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A Era do Abismo: Como nasce um leitor?

Por: Bernardo Stamato

12 de novembro de 2018

“Não devemos nos questionar porque algumas coisas nos acontecem e sim o que podemos fazer com o tempo que nos é dado.” — J. R. R. Tolkien.

No primeiro noitário, falei como me tornei um pequeno nerd com meu Nintendinho. Mas videogame não forma escritores, apenas os livros têm esse poder. Diferente de muitos colegas escritores, eu não fui uma criança leitora. Não devorei a biblioteca da escola, não desbravei páginas e mais páginas, céus, eu detestava ler. Desculpa, mas minha vida de leitor não começa como a maioria das outras.

Começando a ler

Minha vida de leitor começa – adivinhe só – nos videogames. Ao longo da infância e adolescência, joguei muita coisa e criei gosto pelos RPGs eletrônicos, especialmente a série Final Fantasy. Acontece que os videogames se inspiram muito em mitologia e literatura. Dragões, fadas, demônios, a maioria das criaturas que matamos nos jogos tem origens na mitologia. Sem falar nos jogos inspirados diretamente em literatura, como The Witcher, Metro 2033 e até O Guia do Mochileiro das Galáxias.

E como eu já conhecia bastante de videogames, comecei a reparar que várias criaturas dos jogos apareciam em filmes, séries e animes que eu assistia. Lembro especificamente de assistir Beowulf no cinema – era 2007, eu tinha 19 anos – e quando citam o monstro Grendel, pensei na hora “conheço esse nome, vai dar ruim”. Adorei o filme e saí curioso para relembrar onde tinha ouvido esse nome antes – a resposta foi Final Fantasy. Então pesquisei nomes de outras criaturas, como Abadom, Quetzalcóatl, Shiva e descobri que muitas das criaturas que eu conhecia através dos jogos vinham das mais diversas mitologias. Foi quando comprei alguns livros de mitologia e comecei a criar gosto pela escrita.

Isso mesmo, só aos 19 anos. Daí em diante foi tudo muito rápido. Li tanto sobre Mitologia Grega, que comecei a achar os livros repetitivos – não sou doutor no assunto, mas sei bastante. Li também sobre Mitologia Nórdica, Celta, Iorubá e um pouco de cada continente do nosso mundo. Depois comecei a ler Tolkien, o autor que influenciou praticamente toda a literatura fantástica contemporânea. Mas o primeiro livro de literatura que adorei de verdade foi O Inimigo do Mundo, do Leonel Caldela – clique aqui para saber minha opinião em detalhes. Ainda aos 19 anos, escrevi meu primeiro conto, mas esse vai ser o assunto de um noitário futuro.

Do Videogame para a Mitologia

O Livro de Ouro da Mitologia é uma leitura excelente sobre mitologia… grega. São várias lendas, algumas famosas, outras nem tanto, mas é quase tudo – tipo ¾ – só sobre cultura greco-romana. No finalzinho tem alguma coisa sobre mitologia nórdica e só. O título deveria ser O Livro de Ouro da Mitologia Grega, mas se você quer uma leitura básica, divertida e simples sobre esse assunto em específico, pode ir sem medo.

Curiosamente um dos melhores livros sobre mitologia que já li foi Divindades e Semideuses, do D&D 3ª Edição, infelizmente fora de linha. O livro dá um excelente resumo sobre mitologia grega, nórdica e egípcia, uma ótima leitura até para quem não é rpgista – é só ignorar as estatísticas de jogo. Afinal, o Filhos do Éden – Universo Expandido do Eduardo Spohr também inclui estatísticas de RPG e aposto que a maioria dos fãs do autor não joga, não é?

Outra ótima referência mitológica é a Enciclopédia de Mitologia de Marcelo Del Debbio. Esse calhamaço parece um dicionário de heróis, entidades e deuses de inúmeras mitologias – grega, nórdica, egípcia, iorubá, indígena, cristã, tudo. Por citar literalmente milhares de personalidades, as informações são bem resumidas, mas com certeza norteiam o leitor e podem ser o pontapé inicial para pesquisas mais complexas.

Acredito que toda essa leitura sobre mitologia me influenciou quando fiz questão de usar várias fontes para criar o mundo do meu livro. Pesquisei mitologia grega, nórdica, japonesa, até filipina para criar os personagens e as criaturas. Afinal, se um escritor é capaz de criar um mundo fértil, é porque ele também buscou inspirações diversificadas.

Da Mitologia para a Literatura

Dando um passo para longe de mitologia e nos aproximando da literatura, lógico que eu não quis ficar só em pesquisas e quis conhecer também as narrativas. Um dos primeiros livros que eu li e adorei foi A Canção de Tróia, que narra a guerra entre Grécia e Tróia, mas de uma perspectiva mais humana e menos fantástica. Os deuses são abstratos e as bestas lendárias são apenas animais do nosso mundo real – como os pégasos, uma unidade de corcéis exemplares. Cada capítulo é narrado por um herói diferente, a saga é contada desde as intrigas diplomáticas que motivaram a guerra até a divisão dos espólios, e vários temas polêmicos, como a religiosidade da época, a brutalidade da guerra e a homossexualidade dos gregos, são tratados da forma como devem ser tratados: natural, espontânea, parte da nossa história e da nossa natureza humana.

Gosto de livros que pegam lendas e mitos e trazem para um contexto histórico. Outro bom exemplo disso é a trilogia Crônicas de Artur de Bernard Cornwell. Quando li o primeiro livro, O Rei do Inverno, achei chato e cansativo e larguei antes da metade. Como eu tinha consciência de que estava ainda desenvolvendo o hábito de ler, devolvi o livro para a estante e decidi retomá-lo depois. E quando o fiz, adorei cada página.

Cornwell pegou os fatos comprovados sobre a história da Inglaterra e traduziu num romance épico e visceral. Sacerdotes de religiões diferentes disputam sua fé, mas o leitor pode interpretar como preferir: poderes místicos colidiram de fato ou foi apenas a crendice em ação? Artur, Merlin, Morgana, Lancelot, cada um dos personagens arturianos é apresentado de forma renovada e intrigantemente plausível. No fim do romance, Cornwell explica cada fato real que narrou e cada licença poética que precisou tomar – principalmente para personagens famosos, mas questionáveis, como Merlin e Lancelot.

Outro passo maior que a perna que dei nessa época foi tentar ler Contos Inacabados, de ninguém menos que J. R. R. Tolkien. Diferente de O Rei do Inverno, eu li Contos Inacabados até o final, não gostei e depois continuei não sendo fã da escrita de Tolkien. Como eu disse na minha crítica a’O Silmarillion, gosto do mundo que o Tolkien criou, mas não da narrativa dele. Contos Inacabados reunem rascunhos e fragmentos que o Tolkien não concluiu, sendo uma leitura excelente para os fãs de O Senhor dos Anéis e para quem quiser conhecer melhor como que um dos escritores mais famosos de todos os tempos trabalhava, mas é uma leitura bem cansativa e me entediou bastante.

Através da leitura desses clássicos internacionais, comecei a descobrir o que gosto e o que não gosto numa narrativa. Gostei dos múltiplos personagens e da naturalidade como certos temas foram abordados n’A Canção de Tróia, gostei do mundo áspero e estoico que Bernard Cornwell elaborou e não gostei da prolixidade de Tolkien.

Da Literatura Internacional para a Literatura Nacional

Foi nessa época que descobri meu gosto por literatura nacional. Eu não lembro qual livro li primeiro, A Canção de Tróia ou O Inimigo do Mundo – acho que foi Tróia -, mas com certeza esses foram os primeiros livros que adorei. O Inimigo do Mundo, por sua vez, fica num lugar especial no meu coração e Leonel Caldela é meu escritor favorito.

Eu já falei minha opinião sobre a Trilogia Tormenta em detalhes, mas vale falar um pouco sobre o elenco criado por Cadela e todo o mundo de Arton. Caldela é um belo exemplo de como fazer personagens que parecem pessoas reais, de carne e osso, com suas motivações, suas peculiaridades e seus defeitos e ele também soube explorar o cenário de Tormenta, várias cidades, masmorras e desafios, cada um único a sua própria forma. A Trilogia Tormenta é minha saga favorita e O Inimigo do Mundo é um livro de estreia épico em todos os sentidos.

Outro livro que adorei instantaneamente foi O Espadachim de Carvão do Affonso Solano. Diferente da maioria, que segue arquétipos e mitos, Solano busca inspiração em obras inusitadas e cria um mundo tão único, que os fãs se deleitam em debater se é uma fantasia ou uma ficção científica. O Espadachim de Carvão é a aventura de um herói clássico num mundo estranho e hostil, uma narrativa enérgica num universo singular, uma lufada de ar fresco para os leitores acostumados a leituras tão repetitivas que temos por aí.

Foi então que decidi ler um certo livro que todo mundo estava falando, A Batalha do Apocalipse de Eduardo Spohr – que eu também já critiquei em detalhes. Spohr fez um excelente trabalho em criar um universo baseado em várias mitologias reais, mas sem medo de usar a própria interpretação e basicamente revirar tudo de cabeça para baixo. A Batalha do Apocalipse é cheio de aventuras e batalhas cósmicas e a sequência, a Trilogia Filhos do Éden, mostra como um autor pode evoluir em sua própria jornada.

Caldela, Spohr e Solano são três dos melhores autores da atualidade. Você já deve ter ouvido falar que muito se perde na tradução, e a vantagem de ler nacionais é que eles já falam no nosso idioma. Impossível um livro traduzido ser tão espontâneo ou sarcástico quanto um nacional, simplesmente porque o brasileiro já usa os maneirismos e os trejeitos do nosso dia a dia. Sem falar que poder ir num evento e papear com um autor nacional é uma experiência única, convenhamos.

Da Literatura para o RPG

RPG é um tema bem específico, muito possivelmente você que está lendo nem joga, mas o hobby faz parte da minha vida de leitor, então falarei brevemente dos meus favoritos.

Já falei um bocado de Tormenta RPG, então não deve ser surpresa eu falar que é o meu cenário favorito. Fantasia Medieval e Horror Cósmico, como não amar? Mas Tormenta é mais do que isso, os livros falam de magia, de guerras, de piratas, ilhas pré-históricas, enfim, Tormenta é o maior mundo fictício nacional, são décadas de publicações, dezenas de livros de RPG, quatro romances, duas coletâneas de contos, vários mangás, um jogo digital… É muito improvável que você não se apaixone por nenhuma dessas obras.

Ravenloft é a minha aventura de D&D favorita. A aventura Castelo Ravenloft é inspirada no Conde Drácula, mas o reino de Baróvia e o antagonista Conde Strahd Von Zarovich são apavorantes e apaixonantes ao mesmo tempo e o jogo apresenta variáveis que permitem que o mesmo grupo jogue a aventura diversas vezes, sempre tendo experiências novas. A aventura fez tanto sucesso, que Ravenloft se tornou um mundo inteiro, um cenário gótico onde o mal sempre vence e você simplesmente nada contra a correnteza até seu inevitável fim trágico. Ler sobre os Domínios do Medo com certeza me dá várias ideias divertidas para torturar e assombrar meus personagens.

Dragon Age é o meu jogo favorito da atualidade e Dragon Age RPG é um dos melhores RPGs de mesa dos últimos tempos. As regras são simples, dinâmicas e divertidas e os reinos, a cosmologia e os personagens são fascinantes. Enquanto Tormenta puxa mais para o Horror Cósmico e Ravenloft mergulha de cabeça no gótico, Dragon Age é um mundo medieval com muitos dragões e demônios e poucas esperanças, sendo a Fantasia Sombria em seu primor.

Numenera foi o RPG que me pegou de surpresa. Ganhei o livro num concurso, comecei a ler e viciei nesse calhamaço. O mundo é o equilíbrio perfeito entre Fantasia Medieval e Sci-fi: a civilização se organiza de forma feudal, mas os reinos foram erguidos em cima de milhões de anos de tecnologias perdidas, esperando para serem desenterradas e redescobertas. Não existe magia, existe itens tecnológicos misteriosos e os aventureiros que fazem uso, sem nunca de fato compreendê-los. Numenera, assim como Kurgala, é um mundo onde o divertido é explorar os mistérios sem desvendá-los por completo. É impossível compreender as civilizações do passado e sua tecnologia surreal. O que nos resta é usá-la a nosso favor e sobreviver aos monstros, autômatos e alienígenas que agora dividem o nosso mundo.

Surpresas e frustrações como leitor

Mas também tiveram livros que me surpreenderam – no bom e no mau sentido. Eu imaginei que iria adorar os livros inspirados nos videogames, mas nenhum está entre meus favoritos. World of Warcraft, Diablo, God of War, Assassin’s Creed, todos são muito mais merchandise do que uma boa leitura. Se você gostar de jogar e de ler, pode gostar de um desses livros, mas não são boas leituras nem para conhecer esses jogos e nem para o jogador conhecer a literatura.

Por outro lado, torci o nariz para alguns livros, que adorei no final. Especialmente dois livros nada a ver com o meu gosto. Philomena é um livro baseado em fatos reais, que inspirou o filme homônimo, indicado a vários prêmios, como Oscar e Globo de Ouro. É a história de uma mulher que foi obrigada a entregar o filho à adoção pela igreja irlandesa. Depois de décadas, ela decide contratar um jornalista para investigar o paradeiro do filho perdido. Enquanto o filme retrata a busca da mãe idosa, o livro foca na história do menino. É trágico, é emocionante e é real, impossível não adorar.

O Livro de Julieta, por sua vez, é os relatos de uma mãe com sua filha com Síndrome de Down, sua vivência, os desafios e a dificuldade de aceitar a própria criança. Numa página, você ri da espontaneidade de Julieta, e na outra, você engole em seco com a inevitável amargura da mãe, que batalha contra os próprios sentimentos de rejeição.

Eu li esses dois livros por obrigação e adorei ambos. Vida de leitor é assim, a gente se frustra com livros que pareciam incríveis e se surpreende com leituras nada a ver com nosso perfil.

Vida de leitor

Falei muito e falei pouco ao mesmo tempo. Se eu falasse de cada autor que me influenciou, como Stephen King, Kafka, Saramago, Renata Ventura, Raphael Draccon, André Vianco e muitos outros, daria para escrever um livro por si só.

Vida de leitor é um caminho sem volta. Já li de tudo um muito, desde mitologia e fantasia, até biografia e estudos acadêmicos. Acredito que leitura é a melhor forma de experimentar histórias, pois abre espaço para a criatividade complementar a narrativa de forma que cinema e videogame não permitem. Talvez esse tenha sido um dos motivos de eu ter escrito um livro.

Agora estamos chegando perto de como eu me tornei um escritor. Foi basicamente jogando videogame e lendo esses livros, tendo minhas próprias ideias e sintetizando-as no livro A Era do Abismo que está em pré-venda com brindes exclusivos – 8 marcadores personalizados + pôster -, clique aqui para conferir.

E você, como se tornou um leitor? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

Por fim, para você que leu até aqui, segue também mais uma arte dos protagonistas do livro:

 

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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