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A Era do Abismo: O que aprendi lendo Eduardo Spohr?

Por: Bernardo Stamato

14 de dezembro de 2018

Eu lembro quando comecei a escrever críticas literárias para internet. Eu havia ganhado o concurso cultural Eu, Criatura e estava publicando contos num blogue e divulgando meu trabalho no Twitter quando o dono do canal Filmes & Games me procurou. Batemos um papo e eu aceitei compartilhar minha opinião sobre alguns livros no site deles – afinal, minha estante já estava recheada.

Foi uma experiência incrível, depois de um tempo passei a receber os livros das editoras direto na minha casa, e fui além de crítico literário, também participei de cabines de imprensa, até entrevistei o John Green no tapete vermelho aqui no Rio, mas tudo começou com os livros na minha estante mesmo. Decidi começar pelos meus livros favoritos – a Trilogia Tormenta, de Leonel Caldela – e depois parti para um certo livro muito famoso até hoje – A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr.

Já li todos os livros do Spohr e inclusive tive a oportunidade de entrevistá-lo em uma Bienal do Livro do Rio de Janeiro, mas hoje vou olhar de novo para cada livro dele e vou avaliar e compartilhar com você o que aprendi com cada um e também o que não gostei neles.

A Batalha do Apocalipse

Sendo imensamente honesto, considero A Batalha do Apocalipse um bom livro. Eduardo Spohr é um escritor excelente… Hoje! Mas seu primeiro livro não é excelente. Como o nerd que sou, adorei a saga épica de Ablon, as batalhas cósmicas e a guerra entre anjos e demônios, mas fiquei um pouco cansado em alguns pontos.

Acho que a maior qualidade de A Batalha do Apocalipse foi sua autenticidade. Spohr criou um universo singular e narrou uma saga muito divertida, algo diferente de tudo que tínhamos antes. Logo de cara, aprendi com Spohr que criar todo um universo próprio não é só necessário na escrita da fantasia, mas também muito divertido. Se o autor se divertiu criando seu universo tanto quanto eu lendo seus livros, então sua jornada de escritor foi ótima.

Outro ponto forte é que Eduardo Spohr criou seus personagens inspirado não só em pessoas reais e culturas do nosso mundo, mas também em arquétipos da cultura pop, algo que ainda incomoda nossa literatura tradicional. Arquétipos estão por toda parte, estão nas páginas de Harry Potter, nos quadrinhos da Marvel, nos filmes blockbusters e Spohr teve coragem de trazê-los para a literatura nacional. O autor teve coragem de ser autêntico, e eu aposto que essa foi a força motriz que alavancou sua carreira num primeiro momento.

O único ponto negativo em A Batalha de Apocalipse é que alguns trechos acabaram longos demais e um tanto cansativos. Foi incrível ler sobre anjos no Rio de Janeiro em uma página e sobre a Torre de Babel em outra, mas o livro é grande e ler sobre as tropas angelicais e demoníacos se preparando para a batalha em uma página e sobre a Rota da Seda e a queda do Império Romano na outra já não me deu o mesmo entusiasmo.

Spohr podia ter focado em mais personagens, além de Ablon, ou ter dividido tantas histórias em mais livros. Todas suas histórias são boas, mas o ritmo de A Batalha do Apocalipse poderia ser melhor.

Herdeiros de Atlântida

Eduardo Spohr melhorou muito depois de seu primeiro livro e Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida é a melhor prova disso. Enquanto A Batalha do Apocalipse se concentra demais num único personagem, a trilogia Filhos do Éden tem um elenco diversificado e cativante. A narrativa, os diálogos, a apresentação do universo, tudo melhorou a partir dos Herdeiros de Atlântida.

O que mais gosto nesse livro é como Spohr explorou a mitologia amazonense, nossas entidades e criaturas mágicas. É difícil dar uma abordagem madura para o nosso folclore, alguns autores deixam tudo sombrio demais ou infantil demais, enquanto Spohr conseguiu de fato pôr anjos e os espíritos protetores das nossas florestas em pé de igualdade.

Ainda assim, a principal lição que aprendi com Herdeiros de Atlântida foi a diversidade do elenco. Os arquétipos ainda estão aqui, mas Eduardo Spohr aprendeu a usá-los com maestria. Temos a pessoa que cai de paraquedas em um novo universo e precisa (re)aprender tudo do zero para se tornar a líder do grupo, o soldado durão e devotado à causa, o amigo gentil e generoso, o renegado que pensa mais em sobreviver do que salvar o mundo, entre outros que são apresentados ao longo da narrativa. Simplesmente todos os personagens de Herdeiros de Atlântida são cativantes.

Anjos da Morte

Filhos do Éden: Anjos da Morte foca no passado de Denyel, o renegado que se uniu aos heróis do primeiro livro. O livro expande a narrativa e a mitologia do universo, cativa com os personagens novos e antigos, mas eu ainda acho que esse livro não deveria ter entrado na trilogia.

A principal aprendizagem que Anjos da Morte me trouxe foi a importância da pesquisa em um romance. O livro viaja por épocas, países e guerras distintas, e Spohr fez questão de ilustrar os costumes, roupas, contextos políticos e até citar as músicas famosas em cada ocasião. Aposto que esse foi o livro que deu mais trabalho, pois adaptar uma mitologia a um universo próprio permite licenças poéticas que retratar localidades, culturas e conflitos reais não permite. Sinceramente, não sei se ousaria algo tão audacioso.

Mas como eu disse, acho que Anjos da Morte não deveria estar na trilogia Filhos do Éden. O livro apresenta poucos progressos na história principal e se dedica quase por completo no passado do Denyel, o que serve para compreender o personagem, mas não avança a narrativa como um todo. Na minha opinião, Eduardo Spohr deveria ter expandido a trilogia, apresentado mais personagens, mais batalhas, mais dimensões e mais mitologias e ter deixado Anjos da Morte como um livro à parte, um spin-off. Aposto que os leitores não reclamariam de ler um livro a mais.

Paraíso Pedido

Paraíso Perdido fecha com louvor a saga dos Filhos do Éden e faz uma ponte inusitada e muito bem-vinda para a Batalha do Apocalipse. O livro começa em Asgard, depois viaja no tempo e explica ao mesmo tempo as origens da revolta de Metatron e de Ablon e, por fim, encerra a batalha entre nossos heróis e o Primeiro Anjo.

Paraíso Perdido é o clímax dos Filhos de Éden e uma obra-prima de Eduardo Spohr, pois ele manteve sua autenticidade enquanto dominou suas técnicas de narrativa. Se as várias narrativas em períodos, localidades e focos diferentes me incomodaram em A Batalha do Apocalipse, Spohr já estava tão afiado em Paraíso Perdido que o ponto fraco do seu primeiro romance se tornou o grande diferencial do seu último. O autor acreditou em seu estilo, não se rendeu às mesmices e melhorou como escritor a cada lançamento.

Também devo ressaltar que Spohr apresentou e usou seu universo com maestria. O leitor conhece de forma confortável e instigante os personagens, as castas, a guerra milenar entre as entidades cósmicas, as infinitas dimensões, enfim, os conceitos e as regras do universo, para então Eduardo Spohr usar todos esses elementos a favor da trama.

Particularmente, eu não apresentaria o protagonista de um livro no último livro de outra trilogia, apesar de entender porque Spohr fez isso. Quem não leu A Batalha do Apocalipse e conhece Ablon em Paraíso Perdido pode se interessar em ler mais um livro e já estará situado de quem é seu protagonista, enquanto que os fãs de longa data que já leram A Batalha do Apocalipse vão ficar mais do que felizes em conhecer o passado do herói. É uma boa jogada, funcionou muito bem para o Eduardo Spohr, mas eu preferiria manter as sagas separadas, no máximo citar e explicar eventos conectados, e não narrar episódios entrelaçados entre sagas distintas em obras diferentes.

Universo Expandido

Filhos do Éden: Universo Expandido é um livrão da porra – capa dura, todo ilustrado e sobrecarregado de uma leitura divertida. É o guia definitivo do universo do Spohr, detalhando sua cronologia, dimensões, rotas cósmicas, castas, personagens e seus poderes, armas e feitiços, bestiário e até diretrizes para quem deseja escrever fanfics e regras e estatísticas de RPG para jogadores e mestres que quiserem jogar com anjos, demônios e deuses.

Com certeza todo escritor de fantasia tem anotações sobre seu universo, e eu acredito que Universo Expandido foi a forma ideal de publicar um guia para os leitores. Um livro de RPG limitaria o livro para um nicho menor, enquanto que uma prosa como O Silmarillion arriscaria entediar mais do que informar. Por outro lado, um livro do cacife do Universo Expandido – como também O Mundo de Gelo e Fogo e World Of Warcraft: Crônica – é uma leitura muito mais dinâmica e praticamente uma peça de colecionador na estante do leitor.

De tudo que aprendi lendo Eduardo Spohr, a lição do Universo Expandido é a mais distante da minha realidade. Estou publicando meu primeiro livro e não publicaria um guia do meu universo nem tão cedo – para não dizer precoce – e nem em formato diferente do Universo Expandido. Mas tudo bem, até esse dia chegar, eu continuarei aprendendo, melhorando minha narrativa e lendo as próximas publicações do Spohr.

Eduardo Spohr

Eduardo Spohr merece toda sua fama. Além de um ótimo escritor, ele sempre recebe os fãs e os blogueiros com todo carinho e paciência que a gente merece. Às vezes é necessário horas de fila para um breve autógrafo, foto e abraço, mas poder falar com um profissional com um trabalho tão excelente é sempre uma honra.

Como eu disse, Spohr é um autor com autenticidade, que soube criar e apresentar todo um universo fantástico e seus personagens, que soube pesquisar, recriar e respeitar diversas culturas e que soube narrar uma saga épica com complexidade e ação nas medidas certas.

Com certeza eu ainda tenho muito o que aprender com esse autor.

Se quiser conferir como honrei o legado do Spohr em meu livro de Fantasia Sombria, dá uma conferida na pré-venda de A Era do Abismo com brindes exclusivos – pôster + 8 marcadores personalizados. Clique aqui.

E você, o que mais gosta no Eduardo Spohr? O que menos gosta? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

E para quem leu até aqui, eis a arte de um dos protagonistas do livro (também falarei mais deles em breve):

 

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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