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A Era do Abismo: O que aprendi lendo Leonel Caldela?

Por: Bernardo Stamato

29 de dezembro de 2018

Leonel Caldela é o meu escritor favorito — não, eu não canso de repetir isso. Lembro de jogar D&D 3.5 com o pessoal e conversar com meu melhor amigo sobre meu interesse em ler os romances de Tormenta, escritos por um tal Leonel Caldela. “Será que é bom?” Eu e meu melhor amigo compramos o primeiro livro na mesma época, mas ele devorou a trilogia enquanto eu ainda começava as primeiras páginas.

Meu melhor amigo adorou, apesar de toda a tragédia e crueldade, mas também disse que eu iria amar — e amei mesmo. Quando comecei a ler, não consegui mais parar. Adorei a abordagem visceral ao mundo de Arton de O Inimigo do Mundo, saltei da cadeira ao ler a última frase de O Crânio e o Corvo e desejei que O Terceiro Deus fosse um livro ainda maior do que já é.

Desde então, acompanho Leonel Caldela nas redes sociais, li quase todos os seus livros e tive a honra de pegar autógrafo com ele em duas ocasiões — no lançamento de O Caçador de Apóstolos na finada Bárbaras e Magias e no lançamento de O Código Élfico na Bienal do Rio.

E agora vou contar o que aprendi com cada romance do Leonel Caldela que li.

O Inimigo do Mundo

O Inimigo do Mundo se destacou pela violência explícita e pelas temáticas maduras, mas não falarei dessas questões ainda. Falarei de um dos grandes diferenciais do livro de estreia de Leonel Caldela: o elenco.

O Inimigo do Mundo tem nove protagonistas, acredito que é o maior elenco de todos os romances que já li, empatado com A Sociedade do Anel — O Hobbit não conta, pois os anões quase não têm personalidade própria. E Caldela — diferente de Tolkien — conseguiu fazer com que cada um dos seus protagonistas parecesse de carne e osso, pessoas cheias de defeitos e nuances. Quer aprender a criar personagens? Leia Leonel Caldela!

Vallen é o líder amigável e impetuoso, Elisa pode ser a “mãezona” ou a “madrasta” do time — dependendo se ela vai com sua cara ou não —, Artorius é ao mesmo tempo um sacerdote dedicado e um soldado implacável, Ashlen é o jovem perspicaz de língua afiada, Andilla é a selvagem de modos brutos e sucintos, Gregor é o paladino generoso e cavaleiresco, Nichaela é a sacerdotisa de intenções puras e conhecimento vasto, Masato é o samurai que estranha os costumes dos outros, mas logo se enturma e encontra seu lugar na equipe e Rufus é o atraso do time, aquele que merece ser expulso, mas o líder preza o companheirismo até demais.

Por um lado, todos os personagens ganham atenção, por outro, dá vontade do livro ter mais páginas para o leitor conhecê-los melhor. Particularmente, senti que o casal Vallen e Elisa ficam um pouco apagados pela metade do livro justamente porque os outros personagens precisavam de atenção. Já ouvi o próprio Caldela comentar que errou a mão na quantidade de personagens do seu primeiro livro.

Não que isso seja problema para George R. R. Martin, mas O Inimigo do Mundo tem 464 páginas e Guerra dos Tronos tem 592. Caldela criou um elenco admirável, mas esse elenco merecia mais páginas.

O Inimigo do Mundo foi um dos primeiros livros que eu adorei e sempre que crio um personagem, eu me esforço para que seja uma pessoa singular, de carne e osso, tal qual os protagonistas de Leonel Caldela.

O Crânio e o Corvo

O Crânio e o Corvo é o romance favorito da maioria dos fãs de Tormenta. Eu compreendo a preferência, apesar de discordar, pois Leonel Caldela aprimorou sua escrita e entregou um novo romance com tudo de bom do primeiro e com melhorias. O segundo romance da Trilogia Tormenta parece não ser uma sequência direta, mas a cada página com algum elemento familiar, a gente vai ficando inevitavelmente fascinado.

O que mais me chama atenção em O Crânio e o Corvo é a criação dos seus conflitos. Tem conflito por toda parte! O novo protagonista é Orion Drake, um cavaleiro com mil motivos para se aposentar da vida de aventureiro, mas também mil motivos para partir em jornada. Isso gera conflito imediato com sua esposa, Vanessa, mas também envolve conflitos com um caótico exército de bárbaros transformados em monstros. Como se não bastasse, Orion descobre pistas sobre seu misterioso pai, o Cavaleiro Risonho, para não citar dúzias de conflitos entre nações e personagens secundários.

Além dos personagens muito bem elaborados, Caldela também soube trazer de volta elementos do livro anterior, sempre deixando claro como que cada um progrediu — ou se corrompeu — com o passar do tempo. Acredito que O Crânio e o Corvo é a sequência ideal por saber apresentar novos elementos e aproveitar os antigos, lembrarei de usar isso quando for escrever meu próximo livro.

O Terceiro Deus

O Terceiro Deus é o meu livro favorito do Leonel Caldela. Como disse Robert Downey Jr: para ter valor, tem que ter um fim. E se O Crânio e o Corvo é um livro de conflitos, o Terceiro Deus é um livro de conclusões épicas.

É difícil narrar uma saga em proporções cósmicas. A Marvel, por exemplo, erra a mão de vez em quando ao criar vilões invencíveis e soluções insatisfatórias para a trama. Eduardo Spohr, por outro lado, sabe dosar e explicar como anjos insuperáveis são derrotados. Leonel Caldela, por sua vez, não poupou esforços ao narrar deuses encarnados, horrores cósmicos e heróis lendários literalmente marchando para a guerra.

O que mais gostei em O Terceiro Deus foi o equilíbrio impecável entre concluir a saga épica que começou em Inimigo do Mundo, o excelente uso dos elementos do mundo de Arton e, em especial, a narrativa cósmica do último livro. Deuses morrem, o multiverso está em desequilíbrio, cada herói e vilão tem poder o suficiente para fazer o mundo tremer. Narrar uma saga nessas proporções é extremamente difícil e delicado, seria muito fácil a narrativa ficar repetitiva ou piegas, e Leonel Caldela consegue manter o tom melhor do que ninguém.

Para leitores que querem uma narrativa literalmente épica, a Trilogia Tormenta é a melhor leitura disponível. Provavelmente ousarei criar histórias tão poderosas, espero honrar esse legado.

O Caçador de Apóstolos

Depois de provar ao mundo que podia aproveitar tudo o que o cenário de Tormenta tinha de melhor, nada mais justo que Leonel Caldela apresentar seu próprio mundo no seu livro seguinte: O Caçador de Apóstolos. Sem elfos, anões, dragões ou sequer magia, esse novo cenário traz uma fantasia muito mais crua, impiedosa e visceral.

Nesse mundo, a igreja governa e aliena o povo com mãos de ferro, fazendo um grupo de mercenários se unir por vingança e para levar a luz de volta à sociedade. Lembra o que eu falei sobre violência explícita e temáticas maduras? O Caçador de Apóstolos é o primor do Caldela nesse sentido. A guerra não é heroica, ela é um inferno na terra. Não há heróis, há apenas pessoas que sofreram nas mãos dos tiranos e que sentem o dever — ou a necessidade — de se erguer contra o sistema. E o final não é feliz, ele é traumático.

Além dos personagens singulares e da narrativa inventiva, admiro O Caçador de Apóstolos pela coragem de entregar uma narrativa tão áspera e ao mesmo tempo tão boa. Não é um livro que todo mundo iria gostar, mas quem leu, adorou. Leonel Caldela não tenta agradar gregos e troianos, mas sabe viciar seus leitores nos seus livros.

Deus Máquina

Falando em não agradar gregos e troianos, Leonel Caldela não fez outra trilogia, ele novamente quebrou as expectativas e encerrou sua história no segundo volume, o Deus Máquina, que trouxe as revelações sobre o passado do mundo, as explicações sobre seus mistérios e finalmente fez valer o grito de guerra “nada no céu”.

Mesmo sendo uma excelente narrativa, Leonel Caldela errou a mão no Deus Máquina. Sem spoilers, posso dizer que o mundo vive uma idade das trevas graças a uma doença, mas o autor explica e repete e reafirma tantas vezes o que é essa doença, que saturou minha leitura. Na minha humilde opinião, acredito que o livro ficaria melhor com alguns parágrafos desnecessários a menos.

Veja bem, eu adorei Deus Máquina, mas isso não me impede de reconhecer que nem tudo que o meu autor favorito escreve é de ouro. Talvez a melhor lição aqui é que um escritor e toda a equipe editorial de um livro devem sempre manter um escrutínio rigoroso sobre a obra. Leonel Caldela conta que recebeu carta branca da Jambô para escrever o que quisesse, e isso resultou num livro muito bom, mas que podia ter sido excelente.

O Código Élfico

Os livros do Leonel Caldela são singulares e viscerais, mas também é importante ressaltar que são experimentais. A Trilogia Tormenta é a maior saga de fantasia medieval do Brasil e muitos diriam que o autor deveria fazer algo mais básico, mais fantasia clássica. Em vez disso, Caldela misturou fantasia medieval com horror cósmico e deu totalmente certo. Ele não tem medo de experimentar e o livro mais experimental de todos é O Código Élfico.

O Código Élfico mistura horror cósmico, com fantasia urbana, com lendas urbanas estadunidenses, com batalhas estilo Matrix. Pode parecer uma mistureba tipo sorvete com caldo de feijão, e é bem por aí mesmo. Eu adorei, mas devo dizer que esse é o livro mais nichado do Leonel Caldela.

Posso citar que a disrupção de comparar elfos com horrores cósmicos é magnífica. Quando pensamos em horror cósmico, o que nos vem em mente é tentáculos, bocarras e todo tipo de aberrações insanas. Mas e se o horror for belo? E se existir uma divindade tão perfeita e irresistível que você perderia sua identidade e passaria a adorá-la no momento em que tivesse um primeiro vislumbre? Seria tão perturbador quanto tentáculos e bocarras, não?

Além dessa brutal quebra de expectativas — não espero nada menos do Caldela —, o cenário de O Código Élfico também é tão singular quanto seus personagens. A cidade Santo Ossário tem história, tem tradições e tem habitantes com todas as nuances e peculiaridades quanto alguns dos mundos de fantasia mais complexos.

Mesmo depois do Leonel Caldela explorar o mundo de Arton e de ter elaborado seu próprio mundo medieval, ainda acho que O Código Élfico é a melhor aula de como criar um cenário de um livro de fantasia.

A Lenda de Ruff Ghanor

Se O Código Élfico é o livro mais experimental, A Lenda de Ruff Ghanor é o mais comercial do Leonel Caldela, aquele com potencial para agradar gregos e troianos. É perceptível como o autor pegou tudo o que aprendeu na sua carreira e aplicou num livro com todos os elementos para agradar multidões e usou na medida certa.

O que começou com um podcast de RPG do Jovem Nerd, se tornou uma saga com a origem daquele mundo, contextualizando a hostilidade entre os povos, definindo seus heróis e até desvendando sua maior ameaça.

Temos a jornada do herói, do seu melhor amigo e da sua donzela, temos aprendizado, queda, ascensão e vitória, temos reviravoltas de deixar o queixo caído. A princípio, eu achei a história de amor de A Lenda de Ruff Ghanor parecido demais com a de O Inimigo do Mundo, mas Caldela conseguiu me surpreender até nesse aspecto no final.

Justamente pela sua capacidade de agradar a gregos e troianos, que eu adorei A Lenda de Ruff Ghanor, mas também não é um dos meus livros favoritos. Acredito que Leonel Caldela escreveu um livro excelente, com potencial para agradar incontáveis leitores, mas ainda gosto da sua narrativa mais áspera, cruel e visceral.

Posso dizer que A Lenda de Ruff Ghanor me ensinou como um escritor amadurece com o tempo e com a experiência. O próprio Caldela fala um pouco de cada um dos seus livros no prefácio, sobre o que ele considerou bom e ruim em sua carreira até esse novo livro. Caldela teve altos e baixos, amadureceu e tomou decisões assertivas.

Tormenta RPG

Além de uma penca de romances, Leonel Caldela escreveu livros de RPG. Muitos livros de RPG. O autor começou com O Panteão, Área de Tormenta e Contra Arsenal, ainda quando Tormenta era um cenário de D&D. Ele também é coautor do Módulo Básico do TRPG e participou de vários títulos dessa linha, incluindo Guerras Táuricas, Valkaria: A Cidade Sob A Deusa, os Manuais do Combate, da Magia, do Devoto, do Malandro e da Raça e o Guia da Trilogia. Se bobear, ele escreveu mais RPG do que literatura.

É difícil saber exatamente quais foram as criações do Caldela nesses livros, considerando que ele não escreveu praticamente nenhum sozinho — por exemplo, o Guia da Trilogia só tem o nome dele na capa, mas ele cita participação de outros colaboradores em vários detalhes, como as fichas dos personagens e estatísticas de monstros, itens, magias etc. Ainda assim é possível notar a influência do autor nesses trabalhos.

Leonel Caldela gosta tanto de conflitos cósmicos, quanto de tramas políticas e até de cuidar de cada detalhe dos personagens. Ele quem escreveu as revelações sobre Kallyadranoch em O Panteão, o histórico dos PDMs em Contra Arsenal e as movimentações da tropa e o contexto político de Guerras Táuricas. Ao que tudo indica, Leonel Caldela não é um autor de RPG especializado em regras e estatísticas, mas é muito plural na elaboração de personagens, cenários e cosmologias. Inclusive, a parte mais legal de ler O Guia da Trilogia não é o RPG, e sim os bastidores por trás dos romances, como o fato de que o nome do bardo Senomar é Ramones ao contrário ou sobre as tropas de elite que ele estudou para criar os Cavaleiros do Corvo.

Por mais que você não seja jogador de RPG, recomendo a leitura do Guia da Trilogia como um excelente exemplo de uma enciclopédia e de bastidores de uma saga, tudo num livro só.

Leonel Caldela

Eu já encomendei a Flecha de Fogo, será a minha primeira leitura de 2019. Com certeza publicarei uma crítica do livro e provavelmente falarei do que aprendi no mais novo romance de Tormenta. Até lá, posso dizer que Leonel Caldela é um autor corajoso e singular, que tem gosto em experimentar e em entregar livros que desafiam as expectativas dos seus leitores.

Não canso de dizer que Leonel Caldela é o meu autor favorito, e eu espero aprender muito com ele ainda — por mais que isso custe o sangue, as lágrimas e até as tripas de muitos personagens.

Se quiser conferir como honrei o legado do Caldela em meu livro de Fantasia Sombria, dá uma conferida em A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, meu livro de Fantasia Sombria, clique aqui.

E você, o que mais gosta no Leonel Caldela? O que menos gosta? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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