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A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison — Investigação e Aventura Steampunk em Porto Alegre

Por: Bernardo Stamato

9 de janeiro de 2019

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison começa quando o Dr. Louison, preso no hospício pela sua série de assassinatos hediondos, desaparece misteriosamente da sua cela de segurança máxima sem deixar vestígios. Nesta jornada pelo paradeiro do Estripador da Perdição, Isaías e o Parthenon Místico, um grupo exótico de investigadores, cientistas e aventureiros, irão desenterrar muitos crimes e segredos em busca de uma justiça improvável e quase idealista.


Quem escreve é Enéias Tavares, doutor em Letras e especialista nos iluminados livros de William Blake. Escritor, tradutor e pesquisador, leciona literatura clássica na UFSM, a Universidade Federal de Santa Maria. Publicou dois romances, A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison — primeiro romance da saga Brasiliana Steampunk — e Guanabara Real: A Alcova da Morte — este último, coescrito por Nikelen Witter e A.Z. Cordenonsi —, além de As idades do homem na Coletânea 40 e da sua pesquisa Fantástico Brasileiro: o Insólito Literário do Romantismo ao Fantasismo. Nas madrugadas, escreve à luz de castiçais em seu covil em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

O grande diferencial de Brasiliana Steampunk é recriar personagens clássicos da literatura brasileira num contexto retrofuturista com abordagem investigativa e aventuresca. O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, é apresentado como um inventor tão altruísta quanto excêntrico, Rita Baiana e Pombinha, de Aluísio Azevedo, são duas sobreviventes cheias sonhos e cicatrizes, Simão Bacamarte, de Machado de Assis, é um médico perigoso e impiedoso, ávido por provar ao mundo como todos os males da sociedade têm cura, Solfieri, de Álvares de Azevedo, é um idoso eternamente preso no corpo de um adolescente, melancólico e atormentado, entre diversos outros. Como se não bastasse o ilustre elenco, esses heróis e vilões habitam um Brasil que nunca existiu, com serviçais robóticos pelas ruas e enormes dirigíveis pelo céu, todos movidos ao opressor, sombrio e tóxico vapor.

A narrativa começa quando Isaías Caminha desembarca de um zepelim. O jornalista carioca tem a missão de escrever uma matéria sobre os assassinatos em série de Antoine Louison, que assombrou Porto Alegre com um verdadeiro show de horrores — uma exposição médica feita com os órgãos de suas vítimas. Ouso comparar Isaías e Louison a Dante e Virgílio, respectivamente, pois o jornalista sabe que tem uma jornada sombria à frente, mas não tem como imaginar o quão profundo é o abismo em que está entrando, enquanto que Louison, por outro lado, já encarou tal abismo por tanto tempo, que decidiu levar luz para as profundezas, mas não uma luz que ilumina aqueles diante do abismo, e sim uma luz que dilacera os habitantes das trevas.


O palco d’A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison é Porto Alegre, onde dirigíveis dominam o céu, o vapor cinzento de bondes, fábricas e estaleiros se mistura à fumaça dos charutos, cachimbos e cigarrilhas e o ruído de hélices, máquinas e robôs misturam-se ao alarido do povo. Qualquer um que já esteve em Porto Alegre pode caminhar pelas páginas do livro e quase sentir na pele a sensação de visitar as localidades recriadas a ferro desse livro, que mistura o real e o imaginário com um espetacular equilíbrio desarmônico.

O enredo do livro viaja entre presente e passado, focando em diferentes perspectivas e ângulos da investigação. Através do ponto de vista de vários personagens, alguns destemidos desafiantes das trevas, outros os próprios monstros travestidos de cidadãos virtuosos, o leitor vai e volta na história dos heróis, das vítimas e dos vilões que estão acorrentados ao caso do Estripador da Perdição — e descobre quem quer quebrar as correntes e quem quer usá-las para as próprias ambições hediondas.

A cereja no topo do bolo d’A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison é justamente a narrativa não-linear registrada através de documentos e gravações. Seja em noitários, entrevistas ou correspondências, Enéias Tavares tomou uma decisão excelentemente inusitada ao narrar seu primeiro romance sem se prender à linearidade cronológica ou à voz segura e confortável em terceira pessoa. O resultado foi uma narrativa tão divertida, quanto eloquente e até espontânea dentro de um universo steampunk.


A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison é um romance aventuresco tanto nas tramas dentro das suas páginas, quanto na sua proposta no nosso mundo real. Enquanto outros escritores tentam reinventar a roda, Enéias Tavares pensou fora da caixa e encontrou no passado todas as peças para montar seu próprio Prometeu — Pós — Moderno, reimaginando os heróis e vilões da literatura nacional e criando Dr. Louison, seu próprio Médico e Monstro. A obra-prima desse experimento “retrovanguardista” é um romance instigante, inventivo e impressionante.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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