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A Era do Abismo: O que aprendi lendo O Senhor dos Anéis?

Por: Bernardo Stamato

1 de dezembro de 2018

Impossível falar de fantasia medieval sem falar de Tolkien. Depois de O Senhor dos Anéis, todos os livros de fantasia medieval tiveram influência de Tolkien ou fizeram um esforço muito grande para não ter influência. No meu caso, eu conheci elfos, orcs, trolls e entes através de jogos como Warcraft e Dungeons & Dragons, só depois desbravei a saga que abriu caminhos para tantas outras.

Como escritor de literatura fantástica, eu analisei tudo o que conheço sobre Tolkien e escolhi conscientemente o que usar e o que não usar tanto para minha narrativa quanto para minha carreira. Sendo assim, aqui estão os atributos que mais me chamam atenção a respeito do maior autor de fantasia de todos os tempos e como eu decidi usá-los – ou não.

Uma Jornada Inesperada – e sem planejamento

J. R. R. Tolkien

Tolkien conta que começou a escrever O Senhor dos Anéis logo após a publicação de O Hobbit e que não fez grandes planos de antemão. Ele basicamente tinha toda a mitologia da Terra-Média e a história d’O Hobbit e partiu desse ponto. Por que um hobbit é o personagem principal d’O Senhor dos Anéis? Simplesmente porque O Senhor dos Anéis é sequência d’O Hobbit. Acredito que esse modo de criar o mundo e seus habitantes e narrar a história deles sem estrutura pré-definida, apenas permitindo que eles vivam e sigam suas jornadas, foi o detalhe mais apaixonante de todas as histórias da Terra-Média.

Sinceramente, tenho pavor da ideia de que uma boa história precisa ser planejada a cada detalhe com antecedência. Enquanto escrevia, eu constantemente me peguei planejando, escrevendo, percebendo que fugi do planejado e então tendo que replanejar. Simplesmente não é o meu perfil de escritor. George R. R. Martin fala que existem escritores arquitetos e jardineiros. Eu certamente sou um jardineiro, aquele que semeia e colhe, não aquele que planeja e constrói.

Apesar de que acredito que uma história tão singular como O Hobbit e O Senhor dos Anéis não funcionaria em tempos de blockbusters e bestsellers. Vivemos em tempos diferentes, o público é viciado na jornada do herói e histórias singulares podem parecer estranhas demais. Convenhamos, quem não gosta de uma boa e simples jornada do herói? Considerando que eu nasci depois de Tolkien já ter falecido e em meio a essa era de blockbusters e bestsellers, quero dar um passo além: resgatar um pouco da singularidade do passado glorioso, mas sem negar por completo o contexto em que vivo.

Sobre Histórias de Fadas – sem alegorias

A Sociedade do Anel

Muitos enxergam alegorias na obra de Tolkien, por mais que ele mesmo tenha negado e até declarado que detestava alegorias. Não, a mitologia da Terra-Média não é uma alegoria ao cristianismo. Não, o Um Anel não é uma alegria às drogas. Tolkien era um católico protestante e sua fé de fato influenciou muito o seu trabalho, mas a intenção dele era contar uma boa história, nada mais.

E, de fato, é um saco ter uma “moral da história”, uma simbologia ou qualquer coisa do tipo. O próprio Stephen King fala disso no seu livro Sobre a Escrita, sobre como de fato é inevitável ter uma simbologia na grande quantidade de sangue em Carrie, a Estranha, mas não foi planejado ou intencional. Ele contou uma história e depois percebeu que havia uma simbologia intuitiva ali no meio, e isso é muito bom, mas, se ele tentasse enfiar alegorias goela abaixo nos seus livros, elas ficariam terríveis.

O Retorno do Rei – prolíxo e perfeccionista

Fingolfin enfrenta Morgoth em O Silmarillion

Já falei e vou repetir: não gosto da narrativa de Tolkien. Não gosto de ler páginas sobre um rio, sobre o nome do rio em três idiomas diferentes e seus significados, sobre de onde vem, para onde vai, quem já passou ali antes, a utilidade dele para natureza e para o comércio, para então os personagens atravessarem o rio e ponto final. Acontece que o grande personagem principal do Tolkien era a própria Terra-Média, então cada rio é, de fato, muito importante. Mas também é muito tedioso.

E, por mais que O Senhor dos Anéis seja uma trilogia enorme, Tolkien teve mais publicações póstumas do que em vida. O Silmarillion, Contos Inacabados, Beren e Lúthien, Os Filhos de Húrin, As Aventuras de Tom Bombadil, A Lenda de Sirgurd e Gudrún, A Queda de Gondolin e assim vai. O Tolkien escreveu toneladas de rascunhos e não conseguiu decidir quais versões usar, agora seu filho dedica sua vida a organizar e editar seus escritos.

E quando digo toneladas, me refiro a um baú cheio de papéis sem nenhuma ordem esclarecida. Tolkien escrevia as mesmas histórias várias e várias vezes e ainda escrevia sobre questões filosóficas e linguísticas da Terra-Média. Ele podia escrever sobre um fato histórico da Terra-Média em um parágrafo, depois escrever mais detalhes em algumas páginas e enfim escrever esses fatos históricos em narrativa detalhada em várias páginas. Tolkien com certeza era um gênio, mas acho que ele deveria ter dado mais pontos finais e ter publicado mais livros ainda em vida.

Particularmente, eu não acredito que os orcs de Tolkien foram elfos torturados e corrompidos, apesar de O Silmarillion afirmar isso. Por que não? Por que o próprio Tolkien não aceitou essa ideia, mas seu filho decidiu publicar seus textos, precisou tomar uma decisão e decidiu que essa era a versão canônica. Acredito que o leitor é o dono da história e, como leitor, opto pela versão do próprio Tolkien. De onde os orcs vieram então? Não sabemos – justo, afinal Tolkien também morreu sem saber.

Eu quero publicar muitos livros e duvido que meus descendentes iriam se interessar em continuar meu trabalho – céus, quero que minha filha trilhe a própria jornada dela e só siga a minha trilha quando e como quiser, e se quiser. Sou da opinião que feito é melhor que perfeito, então me identifico mais com Stephen King nesse ponto. Quero escrever e quero escrever muito, então não ficarei anos em cima dos mesmos textos.

O Legado de Tolkien

Terra-média: Sombras da Guerra

Eu faço parte do legado de Tolkien. Meu livro tem elfos e anões, tem espadas mágicas e tem sua cronologia milenar. Sou infinitamente grato pelos portões abertos pel’O Hobbit e pel’O Senhor dos Anéis, eu não teria tido tantas outras histórias que adoro sem eles, nem muito menos teria escrito meu livro também. Não sou exatamente um fã de carteirinha do Tolkien, mas reconheço e agradeço por tudo que o maior autor de fantasia de todos os tempos nos proporcionou

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E você, o que mais gosta no Tolkien? O que menos gosta? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

E para quem leu até aqui, eis a arte de um dos protagonistas do livro (também falarei mais deles em breve):

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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