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A Era do Abismo: Como Começar a Escrever o Primeiro Livro?

Por: Bernardo Stamato

8 de abril de 2019

“Invente-se e então reinvente-se, mude seu tom e sua forma com tanta frequência, que eles nunca vão conseguir lhe categorizar.” — Charles Bukowski.

A carreira de um escritor não começa no primeiro livro. Muitos autores começam publicando contos em revistas ou em coletâneas, mas isso é mais do que um primeiro passo no mercado editorial, isso é um exercício e uma aprendizagem.

Eu também comecei com um conto, mas foi no Concurso Cultural Eu, Criatura. Nessa mesma época, lembro que ouvi um podcast com o Leonel Caldela e o J. M. Trevisan e eles comentaram que escrever contos é um ótimo exercício de narrativa, que um bom contista tem mais chances de ser um bom romancista do que alguém que já começa escrevendo um romance. Isso me inspirou a escrever muitos contos e tenho certeza que deixou meu punho mais firme e minhas técnicas de escrita mais afiadas na hora de escrever A Era do Abismo.

Hoje vou falar quatro passos fundamentais que um escritor precisa dar para escrever um romance, seja um novato em sua primeira jornada, seja um experiente começando uma nova obra.

Antes de escrever um livro

Sabe o que acontece se você nunca escreveu literatura e começa a escrever seu primeiro romance? Duas coisas: primeiro, o texto fica uma bosta; segundo, o livro termina melhor do que começa.

Eu já li casos assim, o ritmo da narrativa não estava legal, o enredo tinha furos e, curiosamente, o final era menos pior. O livro de fato deu uma melhorada ao longo da leitura, provavelmente porque a escritora foi exercitando e aprendendo mesmo sem perceber.

Game of Thrones não foi o primeiro romance de George R. R. Martin. O Hobbit foi o primeiro romance de J. R. R. Tolkien, mas sabe quantos rascunhos ele escrevia até chegar na versão final? Christopher Tolkien relata que o pai escrevia a mesma história de diversas formas antes de escolher a final. Carrie, a Estranha foi o primeiro romance de Stephen King, mas ele já publicava contos em revistas e a própria Carrie começou a ser escrita como um conto antes de se transformar num romance. Robert E. Howard publicou os contos do Conan em revistas a vida inteira praticamente. E mesmo que um autor comece com um bestseller, é indiscutível que suas obras seguintes são muito melhores que a primeira, como Eduardo Spohr e A Batalha do Apocalipse. O livro de Ablon é divertido, mas a Trilogia Filhos do Éden é mil vezes mais bem escrita.

Particularmente, eu comecei por contos e experimentei muita coisa neles. Em alguns, eu focava nas cenas de ação, em outros nos diálogos, em alguns na descrição das sensações dos personagens. Quando escrevemos uma narrativa longa, essas técnicas precisam estar no nosso DNA, então é melhor “ensaiar” o máximo possível para simplesmente executar com fluidez na hora de encarar o trabalho pesado que é escrever um romance. Quando um contista consegue desenvolver diálogos, descrições e ações em histórias curtas, ele com certeza tem mais chances de fazer isso tudo bem-feito numa história longa.

E um escritor iniciante também pode enviar seus contos para coletâneas, revistas — físicas ou digitais — ou até postá-los no Wattpad ou em blogues e já cativar seus primeiros leitores a partir daí. Mas eu digo por experiência própria: na internet, é necessário ter postagens constantes para não perder esse público, então só recomendo essa estratégia se houver tempo e fôlego para manter seu Wattpad ou blogue atualizados sempre — semanalmente no mínimo.

Outros escritores começam com fanfics. Conheço algumas escritoras que escreveram livros inteiros derivados de Harry Potter e depois adaptaram as histórias para um mundo próprio. Apesar de eu não recomendar um escritor a adaptar uma fanfic para um mundo próprio — porque ficaria semelhante demais ao original —, esse exercício permite que o escritor pratique diálogos, descrições e ações sem precisar criar os personagens e o cenário da história, o que é um ponto de partida mais confortável. Uma fanfic bem escrita pode chamar a atenção dos fãs da história original — como eu disse, criar um público na internet é uma boa jogada — e ainda pode exercitar as técnicas de escrita do escritor, sendo um começo de carreira válido na internet.

Mas o que um escritor quer mesmo é escrever e publicar seu livro, então como botar as mãos à obra de fato?

Como criar personagens

O que vem primeiro: o ovo ou a galinha? Como você não leu até aqui para saber sobre ovos ou galinhas, farei um questionamento mais relevante: o que vem primeiro, os personagens, os cenários ou o enredo de um livro?

Particularmente, tive a ideia do elenco e do mundo em momentos separados e juntei os dois elementos. Geralmente eu tenho uma ideia para uma história primeiro e penso nos personagens dela só na hora de escrever. Mas eu também costumo aproveitar essa hora para usar um personagem que eu já tinha em mente, só não sabia onde encaixá-lo ainda. No fim das contas, cada caso é um caso e saber que você precisa ter esses três elementos definidos antes de começar a história é fundamental.

Ainda assim, acredito que os personagens são o elemento mais importante de todos. A propósito, acabei de assistir a um filme com uma história boa, mas com um protagonista antipático, que estragou por completo a experiência. No fim das contas, sua história pode ser totalmente banal, mas são seus personagens que vão cativar os leitores — o seriado Seinfield é um grande exemplo disso.

Outro exemplo é Game of Thrones. Fantasia Medieval geralmente é considerada um gênero de nicho, então como que os livros do George R. R. Martin se tornaram a série de maior sucesso da HBO? Porque é impossível não gostar de pelo menos um dos personagens. Arya Stark, Jon Snow, Tyrion Lannister, Daenerys Targaryen, o mundo de Westeros é enorme e você encontra pelo menos um personagem apaixonante em cada canto. Até mesmo quem abandona os livros ou a série faz isso por causa do excesso de violência ou pela morte de um personagem predileto, mas nunca porque enjoou dos personagens ainda vivos.

Ainda escreverei um texto especificamente sobre criação de personagens, mas posso dizer que o fator mais importante é “empatia”. Pense em por que as pessoas gostam de você e por que você gosta das pessoas ao seu redor e foque nessas qualidades — e talvez em alguns defeitos — para criar seus personagens. É bom cada personagem ter um “comportamento” próprio, podemos ter aquele que é esperto, apesar de antipático, aquele carismático e galante, apesar de impulsivo, aquele honesto, apesar de teimoso, aquele sábio, apesar de arrogante e aquele proativo e cheio de iniciativa, apesar do hábito de falar verdades doa a quem doer. Eu acabei de exaltar algumas características do meu grupo de amigos e poderia usar isso tudo no elenco de uma história. E as pessoas ao seu redor? O que você vê nelas? Quais atributos fariam seus leitores gostar de personagens inspirados nessas pessoas? Pessoas reais sempre são as melhores inspirações para personagens fictícios — mesmo num Mundo Fantástico.

Como criar cenários

Eu já falei sobre Criação de Mundos Fantásticos anteriormente, mas o cenário de um livro é importante independente do gênero. A história se passa no Brasil? Em qual cidade? Em qual época? As Esganadas, do Jô Soares, e A Arma Escarlate, de Renata Ventura, por exemplo, se passam no Rio de Janeiro, mas o primeiro é na década de 30 e o segundo na década de 90, o que muda por completo o contexto político, tecnológico e até geográfico — busque no Google fotos da cidade nos anos 30 e 90 para ter uma breve noção das muitas mudanças.

Se a história se passa no nosso mundo real, recomendo que um autor iniciante escreva na cidade onde mora, afinal é onde conhece melhor os lugares, as pessoas e os costumes, dando autenticidade à história. Filhos da Lua: O Legado, de Marcella Rossetti, por exemplo, se passa em Santos, no Litoral Paulista, e cita várias localidades reais, o que com certeza foi um deleite para quem conhece a cidade e foi incrível até para mim, que nunca estive lá.

Os principais recursos dos personagens também são uma questão importante. Nesse lugar e nessa época, o celular é comum — como é hoje em dia — ou ainda não? Tem trem ou metrô? É uma metrópole, uma cidade rural, é uma cidade exótica no meio de um deserto ou até da neve? Se for um Mundo Fantástico, tem magia? O que a magia pode ou não pode fazer? Quais truques arcanos são banais, quais são raros e quais são impossíveis? Os personagens vão ter acesso a quais desses truques?

Em Star Trek, por exemplo, a tecnologia de teletransporte era muito limitada, a pessoa teletransportada precisava estar parada em uma localidade específica para desaparecer e reaparecer a bordo da nave. Depois de muito tempo é que inventaram uma forma de teletransportar uma pessoa em movimento, algo que foi usado logo de cara no filme de 2009 e influenciou a narrativa das sequências.

Por fim, também é válido falar de verossimilhança. Um exemplo prático: os leitores conseguem acreditar que o Superman voa, é super-forte, super-rápido, super-resistente, solta laser pelos olhos e o escambau. Mas ninguém engole que a Lois Lane não sabe que ele é o Clark Kent, mesmo ficando cara a cara com ele todos os dias. Não é porque existem elementos sobrenaturais numa história, que isso justifique quebra de lógica arbitrária na narrativa. O mesmo se aplica em Game of Thrones, eu já ouvi muito fã reclamando de um personagem ser esfaqueado e sobreviver — como a Arya Stark — enquanto outros morreram por muito menos — como vários parentes dela. Se seus personagens morrem com facadas, como qualquer pessoa normal, então todos devem morrer com facadas, a não ser que seja protegido por uma armadura ou algo do tipo.

As regras do mundo devem ser claras e devem ser seguidas — seja no nosso mundo real, seja num Mundo Fantástico —, então o escritor precisa ter tudo isso bem nítido em sua mente antes de começar a escrever.

Como escrever histórias

Planejar ou improvisar? Essa é uma das questões mais levantadas quando o assunto é escrita e a verdade é que não existe resposta certa, apenas aquela que atende melhor cada escritor. George R. R. Martin cita que existem escritores arquitetos e escritores jardineiros. O arquiteto é aquele que planeja cada detalhe de cada capítulo antes de começar a escrever e o jardineiro é aquele que vai “semeando” e “colhendo” conforme a escrita se desenvolve.

Acredito que o mais importante de uma história seja um “conflito”, algo que esteja errado e deva ser conquistado ou corrigido. Qual é o objetivo do protagonista? Ser promovido a líder de uma equipe no trabalho, ou de um esporte, ou musical, ou de mercenários? É vingança? Sobrevivência? Desvendar um mistério? Encontrar algo perdido? Salvar alguém em apuros? As opções são infinitas e cada personagem importante deve ter uma motivação.

Isso também é importante: cada personagem precisa de uma motivação. Não é um saco ver uma dúzia de personagens no fundo, sem diálogos, sem propósito? Você pode ajudar um amigo por um dia, mas você é mais do que isso e o mesmo vale para cada personagem numa história. Se um personagem não tem mais propósito, é melhor ele sair da história do que ser reduzido a um figurante. Franquias como os filmes dos X-Men e o anime Dragon Ball são bons exemplos de como excesso de personagens sem propósito faz mal para uma história.

O “modelo básico” de uma narrativa é: harmonia, desarmonia, conflito e harmonia final ou desarmonia total. Primeiro os personagens e o mundo são apresentados em estado de harmonia. Em seguida, um elemento de conflito é apresentado e a história entra em desarmonia — O Um Anel chega em Valfenda e os heróis formam a Sociedade do Anel para expurgar o mal do mundo, ou o Coringa chega em Gotham e toca o terror, ou um ex-namorado ou ex-namorada de alguém decide ressurgir e azedar uma relação que estava dando certo, por exemplo. O conflito é todos os esforços dos personagens para buscar a harmonia de volta. Por fim, a harmonia final ou desarmonia total é a conclusão da história, onde a paz inicial é restaurada ou a situação acaba ainda pior do que estava anteriormente — assista a Se7en: Os Sete Crimes Capitais.

Outro modelo interessante de narrativa foca mais no desenvolvimento do personagem, mas a “curva” é parecida: o personagem tem um comportamento — como citei anteriormente —, desenvolve esse comportamento de forma a conquistar sua motivação / seu objetivo, passa por um momento de derrota momentânea e por fim supera suas fraquezas e obstáculos e alcança aquilo que almejava no começo ou perde tudo — assista a Réquiem para um Sonho.

O modelo mais popular — e mais batido — provavelmente é a Jornada do Herói, que vai desde os mitos antigos, como Hércules ou Siegfried, até a narrativas modernas, como Star Wars, Harry Potter, praticamente todos os filmes da Marvel e até Moana. Inclusive, uma das aplicações mais geniais da Jornada do Herói é Vingadores: Guerra Infinita porque quem segue a Jornada nesse filme é o Thanos, o vilão da história. Existem incontáveis artigos na internet sobre a Jornada do Herói, então não entrarei em detalhes aqui, fique à vontade para pesquisar, se quiser.

Por mais que o objetivo da história seja não haver objetivo, algo tem que estar acontecendo. Algumas histórias dão uma sensação de que nada aconteceu ou de que acabou do nada, mas mesmo assim são experiências prazerosas para o leitor — ou espectador. Crie bons personagens e dê algo para eles fazerem e/ou resolverem. No fim das contas, a jornada é mais importante que o destino, e isso também vale para a arte de contar histórias.

E depois?

Muitos escritores têm “leitores beta”, que é alguém que lê seu trabalho em andamento e dá pitacos. Particularmente, quando alguém lê algo que estou escrevendo, eu sempre pergunto: o que você gostou mais, o que gostou menos, o que ficou faltando e o que pode melhorar? É esse o ponto de vista que busco e acho que é a melhor forma de extrair as críticas construtivas das pessoas — afinal só ouvir que está bom, legal, ou ruim seria muito abstrato.

Com a internet, os leitores de um blogue ou Wattpad facilmente se tornam os leitores betas de um escritor. Já vi professora escrever e compartilhar com os alunos. Alguns amigos leitores também podem ajudar. Ter um segundo olhar num texto — ou até terceiro, quarto, quinto etc — com certeza ajuda.

Também recomendo uma revisão geral ao longo da escrita. Supondo que sua meta é escrever 200 páginas, acredito que uma revisão a cada 50 seja saudável. Imagina se você chega na página 200, vai revisar desde o começo e encontra um furo de enredo que atrapalha todo o resto da narrativa? Com revisões frequentes, esse risco é menor. Escrever é fácil, difícil é reescrever, corrigir, editar e aperfeiçoar. Eu cheguei a reescrever metade de um capítulo depois da editora já ter aprovado o original — e que bom que reescrevi, pois descartei uma cena muito ruim em favor de uma muito melhor.

Por outro lado, o escritor precisa pôr um ponto final à sua história e precisa publicá-la. Falarei sobre envio de originais para editoras futuramente, o assunto de hoje ficará delimitado à escrita em si.

Se você quiser conhecer A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, meu livro de Fantasia Sombria, e ver como botei todas essas ideias na prática, clique aqui.

E você, já escreveu um livro? Quer começar a escrever? Já até publicou? Quer tirar alguma dúvida sobre os tópicos abordados? Quer sugerir um tópico novo? Solta o verbo nos comentários e bora trocar umas ideias!

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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