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A Era do Abismo: Como Nasce um Nerd?

Por: Bernardo Stamato

27 de outubro de 2018

“E quem apontar algum erro atribuível à minha ignorância não fará grande descoberta, pois não posso dar a outrem garantias acerca do que escrevo, não estando sequer satisfeito comigo mesmo.” – Michel de Montaigne.

Como nasce um escritor? Certamente seria presunçoso da minha parte tentar responder a uma pergunta tão elevada. Mas talvez eu possa lhe contar como eu me tornei um escritor. E já aviso de antemão que também não há uma resposta precisa para tal assunto, por isso tentarei seguir a ordem cronológica. Então, nesse primeiro noitário de produção, vou falar das minhas origens como um nerd: o videogame – mais precisamente, o Nintendinho que herdei dos meus irmãos mais velhos.

Veja bem, eu sou nerd. E não sou pouco nerd, sou nerd até os ossos. Tão nerd que escrevi um livro de Fantasia Sombria e, quando me questionei sobre minhas origens de escritor nerd, me dei conta que meu jogo favorito do meu primeiro videogame foi Castlevania – o maior clássico de Fantasia Sombria dos videogames. Hoje temos Dark Souls, Dragon Age, The Witcher, mas na década de 80, Castlevania foi o auge do misto entre horror e aventura.

Eu lembro quando minha mãe me deu um cartucho com quatro jogos, Contra, California Games, Castlevania e um último que eu não me lembro. De tudo que joguei naquele console – e acredito que joguei bastante coisa -, Castlevania sempre foi meu favorito – apesar de eu nunca ter chegado muito longe. Lembro do protagonista, Simon Belmont, chegando nos portões do castelo, os gráficos e sons toscos, mas épicos para a época, deixando claro o perigo que estava pela frente. Em seguida, os jardins do castelo, com uma música menos suspense e mais aventura, num cenário simples, que me permitia testar os controles sem me arriscar. Então a primeira fase, com zumbis, morcegos e sahuagins me perseguindo e me cercando. Para finalmente o primeiro chefe, um morcego gigante – que eu chamava simplesmente de “morcegão”. Eu me senti a criança mais corajosa do planeta ao vencer todos esses desafios. A cada nova fase, sentia o misto de medo e curiosidade, que me impulsionavam a seguir em frente para derrotar o Drácula. Lógico que eu nunca consegui zerar esse jogo, ele é infernalmente difícil. Mas fui longe, chegava até ao Monstro de Frankenstein.

Enfim, eu adorei esse jogo e ainda adoro a série como um todo. E é esse o tom de narrativa que eu mais gosto numa ficção: não tão colorido quanto O Senhor dos Anéis ou Final Fantasy, não tão visceral quanto It: A Coisa ou Sexta-Feira 13. O foco de Castlevania ainda é a ação, mas uma ação menos frenética e mais cautelosa. Quer correr e estourar inimigos? Tem Mario, Sonic e Mega Man. Quer sentir um frio no umbigo enquanto caça os monstros dentro de um castelo mal-assombrado? Castlevania é um prato cheio. Lógico que Castlevania não foi o único jogo que eu adorei no Nintendinho, tampouco o único jogo que me influenciou.

Lembro que Contra foi o primeiro jogo que eu zerei – lógico que foi com a ajuda do meu irmão. Era um jogo de plataformas bem desafiador, como Castlevania, mas em vez de controlar um guerreiro num castelo mal-assombrado, você controlava soldados ao estilo Rambo enfrentando uma invasão alienígena. A jogabilidade era bem mais ágil e intensa e era bem mais divertido jogar no multiplayer – algo que Castlevania não permitia. Acredito que Contra me influenciou nessa pegada mais ação colaborativa. Eu ainda prefiro histórias em que vários personagens fazem a diferença, do que apenas um único herói dando conta de todo o recado.

Por último, mas não menos importante, Street Fighter 2 é uma das minhas principais inspirações para escrever – acredite se quiser. E sim, o Nintendinho teve uma versão do Street Fighter 2. Era muito tosco! Só dava para jogar com Ryu, Guile, Chun Li e Zangief e eu nunca cheguei a zerar porque era muito difícil – mas passava horas no versus com meu irmão. Minha mãe deve ter se arrependido de dar esse jogo para a gente, porque nosso tio tinha um Mega Drive com o jogo de verdade e nós passamos a implorar um Mega Drive aos nossos pais – que o meu avô acabou dando de aniversário para o meu irmão. Enquanto Castlevania foi meu jogo favorito do Nintendinho, Super Street Fighter 2 foi o meu favorito do Mega Drive. Quando eu falar especificamente desse console, explico melhor como Street Fighter me influenciou, mas por enquanto posso dizer que Castlevania e Contra tinham poucas opções de personagens, enquanto Street Fighter já trazia de cara quatro lutadores (e a versão de Mega Drive chegou ao total de dezesseis), o que é um bom exemplo de pluralidade no elenco.

Eu poderia escrever um livro só sobre os jogos que joguei no Nintendinho. Além de Castlevania, Contra e Street Fighter 2, joguei também Super Mario Bros, Tartarugas Ninja, Robocop, Darkwing Duck, Batman, Double Dragon, California Games, Caveman Ugh-lympics, BurgerTime, Gato Felix, Popeye, Motocross, Caça-Fantasmas, Predador, Tico e Teco e mais alguns que com certeza esqueci.

Dois dos meus jogos favoritos de todos os tempos também tiveram origens no Nintendinho, mas eu só fui descobri-los na adolescência: Final Fantasy e The Legend of Zelda. Eu zerei o primeiro Final Fantasy na versão de PSP e o primeiro Zelda num emulador de Nintendinho – usando e abusando do “quick save”. Mas eu joguei essas versões mais por nostalgia e para descobrir as origens de duas franquias que amo. Com certeza seus jogos não tão antigos, como Final Fantasy 6 e Ocarina of Time, me influenciaram muito mais do que suas origens arcaicas.

Bom, eu certamente não comecei a escrever por causa de nenhum desses jogos, mas foi com eles que eu comecei a me tornar um nerd. E sinceramente acho mais do que natural que os videogames influenciem tanto o meu livro. Os autores do passado não se inspiravam apenas na literatura, com certeza o teatro e a música sempre dialogaram com a escrita fictícia. Posteriormente, a televisão e o cinema passaram a influenciar também. E a geração atual de escritores cresceu jogando videogame – como por exemplo Taran Matharu, bestseller britânico que declara abertamente como Pokémon e Skyrim inspiraram sua série O Conjurador. O brasileiro Raphael Draccon, diga-se de passagem, emula cenas de jogos em vários de seus livros. Hoje em dia, cinema, videogame, histórias em quadrinhos, música, teatro e literatura estão em diálogo constante, nenhum escritor se baseia unicamente na literatura para escrever. E com certeza as gerações vindouras terão a internet, o smartphone, o Netflix, o YouTube e o que mais surgir como referências.

Então digo seguramente que meu Nintendinho foi minha primeira nerdice e seus jogos foram a minha primeira inspiração para contar histórias. Seja com a fantasia sombria de Castlevania, a ação cooperativa de Contra ou a pluralidade de elenco do Street Fighter, a nerdice faz parte essencial da minha vida, o que é no mínimo bastante divertido.

E, no máximo, é o meu livro, A Era do Abismo, que está em pré-venda neste link aqui.

Diga-se de passagem, foi graças ao videogame que me tornei um leitor, mas falarei disso futuramente.

E para quem leu até aqui, eis a arte de um dos protagonistas do livro (também falarei mais deles em breve):

E você, como se tornou um nerd? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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