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A Joia da Alma – O mais novo romance de Tormenta RPG

Por: Bernardo Stamato

12 de setembro de 2018

Um aventureiro veterano quer apenas concluir uma última missão e se aposentar em paz, mas tudo desanda quando o passado retorna e ele e seus aliados precisam competir com um grupo rival para encontrar um poderoso artefato. A Joia da Alma é o mais recente romance de Tormenta, o mais aclamado universo de fantasia do Brasil, cenário de dezenas de livros, quadrinhos e jogos. Uma jornada épica sobre heróis relutantes, tragédias do passado e busca por redenção. E sobre uma ameaça que pode destruir o mundo de Arton.

Karen Soarele nasceu no Paraná, cresceu entre Brasília e Campo Grande, passou três anos no Canadá e hoje vive em Porto Alegre, uma verdadeira aventureira, que sabe aproveitar suas experiências com diversas culturas e pessoas em sua escrita. É autora da série Crônicas de Myríade, vencedora do Troféu Cecília Meireles, começou a escrever em Tormenta na coletânea Crônicas da Tormenta vol. 2 e, além de colaborar com o mercado editorial como autora, é também responsável pelo site Papo de Autor, onde publica resenhas, anuncia os eventos que participa e compartilha seu podcast.

Karen Soarele e seus livros

Eu não sei se a autora já tinha a ideia do romance antes da decisão de narrá-lo em Arton, mas posso dizer que ela soube explorar muito bem as oportunidades deste mundo. Christian, o aventureiro veterano, vem de Sallistick, um reino que se faz exceção à regra por ser fortemente ateu e altamente avançado em diversas ciências, em especial a medicina – algo inédito em mundos de fantasia. Tanto que o próprio protagonista é filho de um médico que arriscou seu renome nas últimas décadas ao pesquisar a enigmática Joia da Alma. Ichabod, um lefou – raça “tocada” pela Tormenta, parte artoniana, parte aberração extraplanar -, é aquele amigo que tenta pôr algum juízo na cabeça de Christian, enquanto livra o guerreiro de uma enrascada ou outra pelo caminho. Na suposta última missão, os dois conhecem Oihanna, uma jovem druida em uma peregrinação ritualística da sua tribo, em busca de encontrar a “Mãe Jaguar” dentro de si e se tornar adulta, sempre ao lado de Presa Ligeira, um jaguar amigo e protetor.

O grupo rival é composto por Verônica, uma medusa que protege seus aliados com afinco – às vezes até de si mesma -, Gwen, uma elfa sacerdotisa de Tanna-Toh, a Deus do Conhecimento, e Dok, um goblin engenhoqueiro, que quando não tem uma bugiganga para resolver um problema, dá um jeito de improvisar uma. Além dos rivais, os heróis cruzam caminhos com Frederico Pés-cascudos, um halfling que também teve sua vida mudada pela Joia da Alma, e Titus, um minotauro paladino de Khalmyr, o Deus da Justiça, que quer honrar sua pátria, por mais que nunca tenha se sentido realmente acolhido por ela.

O elenco mostra como Arton é um mundo frutífero, lar de personagens com todo o potencial para conflitos internos, que cativam o público instantaneamente. Soarele soube criar heróis que conseguem, cada um à sua maneira, ser ambíguos, divertidos e verossímeis, ao mesmo tempo que são excelentes representantes dos aventureiros de Tormenta.

Arton, um mundo cheio de desafios épicos

A Joia da Alma é tanto um excelente primeiro contato para leitores que não conhecem o mundo de Arton, como também uma lufada de ar fresco para os veteranos. Cada raça, divindade e reino é apresentado na medida certa, ambientando o leitor com espontaneidade. Óbvio que um único livro não contempla todos os anos de material de Tormenta, mas foi mais importante fazer bom uso do que foi apresentado do que arriscar ser prolixo ou vago explicando demais. Afinal, também temos a Trilogia Tormenta do Leonel Caldela e os dois volumes de Crônicas da Tormenta para quem quiser continuar se aventurando em Arton – além das HQs, dos livros de RPG e do game Desafio dos Deuses.

Eu adorei em particular o antagonista e seu plano mestre. Enquanto Arton é cheio de problemas prestes a explodir – como a Aliança Negra, o império subterrâneo finntroll, o emergente culto a Kallyadranoch etc -, a autora retornou aos primórdios mais esquecidos e inexplorados do multiverso de Tormenta para trazer de volta uma ameaça cósmica que pode pôr um fim a tudo. Os protagonistas precisam enfrentar o próprio passado, os próprios arrependimentos e frustrações para salvar tanto a si mesmos quanto o futuro do mundo. E, ao fim da leitura, é inevitável o desejo por uma sequência.

Eu só não gostei de dois detalhes n’A Joia da Alma. Acontecem alguns momentos de excesso de sorte, como o personagem certo aparecer bem no momento certo para salvar o dia, algo que eu prefiro que seja usado o mínimo possível para que os protagonistas resolvam seus problemas mais por mérito próprio do que por um acaso. O outro ponto é que o excesso de personagens deixa a maioria pouco explorada. Não sabemos nada de Ichabod, não chegamos a conhecer algum momento crucial que marcou seu passado, apenas que ele é um lefou rejeitado por conta de suas origens. Ele acaba sendo apenas o melhor amigo do herói, que o acompanha aonde for. Dok, por sua vez, é divertido e até fofo, mas acaba tendo a relevância de um “sidekick” – um ajudante – para o enredo, sem objetivos próprios. Todos os personagens têm potencial, mas eram muitos e não houve o merecido espaço para todos em um único romance.

A Joia da Alma – capa

Eu adorei A Joia da Alma. A autora conseguiu equilibrar perfeitamente a jornada épica para salvar o mundo com a jornada pessoal para salvar a si mesmo do próprio passado – até mais do que salvar, para encontrar o próprio espaço, tanto no mundo, quanto consigo mesmo e seu inexorável passado. Comecei a ler o romance desejando que a autora estivesse a altura da Tormenta e terminei acreditando que, na verdade, Tormenta é que foi agraciada pelo talento de Karen Soarele.

 

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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