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A Era do Abismo: O que aprendi lendo Raphael Draccon

Por: Bernardo Stamato

10 de março de 2019

Eu lembro do dia em que conheci o Raphael Draccon pessoalmente. Não foi numa tarde de autógrafo ou na Bienal do Livro, foi no lançamento do Código Élfico do Leonel Caldela. Eu já sabia quem era o Draccon, mas confesso que ainda não tinha tido o interesse em ler seus livros, até que ele olhou para a minha blusa e puxou assunto comigo.

Era uma blusa do Mestre dos Magos jogando RPG com o Vingador e o Raphael Draccon me perguntou como eu acho que deveria ser uma adaptação moderna da Caverna do Dragão. Batemos um papo breve e fiquei impressionado com como o autor demonstrou interesse genuíno na minha opinião.

Depois disso, li o livro Crônicas da Tormenta, que incluía contos tanto do meu autor favorito, o Leonel Caldela, quanto “daquele tal de Raphael Draccon”. Eu comecei o livro com certeza de que meus contos favoritos seriam os do meu autor favorito, mas me surpreendi ao notar que meu favorito foi o do Draccon.

Desde então, passei a ler seus livros, acompanhei de perto sua trajetória de autor na Leya, como curador da Leya e então autor da Rocco e inclusive tive o privilégio de entrevistá-lo numa Bienal do Rio.

Hoje eu vou falar o que eu aprendi com os livros do Draccon, exemplos que acredito que todos escritores deveriam seguir e detalhes interessantes que os fãs deveriam prestar atenção.

Dragões de Éter

Dragões de Éter é sobre um mundo que mistura contos de fadas com fantasia medieval e referências à cultura pop. Inúmeros clássicos são reimaginados — como João e Maria, Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, Branca de Neve e os Sete Anões — num mundo novo, onde a força de vontade se transmuta em magia e o poder da criação é palpável. O foco do Draccon é imaginar o que acontece depois das fábulas, mas não da maneira sombria e exagerada que outros autores insistem em apelar, e sim de forma a criar uma nova saga épica, com direito a intrigas políticas e batalhas épicas.

O que eu mais gostei no primeiro livro da saga, Caçadores de Bruxas, foi o vilão, o capitão pirata Coração de Crocodilo, filho do famigerado Capitão Gancho. O Coração de Crocodilo não é só um vilão astuto e implacável, ele tem uma motivação pela qual todos nós concordamos que vale a pena lutar: a família. No fim das contas, o vilão compõe o mosaico de personagens carismáticos de Dragões de Éter. E mesmo que ele esteja no lado oposto do mosaico, ele não destoa do panorama, pelo contrário, ele complementa e enriquece.

Acredito que a maior lição de Dragões de Éter é o valor dos clássicos e a forma como ainda podemos criar histórias poderosas inspiradas neles. Raphael Draccon não escreveu um livro à moda antiga e nem desvirtuou os contos de fadas, ele legitimamente misturou algumas das maiores fontes de inspiração para todos os escritores com uma abordagem e conflitos modernos. Dragões de Éter é o equilíbrio impecável entre o clássico e o contemporâneo.

Fios de Prata: Reconstruindo Sandman

Falando em recriar clássicos, Fios de Prata é outro ótimo exemplo da criatividade e versatilidade do Raphael Draccon. Dessa vez, o autor se inspirou em Neil Gaiman para narrar uma história onde o maior sonhador da Terra precisa descer ao Abismo durante uma guerra cósmica para resgatar sua princesa.

O que mais gostei de Fios de Prata foi que o ponto de partida é a obra Sandman, mas o autor cria toda uma cosmologia própria onde os três deuses gregos do sonhar guerreiam pela soberania e usam os sonhadores da Terra como exército, além de trazer referências como Final Fantasy, Chrono Trigger, Vingadores e Harry Potter. No fim das contas, Draccon buscou alcançar a essência da criatividade e acertou ao explorar a mitologia tanto quanto a cultura pop.

Acredito que a maior lição de Fios de Prata é como Raphael Draccon fez bom uso de uma narrativa simples — guerra entre potências e o resgate à donzela — para apresentar um universo extremamente fértil. Uma regra útil para criar mundos fantásticos: ou o mundo é simples e a história é complexa — como Game of Thrones — ou o mundo é complexo e a história é simples — como Fios de Prata: Reconstruindo Sandman.

Legado Ranger

Depois de se inspirar em contos de fadas, quadrinhos e videogames, o que faltava para Raphael Draccon recriar? Os tokusatsu, é lógico! Em Legado Ranger, cinco pessoas do nosso Planeta Terra vão parar numa dimensão hostil e precisam desbravar essa nova realidade ao mesmo tempo em que aprendem a sobreviver a ela, até que tudo muda quando eles descobrem armaduras mágicas com os poderes de dragões ancestrais.

O que mais gostei em Cemitérios de Dragões foi a nostalgia e a caracterização do elenco. Nostalgia por ver uma nova abordagem a um gênero que marcou minha infância — desde os originais, como Jiraiya, Jaspion e Changeman, até os enlatados Power Rangers e suas inúmeras versões, como Turbo, Força do Tempo e Super Patrulha Delta —, mas com magia e dragões em vez de tecnologia e alienígenas. E caracterização do elenco pelos arquétipos bem aproveitados, como o líder altruísta, a garota valentona, o colega rabugento, a humilde obstinada e o nerd tímido, cada um complementando a equipe e literalmente colorindo a narrativa.

Acredito que a maior lição de Legado Ranger é a versatilidade do Draccon. Ao longo da carreira, o autor provou que pode se inspirar nas mais variadas obras e criar uma nova história ao mesmo tempo atrativa e consistente. Foi uma surpresa e uma aposta audaz se inspirar num gênero tão controverso quanto os tokusatsu — por mais que muitos tenham assistido aos Power Rangers na juventude, a maioria lembra mais das tosqueiras do que da diversão inerente em cada episódio, como as muitas faíscas e as gesticulações exageradas, sem falar na improbabilidade do gênero combinar com literatura fantástica —, mas Raphael Draccon confiou no seu faro e no seu talento e nos entregou uma trilogia poderosa e, o que é mais importante, divertida.

Raphael Draccon

Raphael Draccon se destaca por trazer de volta os clássicos da nossa juventude e pela forma corajosa como renova cada arquétipo e cada ideia para os dias de hoje. Ler seus livros é mergulhar num mar de inspirações, nadar até o núcleo da criatividade e descobrir como a imaginação é realmente ilimitada.

Se quiser conferir como honrei o legado do Draccon em meu livro de Fantasia Sombria, dá uma conferida n’A Era do Abismo. Clique aqui.

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Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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