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A Marvel Studios dissolveu seu Comitê Criativo – e isso foi ótimo!!!

Por: Bernardo Stamato

6 de Maio de 2018

Antes de mais nada, alerta spoiler sobre Vingadores: Guerra Infinita

Os filmes da Marvel Studios sempre foram ambiciosos. Desde o primeiro Homem de Ferro, a Marvel quebrou expectativas – o filme termina com Tony Stark revelando que é o Homem de Ferro, eliminando completamente sua identidade secreta, um dos elementos do sucesso de filmes de super-heróis como Homem-Aranha e Batman. E, claro, Os Vingadores foi um filme inteiro construído em torno da decisão ousada de reunir diferentes heróis de diferentes filmes de uma forma que parecia coesa e ainda assim fiel à natureza dos vários personagens.

Mas, recentemente, a Marvel Studios ficou ainda mais ambiciosa com suas escolhas, e há uma boa razão pra isso: a dissolução do Comitê Criativo da Marvel – um grupo de indivíduos que “supervisionava” as produções durante todo o desenvolvimento. Conforme relatado pelo site Birth.Movies.Death, esse comitê consistia por Brian Michael Bendis – escritor da Marvel Comics -, Joe Quesada – ex-editor chefe da Marvel Comics -, Dan Buckley – editor da Marvel Comics – e Alan Fine – presidente da Marvel Entertainment -, entre outros.

Em teoria, este comitê parecia uma grande caixa de ideias, mas na prática ele serviu como fonte contínua de frustração pros cineastas da Marvel Studios. James Gunn, de Guardiões da Galáxia, disse que eles sugeriram que seu filme deixasse de lado a trilha sonora dos anos 70. Gunn também disse que as notas do comitê de criação impactaram negativamente o “bagunçado” vilão Ronan. As notas do comitê criativo também foram uma fonte de frustração pro cineasta Edgar Wright, e são, alegadamente, uma das principais razões pelas quais ele decidiu deixar o Homem-Formiga antes do início da produção.

O Comitê Criativo da Marvel também serviu de obstáculo durante o processo de desenvolvimento, impedindo os cineastas a terem acesso direto ao presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, e a dissolução do Comitê Criativo da Marvel em 2015 foi um resultado direto das principais mudanças executivas de Feige em relação à estrutura da Marvel Studios.

Em agosto de 2015, Feige conseguiu reorganizar a estrutura da Marvel Studios, de modo que ele não estava mais se reportando ao CEO da Marvel, Ike Perlmutter, que serviu de obstáculo durante anos. Perlmutter vem do mundo dos brinquedos e um exemplo da autoridade que ele exercia é a pouca quantidade de brinquedos da Viúva Negra – Perlmutter argumentou que os brinquedos femininos não vendem. Sob a estrutura original, Feige tinha que tomar algumas decisões importantes junto ao Perlmutter antes de seguir em frente, e os dois aparentemente batiam suas cabeças com bastante frequência.

Mas após o enorme sucesso comercial de Guardiões da Galáxia e Vingadores: Era de Ultron e depois de explicar suas frustrações aos superiores da Disney, a estrutura de Feige foi reorganizada pra que Perlmutter não tivesse mais controle sobre a Marvel Studios. Feige passou a se reportar diretamente ao chefe do estúdio da Disney, Alan Horn. Com a Marvel Studios agora sob maior controle da Feige, o Comitê Criativo da Marvel foi dissolvido.

Quando o Comitê Criativo da Marvel foi dissolvido, Capitão América: Guerra Civil já havia sido filmado e Doutor Estranho estava em pré-produção, mas os próximos filmes seriam desenvolvidos, escritos, filmados e editados sem qualquer tipo de contribuição do Comitê Criativo. E não é surpresa que esses filmes sejam os mais ousados ​​que a Marvel já fez.

Começando com os Guardiões da Galáxia vol. 2, que é essencialmente uma aventura sem enredo. Então temos o Homem-Aranha: De Volta ao Lar, que selou a parceria entre Marvel Studios e a Sony Pictures – onde a Marvel ficou com 0% do lucro da bilheteria, sendo que foi na época o 5º filme de super-heróis de maior bilheteria de todos os tempos. E então Thor: Ragnarok, que mudou radicalmente o personagem titular. Depois temos Pantera Negra, o filme mais ousado da Marvel e com fortes temáticas sócio-políticas do nosso mundo real. E finalmente, Vingadores: Guerra Infinita, um grande sucesso de bilheteria que termina com a morte de metade da população do Universo, incluindo muitos personagens favoritos da Marvel.

Todos esses filmes quebram as regras do que supostamente deveria ser um blockbuster de super-heróis. Você precisa ter um objetivo e um enredo simples, enquanto Guardiões 2 se diverte explorando os personagens. Você precisa cuidar de seus próprios interesses como um estúdio, não se associar com um rival e abrir mão dos lucros como em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Você precisa ter consistência no personagem nas sequências, não essencialmente dar reboot no protagonista com um tom completamente diferente como em Thor 3. Você definitivamente não pode ser engajado e, em vez disso, apenas apelar pro maior público possível – algo que Pantera Negra absolutamente contrariou. E você precisa deixar seu público feliz e satisfeito no final do seu grande blockbuster, não emocionalmente perturbado.

E, no entanto, Feige acreditava nas visões que Gunn, Jon Watts, Taika Waititi, Ryan Coogler e Joe e Anthony Russo tinham pra esses filmes da Marvel Studios. É razoável supor que, se o Comitê Criativo da Marvel estivesse em vigor, talvez algumas das margens desses filmes tivessem sido suavizadas. Talvez Ryan Coogler tivesse se afastado do Pantera Negra. De fato, deve-se notar que Ava DuVernay teve a chance de dirigir Pantera Negra quando o Comitê Criativo da Marvel ainda existia, e mais tarde ela disse que optou por não dirigir o filme porque percebeu que não teria liberdade.

Até mesmo a Guerra Infinita, que não deixa de ser um filme de super-heróis cheio de explosões, acabou de uma maneira ousada: matando uma grande parte do elenco. Obviamente, alguns – talvez todos – voltarão, mas a Guerra Infinita ainda termina incrivelmente deprimente, sem a fonte chamativa que geralmente enfeita a tela conforme os créditos rolam. O que quer que você pense sobre esse final ou sobre o filme como um todo, essa é uma escolha ousada pra um dos blockbusters mais esperados da década.

Então, tudo isso pra dizer que a Marvel encontrou sucesso em seus primeiros 10 anos, mas realmente parece que ela está se reinventando aos poucos. A Marvel não se contenta em apostar no seguro e, sem o Comitê Criativo, ela quer aumentar as apostas e não olhar pra trás.

Vingadores - Guerra Infinita é o mais novo filme da Marvel

 

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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