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A Era do Abismo: Como Nasce um Escritor?

Por: Bernardo Stamato

8 de dezembro de 2018

“Se você vai tentar, vá até o fim. Se não, nem ao menos comece.” – Charles Bukowski.

Como disse desde o início, seria presunçoso dizer como nascem escritores. Acredito que cada pessoa tem sua própria jornada e é a singularidade de cada um que torna sua história especial. Sendo assim, primeiro eu me tornei um nerd, depois eu me tornei um leitor — um tanto tarde, confesso — e enfim eu decidi ser escritor. O ponto de virada foi um telefonema que mudou a minha vida, mas vou começar pelo começo.

Eu tinha uns 21 anos e cursava História na UERJ quando a Devir Livraria lançou o concurso cultura Eu, Criatura, onde cada participante poderia enviar até três contos ambientados no Mundo das Trevas, sistema de RPG de terror. A principal regra era que o personagem-narrador deveria ser uma criatura das trevas, um vampiro, lobisomem, mago etc. Eu nunca tinha escrito ficção na minha vida, mas não tinha nada a perder e tentei a sorte.

Mundo das Trevas – Cenário de RPG onde escrevi meu primeiro conto

Ao todo foram mais de cem contos inscritos por todo o país e minhas chances eram mínimas. Confesso que eu nem sequer havia jogado aquela edição do RPG, havia jogado apenas o Vampiro: A Máscara anos antes. Céus, eu nem tinha nenhum livro dessa edição. Eu peguei um livro emprestado de um amigo, li metade, escrevi um conto e enviei. Com certeza haveria outros participantes com mais experiência tanto em escrita quanto no Mundo das Trevas.

Escrever aquele conto foi uma experiência pitoresca. Lembro quando a ideia veio: eu estava entrando no meu prédio tarde da noite, a luz do corredor começou a piscar e eu pensei “nossa, esse é o cenário perfeito para uma cena de assassinato”. Subi no elevador e entrei no meu apartamento com a cena na minha cabeça e o conto começou a surgir. Acho que foi minha ideia mais genuína, porque ela não surgiu lendo um livro, jogando videogame ou vendo tevê. Surgiu do nada, em um momento real, soturno e corriqueiro ao mesmo tempo. Depois desse momento, só precisei fazer algumas adaptações — como decidir qual seria a criatura das trevas narradora — e pronto, eu tinha a minha história.

Lembro também que havia planejado três contos, escrevi dois, mas um ficou grande demais para os limites do concurso, não tive tempo de revisar por conta da faculdade, e acabei enviando só um. Lembro até de mandar o e-mail, não receber confirmação, ficar paranoico achando que a internet estava com problema, correr para a faculdade, tentar por lá e enviar o e-mail por mais de um servidor diferente até um deles receber a confirmação. Depois me achei bobo pela preocupação, hoje agradeço por ter sido tão prevenido.

Vampiro: A Máscara – RPG mais famoso da White Wolf

O tempo passou e absolutamente nada aconteceu. O dia de anunciarem os vencedores veio e foi, o site da Devir cricrilava e eu simplesmente assumi que não havia ganhado nada, como era de se esperar. Até o dia que eu estava dormindo no ônibus a caminho da faculdade — provavelmente de boca aberta e roncando — e meu telefone tocou. Estranhei o DDD de São Paulo e atendi ainda sonolento.

— Alô…

— Alô, Bernardo? Aqui é a Zanini, da Devir, tudo bom?

Fiquei sóbrio na hora.

— Alô, oi! Tudo!

— Você participou do concurso cultural Eu, Criatura, né?

— Sim, participei.

— Você olhou o seu e-mail recentemente?

— Acho que sim, por quê?

— Então, Bernardo, você ganhou o concurso.

— O quê?

— O concurso Eu, Criatura. Você é o Bernardo, né? Escreveu o conto Aberração na Coleira.

— Sim, sim, sou eu. Mas eu fiquei em segundo lugar? Terceiro?

Risos do outro lado da linha.

— Não, Bernardo, você ficou em primeiro lugar.

Eu pirei. Fiquei tão incrédulo que achei que era trote — o que arrancou mais risadas da Zanini. Cheguei na faculdade, ignorei minha aula e corri para um computador para abrir meu e-mail e estava lá. Primeiro lugar com o primeiro conto que escrevi na vida.

Mundo das Trevas: Antagonistas – Livro que peguei emprestado do meu amigo para me inspirar

Contei para a minha namorada da época e decidimos matar aula para comemorar. Antes de ir na casa, passei na casa de um amigo para encontrar o meu outro amigo que havia me emprestado o livro e mostrei o e-mail para eles. Nisso, minha mãe já estava me ligando, me dando bronca porque estava tarde e eu tinha aula cedo dia seguinte. Cheguei em casa, ela queria conversar comigo e eu peguei meu notebook enquanto ela me dava bronca. Quando ela terminou, eu já estava com o e-mail do concurso aberto e mostrei para ela. Pronto, acabou a bronca, ela me deu os parabéns e eu terminei o dia com minha mente em ebulição — acho que esta em ebulição até hoje.

Eu sempre tive uma vontade reprimida de escrever livros, mas repetia para mim mesmo que era uma carreira muito arriscada e que não valia à pena. Tudo havia mudado naquele momento: agora, era inegável que eu tinha algum potencial, então decidi arriscar. Decidi mudar de carreira e ser escritor.

Todos os blogues de RPG comentaram o concurso e eu conheci muita gente na época. Sou muito agradecido à Zanini, em especial, por todo o nosso diálogo e por tudo que aprendi enquanto revisávamos meu conto — reconheço que eu devia ter teimado menos com ela. Outras pessoas foram — felizmente — passageiras, mas me mostraram o ecossistema do mercado editorial brasileiro. Devo ter um certo pé atrás com e-zines até hoje por causa disso.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Hoje, sou formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, trabalho com roteiros para YouTube e sou pai. O mercado editorial também mudou, mas aprendi muito, aprimorei minha escrita, conheci pessoas, escrevi muitos contos e finalmente estou lançando meu primeiro livro.

Em breve, irei falar mais sobre mercado editorial e sobre como meus contos me levaram até o meu primeiro livro, tanto quanto como foi escrever o livro em si. Mas antes, vou lançar mais uma enquete no meu Instagram — @mochileiros_do_multiverso — para você me ajudar a escolher qual será o tema da semana que vem.

Até lá, se quiser conferir como tanta nerdice foi transmutada num livro de Fantasia Sombria, dá uma conferida n’A Era do Abismo. Clique aqui.

E para quem leu até aqui, eis a arte de um dos protagonistas do livro (também falarei mais deles em breve):

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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