdade, eu assisti/joguei o episódio interativo de Black Mirror até achar cada um dos finais diferentes — e algumas variações dos finais.

Agora, a internet está fervendo em debates sobre o significado e as metáforas do episódio. Qual é o final certo? Existem cenas secretas? A Netflix nos deu uma falsa noção de escolhas, tanto quanto Stefan, nosso desafortunado protagonista, viveu sem livre arbítrio?

Enquanto cada episódio de Black Mirror lida com uma ou duas questões, Bandersnatch apresenta três principais questões que podem ser analisadas tanto em paralelo quanto entrelaçadas. Acho que consigo explicar melhor cada uma delas seguindo a minha própria ordem de descobertas — e dando alguns spoilers.

Meu primeiro final de Bandersnatch


Não confie nas redes sociais, não confie nas máquinas, não confie no governo, não confie em ninguém. Black Mirror adora botar pulgas nas nossas orelhas sobre como a nossa sociedade lida com tecnologia, privacidade e liberdade de escolha.

Em Bandersnatch, nós rapidamente questionamos se o protagonista está enlouquecendo ou se realmente está sendo manipulado. Quando eu assisti/joguei pela primeira vez, eu estava decidido a terminar o maldito jogo, custe o que custasse. Um fator-chave é que, logo no começo, Stefan se refere ao PAX, aparentemente o vilão do jogo, como um “demônio que rouba o destino”. Minhas escolhas se focaram em seguir o livro, seu autor e o PAX até o final, o que levou Stefan a assassinar o pai, ser preso e o jogo ser lançado, mas recebendo uma avaliação totalmente medíocre e insatisfatória na mídia.

Meu segundo final de Bandersnatch


Acontece que eu não entendi que aquela era a conclusão da história e cliquei pra retornar pra psiquiatra e falar mais da mãe de Stefan, o que me levou pra um caminho bem diferente. A partir daí, me foquei na história pessoal do rapaz e sua família, até que acabei abrindo o cofre do pai, descobrindo que o Stefan era uma espécie de cobaia e confirmando que ele não só estava sendo drogado pela psiquiatra, mas que foi exposto à droga desde criança.

O clímax acontece quando eu consegui pegar o bichinho de pelúcia do Stefan e fiz ele pegar o trem com a mãe. Fiquei de boca aberta enquanto me lembrava que aquele trem sofreria um acidente fatal, pra então ver Stefan morto na cadeira da psiquiatra, com a doutora em choque e o pai dele abraçando-o e chorando.

Finais diferentes, mas bem coesos. A vida do Stefan era uma mentira, uma espécie de Show de Truman à lá Black Mirror. Se ele matar o pai, o cientista está morto, a cobaia está encarcerada e seja lá quem está por trás disso prefere deixar por isso mesmo. Se ele descobrir toda a verdade, entra em colapso e morre diante da psiquiatra — talvez tudo se passou na cabeça dele durante uma consulta.

Essa linha de raciocínio é construída desde o começo, quando a gente percebe que a Turckersoft, a desenvolvedora do jogo, não é confiável, como seu maior gênio está estressado lá dentro, e então se confirma quando descobrimos que nem o pai e nem a psiquiatra do Stefan eram confiáveis. Tudo faz bastante sentido.

Mas aí eu assisti/joguei uma terceira vez e tudo mudou.

Meu terceiro final de Bandersnatch


Dessa vez, eu queria liberdade, então busquei cada escolha que simbolizasse livre arbítrio pra Stefan, e não uma jornada pelo seu sonho ou pela verdade. O enredo em si não tem grandes variações, até que Stefan entendeu que estava sendo controlado por algo, se entregou ao seu destino e assassinou o pai — eu nem tive a escolha de assassinar ou não, o Stefan foi lá e fez.

Depois, ele me questiona se deve enterrar o pai ou fatiá-lo — pelo o que testei depois, acredito que enterrá-lo nesse contexto leva a mais assassinatos e à prisão do Stefan, o que seria uma variação do primeiro final que encontrei. Mas meu terceiro desfecho foi Stefan contando pra psiquiatra que o pai foi embora e que ele estava melhor e mais focado.

Stefan conta que percebeu que estava dando escolhas demais aos jogadores, então diminuiu o escopo e deu uma falsa impressão de escolhas, enquanto era ele quem estava no comando. O jogo é lançado e aclamado pela crítica, mas logo descobrem seu crime hediondo, ele é preso e o jogo é retirado das lojas. Por fim, vemos uma programadora que redescobriu o polêmico jogo décadas depois, decidiu fazer um remake e logo encontrou os mesmos problemas surreais que Stefan havia vivenciado. O ciclo recomeça e a história acaba.

Entendendo Bandersnatch


Depois do meu terceiro final, abri o Google, pesquisei, descobri algumas coisas e voltei pra Bandersnatch pra experimentar mais possibilidades até ter visto uma penca de variações da história.

As peças de Bandersnatch não se encaixam — e nem deveriam se encaixar. Olhando pras várias alternativas, parece que misturamos peças de coleções diferentes de Lego na mesma caixa. Se você já fez isso quando criança, sabe que se divertiu, apesar da incoerência.

Alguns conceitos básicos pra entender Bandersnatch: PAX é um “demônio que rouba o destino”, logo seguir sua trilha apenas tira o controle da vida do Stefan. Seja focando em produzir o jogo, seja tomando aquela pastilha doida, seja digitando seu nome no cofre, PAX rouba seu destino.

Outro debate importante é a existência de universos paralelos. Cada espectador teve uma experiência singular, o que pode ser interpretado como uma dimensão paralela da mesma história. Cada variável é verdadeira, todas existem, mas algumas estão em realidades paralelas. Isso pode se aplicar dentro da narrativa de Bandersnatch e também na metáfora pras nossas escolhas e suas consequências.

Por fim, temos as questões típicas em Black Mirror a respeito de tecnologia, corporações e sociedade. O jogo que Stefan está criando é inovador pro seu tempo, mas também está consumindo sua vida. A Turckersoft lança jogos maravilhosos, mas é uma empresa sedenta por dinheiro por dentro. O pai e o filho não têm uma boa relação e tudo o que o pai faz pra resolver isso é levar o filho à psiquiatra e tentar vigiá-lo e até controlá-lo.

Tendo isso em mente, vamos finalmente entender as três questões principais de Bandersnatch.

Conspiração Corporativa — isso é tão Black Mirror


Stefan pode ser uma cobaia do pai ou não, dependendo das suas escolhas. Se ele for, isso é um sinal de que uma corporação foi tão longe ao ponto de criar uma pessoa pra alguma finalidade não explicada, mas que obviamente levou à sua ruína.

É possível também imaginar que alguém está sabotando o jogo, pois sempre que Stefan está tendo progresso, algo acontece. Pior ainda: Stefan pode descobrir que está sendo manipulado pela Netflix — uma megacorporação — pra entreter espectadores do futuro, o que é a maior ironia de todos os tempos em Black Mirror.

Mesmo sem essas hipóteses, temos a presença da Turckersoft e o problema final de Stefan: uma última fase que ele adicionou de última hora e que bugou o jogo todo — uma fase sobre conspiração corporativa.

O fato é: Black Mirror adora expor as corporações como maquiavélicas e corruptas. Em maior ou menor grau, Bandersnatch traz essa questão como todo bom episódio de Black Mirror.

Pacman — Program and Control


Livre arbítrio e poder de escolha está presente em todo o episódio, mesmo se você focar em desenvolver o jogo ou descobrir o que aconteceu com a mãe do Stefan. “Program and Control” não é só uma teoria da conspiração de um programador esquisitão, nós estamos lidando com programação e controle o episódio inteiro.

Stefan passa a maior parte do tempo desenvolvendo um jogo, ou seja, programando e controlando. Ele se sente sem controle sobre sua vida — programado e controlado. Ele pode aceitar seu destino passivamente ou pode se libertar das suas amarras, mas então ele passa a dar falsas noções de escolha, ele vai além de programar seu jogo, ele toma o controle dos jogadores, sem que eles saibam.

E nós estamos controlando o episódio, que foi todo programado pra nos entreter. Stefan está nas nossas mãos, como uma marionete. Nós decidimos o destino dele, até mesmo se ele vai descobrir a verdade ou se seu jogo vai fazer sucesso.

Programação e controle é um conceito que está enraizado em Bandersnatch.

Através do Espelho — ou simplesmente Metalinguística


Metalinguagem é você falar de uma mídia através dessa mídia, como falar de carta numa carta ou um jogo sobre jogos. No caso de Bandersnatch, as questões de decisões e controle permeiam o episódio em todos os níveis.

Não é irônico Stefan se questionar que sente que não tem controle sobre as próprias escolhas, enquanto a gente decide suas ações? Você provavelmente quer que ele tome as rédeas sobre a própria vida, mas também fica tentado a descobrir o passado do Stefan ou a seguir em frente com o jogo até as últimas consequências. E quando você percebe que não tem tantas escolhas quanto parece e, na verdade, Black Mirror apenas te ofereceu uma ilusão de escolhas dentro do que ele mesmo preparou pra você?

Há inclusive um final em que Stefan descobre que está sendo controlado pela Netflix e por um espectador do futuro e quando ele tenta pular pela janela, gritam corta e ele está num estúdio de gravação. Sua psiquiatra e seu pai são atores e apenas Stefan está confuso sobre quem é e o que está acontecendo. Isso é metalinguagem nível Inception.

É muito provável que você tenha se questionado se suas escolhas faziam diferença enquanto Stefan também questionava se tinha alguém decidindo as ações dele. Há muito em comum entre Stefan e o espectador. Bandersnatch é muito mais do que um episódio interativo, é toda uma brincadeira com os conceitos de escolha, decisão e liberdade, tanto pros seus personagens quanto pra seus espectadores.

Bandersnatch


Última curiosidade antes de encerrar: Bandersnatch é um bicho do livro Através do Espelho de Lewis Carrol, criador de Alice no País das Maravilhas, o que está diretamente relacionado à aparência do demônio PAX e também com a cena em que Stefan atravessa o espelho.

O que importa é que existem inúmeras possibilidades em Bandersnatch e você pode decidir qual é a sua versão da história. Você pode assistir/jogar uma vez só e ficar com essa versão da história, pode assistir/jogar várias vezes até escolher uma versão que preferir com total consciência das suas ações e suas consequências, ou pode — como eu — olhar pra todas essas hipóteses e essas questões como um mosaico.

No fim das contas, você quem escolhe sua versão favorita e/ou sua própria interpretação. Bandersnatch não foi concebido pra ter uma moral da história única ou — muito menos — imutável. As peças não se encaixam propositalmente, o que nos dá a liberdade de escolher como preferimos montar nosso panorama desarmonioso.

Nem que essa liberdade seja uma privação do direito de respostas esclarecidas.

Você quem escolhe.

Ou não.

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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