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A Era do Abismo: RPG e Literatura tem tudo ou nada a ver?

Por: Bernardo Stamato

24 de março de 2019

Quando falamos de Fantasia Medieval, o que vem na sua mente? Literatura Fantástica? Videogames? RPG de mesa? Histórias em quadrinhos? Tudo junto e misturado?

Muito provavelmente você pensou em algo que é isso tudo ao mesmo tempo. O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo, por exemplo, são livros, jogos e RPGs de mesa, além de duas trilogias cinematográficas no caso da obra de J. R. R. Tolkien e da série de maior sucesso de todos os tempos da HBO no caso da obra de George R. R. Martin.

Você pode explorar tanto a Terra-Média quanto Westeros através de mídias diferentes e que se comunicam, mas você sabe muito bem que a origem desses mundos fantásticos é a literatura. Por outro lado, estou lendo atualmente o livro Dragon Age: O Trono Usurpado, que narra a guerra entre Ferelden e Orlais no mundo de Thedas. Diferente dos exemplos anteriores, Dragon Age começou como um videogame e depois se tornou literatura, RPG de mesa, histórias em quadrinho etc. No caso do maior RPG brasileiro, Tormenta, o RPG de mesa veio primeiro, depois os mangás Holy Avenger e só depois vieram as outras mídias, como os romances da Trilogia Tormenta de Leonel Caldela e o game O Desafio dos Deuses.

Muitos romances são adaptados para outras mídias e hoje vou falar especificamente da relação entre Literatura Fantástica e RPG de mesa. Como essas duas mídias se comunicam? Como uma mídia melhora a outra? O que vem primeiro, a literatura ou o RPG? Quais “estudos de caso” nós temos?

Literatura Fantástica + Jogo de Tabuleiro = RPG

A diferença básica entre um RPG e um jogo de tabuleiro é a narrativa. Você não interpreta personagens jogando War ou Jogo da Vida, enquanto que sua ficha de RPG inclui detalhes como nome e classe / profissão. Todos os RPGs incentivam que os jogadores interpretem e criem uma história e/ou até mesmo um mundo juntos. Mas a conexão entre RPG e literatura vai além do elemento narrativo em comum, o X da questão é que os RPGs se inspiram na Literatura Fantástica e muitos livros de fantasia se inspiram em RPG.

Na realidade, o elemento fantástico do RPG surgiu porque Chainmail — um jogo de tabuleiro medieval e um dos predecessores do D&D — incluía um apêndice opcional de fantasia, incluindo raças como elfos e anões e regras para magia, porém quase todos os jogadores preferiram jogar usando essas opções extras.

Acredito que as principais inspirações do primeiro RPG, o Dungeons & Dragons, foram Conan — porque um dos criadores, Gary Gygax, era declaradamente fã do Robert E. Howard — e O Senhor dos Anéis — por causa das raças anões, elfos e halflings e criaturas como entes e trolls, apesar do Gygax não ter sido fã dos livros do Tolkien por terem pouca ação. Gary Gygax podia não ser fã de O Senhor dos Anéis, mas os colaboradores com quem ele trabalhou e sua legião de jogadores eram fãs, então as referências da Terra-Média são mais do que nítidas em quase qualquer RPG — tanto quanto em quase todo romance de Fantasia Medieval.

Com o tempo, os escritores do D&D criaram seus próprios mundos fantásticos e publicaram tanto livros de RPG dedicados a descrever esses “cenários de campanha” quanto também romances dentro desses mundos. E com mais tempo, jovens que cresceram jogando RPG escreveram seus próprios romances inspirados pelos jogos, como a Saga do Mago de Raymond E. Feist e Os Filhos do Éden de Eduardo Spohr.

Acredito que é melhor compreender a prática do que a teoria, então vou falar sobre algumas grandes sagas que estão intensamente conectadas ao RPG de alguma forma e depois falarei como foi a minha relação com o RPG na escrita de A Era do Abismo.

Dragonlance

Dragonlance foi o primeiro livro a “dar a volta completa” no RPG. É difícil definir se a saga começou pelos livros de RPG ou de romance, mas o fato é que a ideia surgiu na mesa de RPG. Um grupo de escritores do D&D sempre jogava depois do expediente e começou a ter algumas ideias épicas para as próximas publicações da editora. Eles escreveram e lançaram uma série de aventuras e a trilogia de romances ao mesmo tempo, a mesma narrativa em dois formatos diferentes. A editora ficou relutante em publicar um romance pela primeira vez, mas esse foi o primeiro de muitos e até hoje a narrativa de mundos de D&D como Dragonlance, Forgotten Realms e Eberron se dividem entre aventuras e romances — e videogames e quadrinhos etc.

Na verdade, a equipe escreveu as primeiras aventuras e então o primeiro romance, mas os autores se sentiram muito presos às aventuras de RPG para escrever o romance, então decidiram inverter a ordem e escreveram o segundo romance antes de escrever as aventuras seguintes e então o terceiro romance antes das últimas aventuras.

Dragonlance “deu a volta completa” porque nasceu na mesa da RPG, depois virou livros de RPG e de romance e foi parar nas mesas de RPG dos jogadores. Apesar de RPG sempre se inspirar na Literatura Fantástica e na Mitologia, Dragonlance foi o primeiro a ser mais do que RPG, o primeiro a ser transmídia, o se revelou como o próximo passo para as editoras e para o público de RPG.

Dragonlance não é o mundo de RPG mais famoso, mas com certeza é um dos mais influentes, aquele que abriu o caminho para os próximos passos do D&D e para muitos livros de RPG e de literatura, incluindo o cenário de RPG mais famoso de todos os tempos.

Forgotten Realms

Antes de Dragonlance ser lançado — até mesmo antes da ideia surgir —, um garoto chamado Ed Greenwood imaginou um mundo fantástico. O garoto cresceu, transformou esse mundo em aventuras de RPG — a princípio, na cidade Águas Profundas — e publicou seus primeiros textos na revista Dragon Magazine. Enquanto a editora investia pesado em Dragonlance, Ed Greenwood escreveu alguns artigos na revista e algumas aventuras de D&D até que a editora decidiu lançar um novo cenário de campanha, que viria junto de mais aventuras e mais romances, é lógico.

O primeiro produto lançado sob a marca Forgotten Realms foi o romance Darkwalker on Moonshae, escrito por Douglas Niles, um mês antes do cenário de campanha ser lançado, escrito por Ed Greenwood, Jeff Grubb e Karen Martin.

Novamente é difícil definir onde o mundo nasceu. Foi na imaginação do Greenwood na juventude? Foi em suas mesas de RPG? Foi nos seus artigos e aventuras publicados? Foi no primeiro romance? Ou no cenário de campanha? Acho justo dizer que o nascimento de Forgotten Realms foi todo esse processo, como o cenário de campanha sendo finalmente a forma definida do produto.

Ninguém é obrigado a ler os romances para jogar em Forgotten Realms, tanto quanto ninguém é obrigado a jogar RPG para ler os romances — e isso se aplica a Dragonlance e a todo e qualquer mundo de fantasia. Mas Forgotten Realms é uma das provas mais poderosas de que RPG e Literatura Fantástica podem andar de mãos dadas.

Tormenta

Na década de 90, o RPG começou a se popularizar em terras tupiniquins graças aos esforços da revista Dragão Brasil. Para comemorar a 50ª edição, Marcelo Cassaro, J. M. Trevisan e Rogério Saladino — também conhecidos como Trio Tormenta — reuniram materiais publicados ao longo dos anos, acrescentaram os detalhes que faltavam e lançaram o cenário de campanha Tormenta.

Ao longo dos anos, Tormenta foi publicado em vários sistemas diferentes e com diversos acessórios até aderir ao sistema D20 nos anos 2000. Além dos RPGs, Marcelo Cassaro também lançou o mangá Holy Avenger com 42 edições, que chegou a ser finalista num concurso de mangás produzidos fora do Japão promovido pelo ministério da cultura japonês — enquanto os brasileiros discutiam se Holy Avenger era mangá ou não, o próprio ministro da cultura japonês fez questão de conhecer o Cassaro e a ilustradora Erica Awano em pessoal.

Mas você já deve ter percebido que um mundo de RPG não está completo sem a Literatura Fantástica e foi assim que Leonel Caldela entrou em cena. Ele foi recrutado pelo Trio Tormenta para escrever a Trilogia Tormenta e depois vários dos suplementos do RPG. Você pode conferir a minha opinião sobre a Trilogia Tormenta clicando aqui e como o Leonel Caldela influenciou a minha escrita clicando aqui, então vou ser sucinto e dizer que Tormenta é mais outro excelente exemplo de mundo fantástico transmídia — inclusive depois dos outros livros de literatura lançados, Crônicas da Tormenta vol. 1 e 2, A Joia da Alma e A Flecha de Fogo.

Falando especificamente dos dois principais autores dos romances de Tormenta:

Leonel Caldela sempre quis ser romancista e Tormenta foi sua primeira oportunidade. Além dos romances, ele escreveu e traduziu vários livros de RPG e também publicou As Profecias de Urag, O Código Élfico, a Trilogia Ruff Ghanor e Ozob. Caldela é o meu autor favorito, os livros dele são um prato cheio para qualquer leitor e sua carreira começou graças ao RPG.

Karen Soarele é meio que o inverso do Leonel Caldela. A autora publicou quatro livros na sua própria saga, Crônicas de Myríade, e um conto em Crônicas da Tormenta vol. 2 antes de escrever A Joia da Alma, fazendo assim o caminho inverso de Caldela: ela estabeleceu sua carreira literária primeiro e entrou para o mundo de Tormenta depois. Soarele já declarou que não acredita ser uma autora de RPG, mas Caldela diz a mesma coisa sobre si mesmo e já escreveu alguns livros de RPG, então eu continuo torcendo para que ela colabore em algum livro de RPG um dia.

Então sim, RPG e Literatura andam de mãos dadas até mesmo entre os autores brasileiros.

A Batalha do Apocalipse e Filhos do Éden

Eduardo Spohr é o maior bestseller de Literatura Fantástica Brasileira da atualidade — e um nerd e rpgista. Ele escreveu seu romance de estreia inspirado em mesas que jogou com os amigos, mas em vez de guerreiros e magos ou vampiros e lobisomens como os RPGs mais famosos, eles jogavam com anjos e demônios.

Não por acaso o livro Filhos do Éden: Universo Expandido vem com regras de RPG. O livro em si é um guia visual com todos os detalhes sobre o universo criado por Spohr, seus personagens, criaturas, dimensões, eras etc. Mas, para os rpgistas, o capítulo sobre RPG é um deleite à parte, pois possibilita infinitas aventuras inspiradas na Tetralogia Angélica.
Você pode conferir a minha opinião sobre a A Batalha do Apocalipse clicando aqui, sobre a Trilogia Filhos do Éden clicando aqui e como o Eduardo Spohr influenciou a minha escrita clicando aqui.

Eduardo Spohr já anunciou inclusive um livro exclusivamente sobre RPG no seu universo, o que prova que ele é mais do que um rpgista, ele é um entusiasta que honra suas origens nerd e agora colabora ativamente para o nosso hobby, possibilitando que os rpgistas joguem no seu cenário e até que leitores experimentem o RPG e se tornem rpgistas também.

A Era do Abismo

Eu também sou rpgista, mas meu livro não surgiu nas mesas de RPG. O RPG de mesa tem tanta influência na minha escrita quanto os filmes e videogames que eu gosto: é uma ótima inspiração.

Não acredito que narrar uma história de um grupo explorando uma masmorra sala por sala dê muito certo, seria muita descrição, poucos acontecimentos e é simplesmente impossível narrar cada uma das dezenas de batalhas em forma de romance. Ainda assim, uma cena de um grupo explorando uma masmorra pode ser muito divertida e eu acredito que seja possível aproveitar essa ideia de alguma forma.

A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões tem algumas cenas em cavernas labirínticas, templos abandonados e quartéis de milícias, mas acredito que faz mais sentido narrar essas cenas de forma divertida para o leitor e depois adaptá-las para uma aventura de RPG ou videogame com mais salas, obstáculos e batalhas pelo caminho.

Além desse tipo de cena, posso dizer que dois personagens foram inspirados em RPGs que joguei: Marcus e Ravenlla. Especificamente Marcus foi inspirado num personagem de um amigo meu — que adorava interpretar brucutus meio desmiolados — e Ravenlla foi inspirada numa PDM de uma campanha que joguei, uma personagem que apareceu por pouco tempo, mas me deu uma ideia que achei bacana acrescentar na minha narrativa. Os outros personagens foram inspirados em videogames, mas falarei em detalhes como criei cada personagem em breve.

Ler livros de RPG é muito prazeroso e rende excelentes ideias, mas a literatura não pode se limitar ao RPG — não pode se limitar a nada. Eu sempre busco diversas fontes de inspiração quando vou criar algo novo e RPG é uma delas. Na verdade, eu nem me atenho muito às regras, costumo pular as estatísticas enquanto leio RPG em busca de inspiração, mas ler sobre outros mundos fantásticos e heróis épicos com certeza é um ótimo fermento para o cérebro.

Não penso em escrever uma adaptação para RPG no momento simplesmente porque isso me custaria muito esforço e tempo que não tenho no momento, apesar de acreditar que a transmídia seja um passo natural do sucesso — como aconteceu em tantos outros casos citados. Eu também planejo expandir meu universo, planejo criar um multiverso, mas um passo de cada vez, preciso contar algumas histórias em forma de literatura por enquanto.

Se quiser conferir como tanta nerdice se transmutou em meu livro de Fantasia Sombria, dá uma conferida n’A Era do Abismo. Clique aqui.

E você, joga RPG? Quais sistemas? Já pensou em adaptar suas aventuras em romances? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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