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A Rainha Vermelha: Uma sociedade dividida pelo sangue

Por: Natascha Oliveira

14 de setembro de 2018

Autora: Victoria Aveyard
Editora: Seguinte
1ª Edição: 2015
Páginas: 400
Avaliação: ✩ ✩ ✩ ✩ ✩

A Rainha vermelha foi, para mim, uma grata surpresa. Apesar de achar, ainda nas primeiras páginas, que Victoria Aveyard misturou A Seleção, Jogos Vorazes e Divergente num liquidificador e surgiu com o plot de A Rainha Vermelha, precisei dar o braço a torcer no decorrer da trama e pelo desfecho completamente surpreendente e bem mais elaborado que o de suas contemporâneas.

Contexto

A Rainha Vermelha é o primeiro livro da série de mesmo nome e conta a história de Mare Barrow, uma jovem pobre  que não possui nenhum talento específico, por isso vê no furto sua única fonte de renda para ajudar a sustentar sua família. Mare vive em Norta, um país com governo extremamente autoritário e dividido pela cor do sangue: os Prateatos – a nobreza -, são dotados de poderes especiais e vivem cercados de luxos, enquanto os Vermelhos – os plebeus -, vivem em condições miseráveis e quando não possuem talentos úteis à nobreza, são enviados para a guerra ainda na adolescência.

Mare, como seus irmãos mais velhos, não possui nenhum talento e está prestes a ser convocada pelo serviço militar. Por isso decide fugir com Kilorn, seu melhor amigo – que após perder o emprego, também será enviado para a frente de batalha. No entanto, tudo muda quando Mare conhece Cal – que se apresenta como alguém que possui contatos no palácio, mas na realidade é o próprio príncipe de Norta -, e no dia seguinte recebe uma oferta de emprego para trabalhar para a realeza.

“Sou uma garota vermelha em meio a um mar de prateados.”

Após uma série de eventos inesperados que colocaram sua vida em risco, Mare descobre que – mesmo sendo uma Vermelha – possui poderes como como os prateados, e se vê presa dentro do palácio real. Mare é condenada a esconder seu sangue vermelho a fim de se parecer com uma nobre prateada e evitar questionamentos sobre a existência de mais vermelhos poderosos como ela. Além disso, é prometida em casamento a um príncipe que mal conhece, Maven, filho mais novo do Rei Tiberias Calore VI, fruto de seu segundo casamento com a rainha murmuradora Elara Merandus.

A Guarda Escarlate

Toda a história se desenrola à partir daí, o que torna A Rainha Vermelha um livro impossível de largar. Mare precisa avaliar suas opções e decidir em quem confiar dentre os prateados e vermelhos, principalmente após descobrir que a Guarda Escarlate – grupo revolucionário e guerrilheiro de vermelhos inconformados com o sistema – a queria como aliada.

Mare tinha plena consciência de que estava sendo usada pela realeza para conter uma revolta popular e uma ruptura no governo prateado, mas por outro lado, sabia também que estava sendo usada pela Guarda, para iniciar uma guerra contra a monarquia. E isso realmente me surpreendeu ao longo da história, pois à partir daí muitas possibilidades para os próximos livros se abriram.

A medida que a leitura ia avançando eu me questionava: Como Mare, sendo Vermelha, possui poderes Prateados? Será que existem mais Vermelhos com tais poderes? Se sim, não seria esse o fim da soberania Prateada e das injustiças contra o povo? A Guarda escarlate atua só em Norta, lutando contra os prateados dali, ou é um movimento maior? Existem outros como Mare dentro da Guarda Escarlate?

Em meio a todos esses questionamentos e os conflitos políticos gerados por eles, Mare percebe que precisa escolher: Irá viver para sempre com a vida em risco sendo usada como um peão nas mãos dos Prateados ou irá aproveitar a sua voz para viver – e morrer – por uma causa maior, ainda que ela não compreenda completamente seus interesses?

“E nós vamos nos levantar. Vermelhos como aurora.”

Personagens bem construídos

O mais interessante da história é que a personagem principal é muito humana. Apesar de ser instintivamente protetora com sua família e amigos, Mare é bem individualista em algumas situações. Mesmo sendo cuidadosa e sorrateira como uma ladra, quando movida pelas paixões, Mare se torna precipitada e descuidada, o que põe em risco não só a sua vida, mas o destino de toda uma nação.

A trama é repleta de críticas sociais, traições e reviravoltas realmente surpreendentes, que tornam a sede por mais quase incontrolável e sabendo disso, Victoria Aveyard nos presenteou com algo mais: O Spin Off de Rainha Vermelha, Coroa Cruel, composto pelos contos Canção da Rainha e Cicatrizes de Aço. Nestes contos conhecemos um pouco mais sobre o passado e as intrigas da nobreza de Norta pelos olhos da Rainha morta, Coriane Jacos, a mãe do principe Cal. E podemos compreender também os interesses da Guarda Escarlate e o princípio da rebelião que se forma em Norta, pelos olhos de Diana Farley, uma das líderes da revolução vermelha da Guarda Escarlate.

O fim de A Rainha Vermelha pede não só uma continuação, como um filme, não estou brincando. A história é muito bem ambientada e seria maravilhoso poder ver o universo de Norta ganhando forma nas telinhas. Por enquanto, só nos resta acompanhar os próximos livros a fim de desvendar o desfecho desta revolução e sofrer com a edição de colecionador em capa dura que editora Seguinte lançou. É ou não é um sonho de consumo?

“A noite se desfaz sobre nós e dá lugar a um céu azul-escuro. A aurora está chegando.”

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