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A Sofrência de Desventuras em Série

Por: Heloisa Castro

18 de Abril de 2018

As Desventuras em Série dos irmãos Baudelaire conseguem partir os nossos corações em mil pedaços, mas levam a nossa imaginação a uma incrível viagem por lugares inimagináveis e perigos surreais.

Lemony Snicket está sempre tentando nos avisar em Desventuras em Série: não continue a assistir, não prossiga a leitura, essa história não tem final feliz, desvie o olhar. Mas quem disse que conseguimos deixar Klaus, Sunny e Violet sozinhos, à mercê de tantos infortúnios? Sofremos, mas permanecemos firmes ao lado dos irmãos mais perseguidos e azarados do mundo.

Com um vilão bizarro que consegue convencer qualquer pessoa e se infiltrar em todos os lugares possíveis, Desventuras em Série é uma maratona que prova que tudo o que está ruim pode ficar ainda pior. Conde Olaf é o retrato caricato da maldade, da ganância e do individualismo humanos. Ele e sua trupe de “artistas-comparsas” do mal não conhecem limites para a crueldade e encontram os irmãos Baudelaire em qualquer lugar para onde fujam. Sempre que acreditamos que as crianças finalmente se livrarão das garras de Olaf, o azar bate à porta novamente para lembrar-nos de que esta não é uma história feliz.

Conde Olaf é o vilão de Desventuras em Série

A partir deste ponto, pode ser que o texto contenha revelações sobre a história, inclusive dos livros que ainda não foram adaptados para a série.

Desventuras em Série é uma saga de 13 volumes e mais alguns textos e materiais extras disponíveis em livros e na internet. A história é narrada pelo pesquisador Lemony Snicket, que dedicou sua vida a investigar os percalços enfrentados pelos Baudelaires desde o estranho acidente que matou seus pais. Em paralelo a isso, uma organização misteriosa — cuja sigla é CSC — surge para encher de esperanças e de perguntas as cabecinhas dos órfãos Klaus, Sunny e Violet.

Os livros apresentam uma riqueza de detalhes impressionante, o que com certeza contribui para que a série tenha cenários e figurinos tão elaborados. A realidade das crianças brinca com o surreal e o absurdo o tempo inteiro. Desde as situações pelas quais os órfãos são obrigados a passar, até os lugares onde eles vão parar, tudo é hiperbolizado. As próprias habilidades dos irmãos são incríveis demais para três simples crianças, que vivem em um tempo que não é nem antigo e nem moderno. Mas esse exagero é o que ressalta questões importantes sobre a infância, tais como o trabalho infantil, a violência, os abusos psicológicos e o abandono por parte das instituições que deveriam proteger as crianças mais vulneráveis.  

Baudelaires e Quagmires enfrentam perigos inimagináveis em Desventuras em Série

Quem se aventura a ler a saga completa precisa ter um pouco de paciência entre o quinto e o sétimo livros. A monotonia e a repetição de expressões e flashbacks incomodam, tornando a leitura um pouco massante. Contudo, do oitavo livro em diante, há mais dinamismo. O leitor ganha peças para tentar montar o infinito quebra-cabeça dos Baudelarie. O que faziam os pais das crianças? Qual a verdadeira importância delas para os seus tutores, inimigos e amigos?

O problema é que Desventuras em Série realmente não é uma história feliz. Quanto mais perto das respostas chegamos, mais reveses os irmãos enfrentam. A evolução de Conde Olaf traz mais fundamentos para seus sentimentos odiosos. As relações ficam cada vez mais complexas e os acontecimentos, mais sinistros. Há momentos em que a vontade de entrar no livro para tirar os órfãos de lá é enlouquecedora, porque a gente se apega a eles de verdade. Desventuras em Série definitivamente mexe com a nossa necessidade de ter finais que sejam, no mínimo, um pouquinho felizes.

Os dois últimos livros – Penúltimo Perigo e O Fim – são os mais intensos da saga, mas não trazem nem metade das respostas que esperávamos receber – o que pode ser bem frustrante para quem tem a necessidade de amarrar todas as pontas soltas no final de uma história. Porém, as cartas da misteriosa Beatrice podem ser lidas em “The Beatrice Letters”, spin-off da saga. O livro traz respostas sobre o passado das crianças e a CSC, o que pode ajudar a consolar os fãs mais aflitos.

Particularmente, espero que a produção de Desventuras em Série na Netflix leve em consideração os conteúdos extras na hora de preparar o desfecho. Eles tornam a experiência mais rica e completa, além de diminuírem a frustração com o final original. Apesar da série focar bastante em Conde Olaf – muito por causa do ator Neil Patrick Harris -, a adaptação tem sido bem-sucedida, fiel à agonia e tristeza do destino de Klaus, Violet e Sunny nos livros.   

Dica para sobreviver à sofrência de Desventuras em Série: assista devagar. Para quem tem coração mole, maratonar é uma péssima ideia.

E você? Já leu os livros? Está curtindo a série? Se sentiu órfão em algum momento até agora? Conta para mim aqui nos comentários!

Author: Heloisa Castro

Também conhecida como Diana Organa Granger. Concebida para ser a nerd da família, louca por livros, que se infiltra em salas de cinema e viaja entre mundos. Amante da culinária por necessidade e incapaz de escolher apenas um universo fantástico para amar. Conta uns causos da vida aqui: https://goo.gl/UjVcMf

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