Home » Games » As primeiras obras da literatura digital já estão sendo escritas

As primeiras obras da literatura digital já estão sendo escritas

Por: Bernardo Stamato

6 de março de 2018

6Videogames podem ser o melhor veículo de comunicação pra contar histórias da nossa era – só falta o mundo da arte e o da tecnologia pararem de discutir e tomarem conhecimento

Um lado infeliz de trabalhar como romancista e game designer é que acabei participando de muitos painéis, mesas redondas, conferências, discussões e outros tipos de debate onde as pessoas digitais tentam lidar com o mundo da narrativa, ou onde as pessoas da narrativa tentam entender o mundo digital.

Ambos os tipos de eventos têm seus agravamentos. Quando pessoas digitais fazem oficinas ou colóquios ou jams – existem infinitos nomes pro princípio básico de juntar pessoas e tomar café – sobre narrativa, muitas vezes ela parecem não notar que muitas pessoas muito inteligentes já pensaram muito sobre histórias pelos, oh, últimos três mil ou quatro mil anos. Eu ouvi pessoas sugerirem que talvez as histórias tenham um “padrão” ou “ordenação estrutural” que conecta suas partes, sem perceber que muitas pessoas já escreveram sobre isso, tipo Aristóteles.

E não vou nem falar das pessoas que dizem coisas como “dados são história”, “os produtos são uma história”, “seu robô aspirador de pó tem uma história pra te contar”. Não, dados não são história, não, produtos não são história, e não – a menos que a inteligência artificial tenha chegado muito mais rápido do que o previsto -, nenhum robô pode contar uma história.

Gone Home

Mas mais agravantes são os fóruns, palestras, seminários etc sobre “literatura digital” dirigidos por pessoas de artes extremamente bem-intencionadas que podem conversar durante horas sobre o que o futuro poderia ser pra contar histórias nesta nova era tecnológica – seja pra produzir romances ou poemas hiperlinks, ou interativos, ou multifacetados – sem perceber que os jogos virtuais já existem. E eles não existem apenas! Eles são o meio mais lucrativo e de mais rápido crescimento da nossa era. Sua literatura tecnológica experimental já está aqui.

Quando eu falo disso com profissionais das artes e literários, muitas vezes eu recebo o tipo de resposta “fala sério”, que só pode emergir de alguém que não tem familiaridade com o que os jogos virtuais são, foram e podem vir a ser. “Você não pode afirmar que Grand Theft Auto tem mérito literário”, dizem eles. Talvez possa – muitas pessoas podem -, mas não, eu não citaria o GTA como uma literatura experimental fascinante, tanto quanto não mencionaria o blockbuster Círculo de Fogo como um exemplo de produção de vanguarda – apesar de ser divertido.

Mas há jogos digitais que experimentam histórias mais interessantes do que qualquer projeto de “literatura digital” que eu já vi. E se um escritor digital quiser ser lido, ele precisa se dar conta disso.

Journey

Citando só 10 exemplos nos últimos anos, é difícil imaginar como você poderia opinar sobre o futuro da literatura sem ter jogado o brilhantemente característico e quebrador da quarta parede Portal, o sombrio e comovente Papers, Please, ou a exploração deslumbrantemente surreal do subconsciente americano Kentucky Route Zero. Você tem interesse em discutir literatura experimental “lida em qualquer ordem”? Então, por favor, jogue as narrativas misteriosas de Her Story and Gone Home e o hilário e inquietante The Stanley Parable. Se você quer falar sobre como os escritores podem se envolver com a política, o capitalismo ou o movimento ambiental, você estaria mostrando sua ignorância se não jogou Oiligarchy. Interessado em como os contadores de histórias podem se envolver com temas de mortalidade? Você pode se interessar por Spider: The Secret of Bryce Manor, ou o jogo curto e poderoso de Jason Rohrer, Passage, ou o sublime Journey. Cada um desses jogos poderia – e provavelmente deveria – ser ensinado nas escolas pra inspirar a próxima geração de criadores.

O problema é que as pessoas que gostam de ciência e tecnologia e as pessoas que gostam de contar histórias e das artes têm sido tipicamente colocadas em diferentes prédios desde cerca dos 16 anos de idade. Não nos ensinamos a admirar o trabalho de cada um, a reconhecer sua excelência, ou mesmo a saber que há excelência na “outra cultura”. Há uma espécie de arrogância sombria em ambos os lados, com algumas pessoas em ambos os campos simplesmente negando que o outro conheça algo que valha a pena ouvir. Há um tipo de profissional de artes “digno” que pensa que não saber nada sobre jogos – como dizer “eu nem tenho uma televisão” – é um marcador de superioridade intelectual.

Mas não podemos suportar esse tipo de pensamento mais. Ser culturalmente educado sobre videogames é tão importante quanto ir aos museus ou aprender sobre ópera. Jogos conseguem ser ao mesmo tempo arte e potência econômica. Nós estamos fazendo um desserviço a nós mesmos e à próxima geração se não levarmos isso a sério.

Papers, Please

Este texto é uma tradução livre do artigo de Naomi Alderman, The first great works of digital literature are already being written, publicado pelo The Guardian.

Fonte: https://www.theguardian.com/technology/2015/oct/13/video-games-digital-storytelling-naomi-alderman

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

[mashshare]