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A Era do Abismo: Como Criar um Mundo Fantástico?

Por: Bernardo Stamato

19 de janeiro de 2019

Criatividade é apenas conectar coisas. Quando você pergunta para pessoas criativas como elas fizeram algo, elas se sentem um pouco culpadas porque elas não fizeram de verdade, só viram alguma coisa. Parece óbvio para elas depois de um tempo. Isso aconteceu porque elas conseguiram fazer a ligação entre as experiências que já tiveram e então sintetizaram coisas novas.” — Steve Jobs.

Eu sou um tagarela. Se você também é tagarela ou convive com alguém tagarela, sabe como ideias e assuntos podem se estender ao infinito. Podemos falar por horas e transitar sobre diversos assuntos como se não houvesse amanhã.

Eu também sou criativo. Se você também é criativo ou convive com alguém criativo ou criativa, sabe como ideias e assuntos parecem surgir do nada. Às vezes é durante o café da manhã, às vezes é dobrando uma esquina, às vezes é assistindo a comercial de margarina. Aparece uma família sorridente comendo torrada e você ou a pessoa do seu lado comenta casualmente “e se eles estivessem num apocalipse zumbi, essa fosse a última margarina do mundo e um grupo de sobreviventes rivais chegasse para assaltá-los?”. Sim, alguém nessa conversa fez um olhar de “what the fuck”, não é mesmo?

Pessoas tagarelas e criativas criam coisas, mas a criação não é tão aleatória assim. Eu já te falei sobre jogos que me inspiraram, sobre escritores que me influenciaram e sobre como comecei a escrever, então acho justo contar como criei Éden, o mundo em que A Era do Abismo se passa, e também falar um pouco sobre o processo de criação de cenário — talvez seja útil para a sua criatividade ou divertido para a sua curiosidade.

E, como nerd que sou, a ideia veio jogando videogame.

Ingredientes de um Mundo Fantástico

Eu já havia ganhado o Concurso Eu, Criatura e já havia escrito alguns contos para internet, mas não sabia por onde começar um romance. Queria escrever um livro, mas não sabia por onde, até que surgiu as primeiras ideias para o cenário.

Nessa época, a Blizzard começou a lançar trailers do Diablo 3 e eu fiquei empolgado. Lembro de ver os vídeos, ler fóruns e de baixar o primeiro jogo para matar a ansiedade. Na verdade, eu achei o CD no meu armário — daqueles comprados em banca de jornal —, mas óbvio que não rodou. O jeito foi baixar uma versão adaptada para o Windows mais recente mesmo.

Criei meu guerreiro e desci na Catedral de Tristram, fatiando mortos-vivos e demônios pelo caminho. Eu morria de medo desse jogo quando criança, nunca fui muito longe, mas dessa vez já era marmanjo e só me diverti reencontrando o Butcher e o Skeleton King. Enquanto isso, minha mente começou a funcionar.

Como seria um mundo com anjos e demônios, mas também com elfos, anões e orcs. Não um mundo como os muitos cenários de RPG, onde existem referências de várias mitologias diferentes, e sim um mundo onde os celestiais e abissais eram as entidades supremas, como seriam os anjos cultuados pelos elfos e anões, ou os demônios cultuados pelos orcs e goblins.

Eu desci da Catedral para as Catacumbas, para as Cavernas e até o Inferno. Derrotei Arcebispo Lazarus e Diablo e pensei em outras referências, como a Trilogia Tormenta e os Mythos de Cthulhu. A cada jogo do Diablo, o Inferno avança mais um passo para vencer a guerra contra o Céu. No mundo de Arton, nem mesmo os deuses parecem capazes de salvar sua criação dos Lordes da Tormenta. Nos Mythos de Cthulhu, simplesmente não existe Céu ou deuses, existem apenas os Grandes Anciões e os Deuses Exteriores, todos malignos e insanos. Eu adoro todos esses cenários e não existe esperança em nenhum deles.

Aos poucos, a ideia de um mundo sem celestiais foi ficando tentadora. E se a guerra chegou a uma conclusão? E se o Abismo venceu? E se o mundo já estiver condenado e for apenas uma questão de tempo para o fim chegar.

Esse é o Éden. Lar de humanos, elfos, anões, orcs e diversos outros povos, como os traian e os bestiais. Um mundo cheio de etnias, culturas e ameaças. E, acima de tudo, um mundo sem celestiais. Os abissais venceram a guerra e agora vivemos a Era do Abismo.

Conceito e Diferencial de um Mundo Fantástico

Acho fundamental que uma história tenha um conceito e um diferencial que possam ser explicados em uma frase simples. Nem algo tão complexo que os princípios básicos precisam ser explicados numa dissertação e nem algo simplório e repetitivo. Não precisa ser inovador ou revolucionário, mas precisa ser personalizado, precisa ser do jeito que só o autor saberia fazer.

A Tetralogia Angélica é sobre anjos e demônios guerreando. Tormenta é fantasia medieval com horror cósmico. Brasiliana Steampunk é os clássicos reimaginados num estilo steampunk. O Espadachim de Carvão é sobre um mundo que dialoga com a fantasia e com a ficção científica, possivelmente com conceitos teóricos dos deuses astronautas. A Era do Abismo é sobre um mundo condenado pelos abissais e pelos próprios vícios.

Para chegar ao conceito, o ideal é criar algo a partir dos gostos pessoais. Talvez misturando gostos pessoais com o gosto do público. Taran Matharu, por exemplo, se inspirou em Harry Potter, Pokémon e Skyrim para criar seu bestseller O Conjurador. São três exemplos de sucesso, então com certeza parte dos fãs dessas franquias também iria se interessar pel’O Conjurador. Pelas palavras do próprio Matharu: se você não encontra o livro que tanto quer ler, escreva você mesmo.

Outro caso de sucesso que não posso deixar de citar é A Arma Escarlate, de Renata Ventura. A inspiração dela em Harry Potter é nítida, mas ela dialoga com contextos brasileiros, como tráfico de drogas na escola e a violência nas favelas cariocas. Inspiração britânica, livro brasileiro até a raiz.

E acima de tudo, a falta de diferencial mata uma história. Muitos livros tentam só repetir O Senhor dos Anéis ou Harry Potter, sem de fato trazer algo novo. Você leria o livro de alguém que só pegou o que foi feito e fez um pouco mais? É tentar plantar em terra desgastada. Ou até como um artista iniciante copiando uma obra de arte clássica.

Cosmologia de um Mundo Fantástico

Em muitos casos, é importante definir o que existe além do mundo material em que a história se passa. Existem deuses ou entidades? Existem outras dimensões? É possível se comunicar com esses deuses ou entidades ou viajar pelas dimensões? Isso é comum, raro ou impossível?

A cosmologia de O Senhor dos Anéis é explicada em detalhes no Silmarillion, mas fica nas entrelinhas na trilogia. Gandalf e Saruman são entidades que abriram mão da imortalidade para enfrentar Sauron, os elfos embarcam para uma espécie de Paraíso no fim da vida, mas O Senhor dos Anéis foca na Terra-Média e na demanda do Um Anel. Dá para entender a trilogia sem ler o Silmarillion, mas entender a cosmologia da saga acrescenta profundidade à leitura.

Por outro lado, a cosmologia da Tetralogia Angélica é fundamental para a narrativa. Spohr dedica várias páginas ao longo dos romances para explicar os anjos, demônios, dimensões, entidades etéreas e todos os pormenores do universo. E mesmo com exemplos práticos ao longo da história, os livros ainda contam com apêndices que explicam a cosmologia e citam as personalidades de forma mais didática. A cosmologia da Tetralogia Angélica é bem intuitiva, mas também é extensa, provavelmente tão infinita quanto o nosso próprio universo.

Lógico que não é necessário ter um livro inteiro sobre a cosmologia antes de escrever um romance. Silmarillion do Tolkien e o Universo Expandido do Spohr só foram publicados depois de suas respectivas tetralogias. Mas é importante definir o que se aplica em cada história para depois não acontecer alguma incoerência.

Eu escrevi oito páginas sobre a cosmologia de A Era do Abismo e queria que tudo ficasse resumido a isso. Atualmente, esse texto tem trinta e seis páginas e sei que vou precisar demais. Inclusive, selecionei alguns trechos e inclui no final do livro para contextualizar alguns elementos ao longo da narrativa.

De certa forma eu precisei das oito páginas básicas no começo e fui expandindo conforme fui escrevendo A Era do Abismo. “Opa, citei que existe um reino goblinoide ao sul, preciso registrar isso no códice.” Acredito que manter a cosmologia intuitiva durante a narrativa e criar uma descrição mais técnica para consulta é um bom equilíbrio para criar um universo — ou multiverso.

Raças de um Mundo Fantástico

O Senhor dos Anéis tem hobbits, elfos, anões, orcs, entes e trolls. Harry Potter tem duendes, elfos, centauros e dementadores. A Tetralogia Angélica tem anjos, demônios, dragões, deuses etéreos e mortos-vivos. Tormenta tem… Bom, Tormenta tem dúzias de povos e criaturas, não dá nem para começar a listar.

É raro um mundo de fantasia com apenas humanos. Em Game of Thrones, vemos humanos na maior parte do tempo, mas aos poucos vamos conhecendo os filhos da floresta, os outros, os gigantes e provavelmente ainda existem criaturas que não encontramos. Por mais que uma história gire em torno dos humanos, é quase impossível que eles sejam as únicas criaturas inteligentes no planeta.

Em alguns casos, existem diferenças de poder nítidas entre essas espécies. Os elfos do Tolkien são mais fortes, inteligentes e vivem mais do que humanos e anões. Ogros e entes são ainda mais formidáveis. Os anjos e demônios do Spohr são superiores aos mortais, mas ainda podem ser desafiados por outras criaturas místicas. Em Tormenta, humanos, elfos, minotauros e lefou têm o mesmo potencial, mas ainda existem gigantes, dragões, gênios e demônios, que podem desafiar até os heróis mais experientes — e, como se não bastasse, existe a própria Tormenta e os lefeu, que aniquilam até os heróis mais lendários.

Quando se trata dos povos civilizados — aqueles que se comunicam, comercializam, disputam ou até guerreiam —, eu prefiro considerar que eles têm nível de poder equivalente. Em A Era do Abismo, elfos são mais ágeis e têm afinidade com magia, anões são mais resistentes e têm afinidade com armas e ferramentas, orcs são mais fortes e têm afinidade com caça e guerrilha, traian são mais carismáticos e têm afinidade com algum elemento, como terra, fogo, água ou ar. Eles têm diferentes aptidões e culturas, mas nenhum é mais poderoso do que o outro.

Reinos de um Mundo Fantástico

Falando em culturas, mundos precisam de localidades, cidades e reinos. Harry Potter tem Hogwart, o Ministério da Magia e Gringotes, O Senhor dos Anéis tem Rohan, o Condado e Valfenda. Game of Thrones tem os Sete Reinos, as Cidades Livres e o Além da Muralha. Se existem diferentes povos, eles precisam habitar diferentes lugares.

Muitos autores recriam o nosso próprio mundo — como Scott Lynch —, o que eu acho pouco criativo. Vários reinos são versões fantásticas da Inglaterra, ou Grécia, ou Japão. Essa abordagem já foi usada à exaustão e é difícil criar algo notável repetindo essa ideia.

Harry Potter e Percy Jackson e Os Olimpianos não deixam de ser uma fantasias urbanas, o que eu não vejo sendo abordado com frequência — exceto nas muitas cópias. O bacana da fantasia urbana é que podemos usar cidades e até bairros que já existem, o que facilita a nossa escrita — é só dar uma volta na sua cidade para se inspirar — e ainda engaja com o leitor com mais facilidade. Fantasia urbana também dá a liberdade de usar celulares, aviões e televisão na narrativa, elementos comuns no nosso dia a dia e difíceis de nos desapegar quando imaginamos um mundo muito diferente do nosso. Acho que os leitores ganhariam muito se pudessem ler mais histórias passadas nas suas cidades.

Outro problema que não posso deixar de citar é a invenção de nomes estranhos. Tolkien criou idiomas, mas ele era linguística e não faz o menor sentido só tentar imitá-lo. Parece que alguns escritores fecham os olhos e socam o teclado para criar nomes e eu sinceramente acho que ninguém tem mais tempo para decorar um monte de nomes estranhos e sem sentido.

George R. R. Martin, por sua vez, não só cria cada reino com uma identidade própria, onde não é fácil identificar exatamente qual referência ele usou — provavelmente porque ele soube usar a dose certa com várias referências diferentes em cada um —, como ele também dá nomes intuitivos para a maioria das localidades. A Muralha, Pedra do Dragão, Jardim de Cima, nenhum desses nomes soa estranho e eles já servem como uma breve descrição do lugar. Com certeza essa opção facilita a vida dos leitores e até do autor.

Particularmente, três reinos são visitados em A Era do Abismo: Torneio dos Campeões. Solar, Turninn e Dellarte. Solar vem de Sol, autoexplicativo. Turninn significa torre em islandês. Dellarte é uma adaptação de dell’arte, uma forma de teatro popular na Itália e na França. Isso me ajudou a nortear cada criação. As cidades de Solar são Aura, Auréola, Aurora e Pena Dourada, todas relacionadas a aspectos de um celestial ou do Sol. As cidades de Turninn são Babel, Gálata, Pisa e Fernsehturn, todas torres famosas. Por fim, as cidades de Dellarte são Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia, todas musas da mitologia grega.

Considerando que Turninn usa nomes de torres de países diferentes, fiz com que o próprio reino fosse um aglomerado de outras nações que se uniram numa colcha de retalhos. Houve uma guerra, reinos caíram e o que sobrou deles se uniu para se fortalecer. As musas de Dellarte refletem na cultura de cada cidade, na ciência ou arte em que cada uma se especializou. Busquei criar uma identidade própria para cada local e, ao mesmo tempo, dar nomes que possam remeter a algo para os leitores — ou, quem sabe, que aguce sua curiosidade para jogar tais nomes no Google e descobrir um pouco mais das minhas fontes.

Acho importante que cada localidade tenha sua própria cara. Aura tem um templo tão grande que pode ser visto por todos os pontos da cidade. Gálata abriga a torre de um mago famoso, que tenta oferecer um pouco mais de cultura para o povo. Tália tem a arena mais famosa da região, que cedia todo tipo de esporte, incluindo torneios de gladiadores — algo que é visto como arte por alguns ou como incoerência para outros, tratando-se de um reino tão culto e sofisticado.

Organizando as Ideias de um Mundo Fantástico

Tão importante quanto imaginar e criar é escrever de forma coerente e palatável. Convenhamos, quando alguém quer lançar um livro, também quer lançar vários outros livros, incluindo um livro só descrevendo o mundo que criou com tanto esforço.

Existem vários modelos de livros mais descritivos. Silmarillion, Filhos do Éden: Universo Expandido, O Mundo de Gelo e Fogo, World of Warcraft: Crônicas e assim vai. Por um lado, achei o Silmarillion bem específico para os maiores fãs de O Senhor dos Anéis, algo não tão interessante para quem não for fascinado pelo Tolkien. Por outro, um livro todo colorido e de capa dura, como Filhos do Éden: Universo Expandido, é algo simplesmente inacessível para 99.92% dos autores brasileiros — sim, eu fiz o cálculo.

Particularmente, escrevo as descrições de A Era do Abismo de forma que possa ser divertido de ler para quem também gostou do romance, tanto que trechos desse texto foram incluídos no livro. Mais páginas, que ainda estão só nesse texto, estarão nos próximos livros e com certeza escreverei ainda mais, até o dia que terei um livro completo só sobre os pormenores do mundo e da cosmologia. Todo esse conteúdo estará nos meus livros em forma de códices para aprofundar o conhecimento do leitor, e quando for o momento certo, também planejo lançar uma obra à parte com todas essas informações. Até lá, um passo de cada vez, ainda tenho muitas histórias pra contar.

Criação de Mundos Fantásticos

Criatividade não é uma ciência exata. Quanto mais lemos, assistimos e jogamos, mais ideias surgem. Nenhum artista começou sua carreira pela obra-prima, então precisamos testar, exercitar, criar e errar, para melhorar sempre e criar ainda mais.

Acredito que criatividade é algo a ser posto em prática, e não algo para ser estudado na teoria. Agora você sabe um pouco mais sobre minhas ideias e meu processo criativo, espero que a leitura tenha sido proveitosa. Em breve, falarei sobre criação de personagens, mas antes abrirei votação para os leitores decidirem se falarei mais dos autores ou dos jogos que me inspiraram no meu Instagram — confere meu conteúdo por lá, sempre rola enquetes para decidir quais serão os próximos passos da minha carreira.

Se você quiser conhecer A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, meu livro de Fantasia Sombria, e ver como botei todas essas ideias na prática, clique aqui.

E você, já escreveu algum conto ou romance? Criou seu próprio mundo fantástico? Quais foram suas inspirações? Solta o verbo nos comentários e bora trocar uma ideia!

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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