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A Era do Abismo: 4 Técnicas para um Escritor tirar Inspiração de Qualquer Lugar

Por: Bernardo Stamato

25 de abril de 2019

Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes. — Isaac Newton.

De onde você tira inspiração para escrever suas histórias?

Essa é uma pergunta que recebo com frequência e a resposta costuma surpreender as pessoas.

Permita-me contar uma breve história: eu estava lendo Conjurador: O Aprendiz, de Taran Matharu, li na bio que ele era britânico, filho de indiano e brasileira e resolvi testar se ele falava português. Twittei que estava adorando o livro, marquei o @ dele e ele me respondeu no nosso idioma. A partir daí começamos a conversar e eu inclusive traduzi vários artigos dele no Wattpad. Foi uma experiência incrível para mim, ainda mais porque a história do Taran é fascinante.

Sua saga, o Conjurador, tem três principais inspirações: Harry Potter, Skyrim e Pokémon. São três fontes completamente diferentes, então como ele aproveitou cada um desses elementos sem que ficasse uma galhofada? O mundo é uma fantasia medieval simples, com humanos, elfos, anões e orcs — como Skyrim —, o enredo se foca nos conjuradores e tem uma escola de magia — como Harry Potter —, mas essa escola de magia prepara os conjuradores especificamente para a guerra e cada um deles tem uma criatura de estimação — como Pokémon.

Eu não sei exatamente o que se passou na cabeça do Taran Matharu enquanto ele escrevia, mas consigo analisar quais elementos ele aproveitou de cada franquia, quais ele descartou e como desenvolver uma técnica que me permite tirar inspiração de qualquer lugar — seja livro, filme, série, videogame, até música — para escrever minhas próprias histórias.

Vem comigo, que eu explico.

Descubra a inspiração das suas obras favoritas

Nós queremos criar nossa própria arte — seja você escritor, ilustrador, músico, game designer etc — porque nos apaixonamos por uma arte. E antes de nos tornarmos artistas bem sucedidos, é relevante compreender o talento e o sucesso de quem admiramos.

Taran Matharu se inspirou em Harry Potter, Skyrim e Pokémon. Eduardo Spohr, por sua vez, citou dezenas de inspirações em seu livro Filhos do Éden: Universo Expandido, incluindo filmes como Anjos Rebeldes, Cidade dos Anjos e Matrix, livros como O Senhor da Chuva, Deuses Americanos, Lestat e Conan, desenhos animados como Cavaleiros do Zodíaco, Akira e Ghost in the Shell, quadrinhos como Hellblazer, Preacher e Sandman e RPGs como Dungeons & Dragons, Call of Cthulhu e Mundo das Trevas. Leonel Caldela, meu autor favorito, também citou suas inspirações no livro Tormenta RPG: Guia da Trilogia, incluindo livros como As Crônicas de Dragonlance, As Crônicas de Artur, A Queda da Casa de Usher e Alice no País das Maravilhas, quadrinhos como Os Livros da Magia, Os Doze Trabalhos de Asterix e V de Vingança, filmes como Um Drink no Inferno e O Último dos Moicanos e até música, como Ramones, Johnny Cash e Rolling Stones.

O que esses três autores têm em comum, além de serem absurdamente talentosos, é que nenhum deles limitou suas inspirações a uma única fonte. Os três escreveram literatura fantástica, mas cada um buscou inspiração em fontes inusitadas. Inclusive, acredito que seria um erro escrever se inspirando apenas em literatura porque correria o risco de copiar demais e inovar de menos.

Sem falar que você provavelmente vai gostar daquilo que o seu ídolo gosta. Quem são os diretores favoritos do seu diretor favorito? Quais são as bandas favoritas da sua banda favorita? Quais são os quadrinhos favoritos do seu quadrinista favorito? Quais são os jogos favoritos do seu game designer favorito? Em tempos de Netflix, Spotify, Amazon e Steam, tem toneladas de clássicos para descobrir e ampliar nossas inspirações.

Mas para compreender a inspiração, a primeira técnica é notar as semelhanças entre as suas obras favoritas e as obras que as inspiraram. George Lucas, por exemplo, era fã de filmes de samurais e se inspirou pesadamente em clássicos como A Fortaleza Escondida, Os Sete Samurais e Yojimbo – O Guarda-Costas, tanto na construção de personagens, nas estruturas narrativas e até mesmo nas transições de tela dos filmes. Traçar esses paralelos dá uma boa noção de como os mestres fizeram para criar as próprias ideias.

E quais são as inspirações dos seus artistas favoritos? Você provavelmente se inspira em alguns artistas brasileiros — se não, deveria, afinal quase com certeza você é um brasileiro e estará criando sua arte para brasileiros —, então tem a oportunidade de perguntar diretamente para eles, caso não encontre essa informação preciosa em algum livro, entrevista ou algo do tipo. Além da possibilidade de descobrir alguns clássicos interessantes, você pode começar a ver como seu artista favorito recriou os elementos desses clássicos em seu próprio trabalho.

Desmonte o quebra-cabeça

Nada faz sucesso por causa de um único fator. Um bom músico ainda precisa de uma banda. Um bom diretor ainda precisa de um bom elenco. Um bom escritor ainda precisa de uma boa editora. Uma boa mercadoria ainda precisa de marketing para chegar ao público. Para compreender uma obra de arte, você precisa observá-la de longe e de perto e precisa analisar cada peça do quebra-cabeça.

O que eu mais gostei no romance A Joia da Alma, de Karen Soarele, por exemplo? Gostei como dois grupos rivais disputam pelo mesmo objetivo até se unir para enfrentar um adversário em comum, gostei de como o reino Sallistick foi explorado, um reino famoso pelo seu ateísmo em um mundo cheio de deuses, e como a autora equilibrou a jornada através dos fantasmas do passado dos protagonistas como uma jornada para salvar o mundo de uma ameaça cósmica.

Como eu poderia me inspirar nesses elementos, sem copiar a Karen Soarele? A técnica é escolher apenas um elemento e misturá-lo com o que você já está criando. Dois grupos disputando pelo mesmo artefato? Isso serve para fantasia medieval tanto para um romance policial ou até para uma história de terror — talvez com anjos e demônios ou vampiros e lobisomens. Um reino ateu em um mundo fantástico? Posso criar um personagem ateu e cético no meu livro de fantasia medieval ou então criar uma história em que pessoas do mundo normal descobrem que existem criaturas sobrenaturais vivendo entre a gente, enquanto um personagem cabeça dura teima que é tudo superstição, por mais que o contrário já esteja evidente. Equilíbrio em jornada pessoal e cósmica? Essa é uma abordagem usada em vários gêneros, principalmente super-heróis — Homem de Ferro, Doutor Estranho, Pantera Negra, Capitã Marvel e quase todos na verdade —, então não faltam referências para estudar e depois aplicar a qualquer história própria.

E já que estamos falando de Tormenta: no livro O Terceiro Deus, de Leonel Caldela, temos Edauros e Yadallina, dois elfos feiticeiros de extremo poder. Edauros é arrogante, acredita que descende de dragões e diz ser um dragão o tempo todo. Yadallina, por outro lado, é recatada e acompanha seu irmão porque o ama e para evitar que ele se meta em alguma enrascada com a qual não consiga lidar. Edauros e Yadallina são personagens carismáticos e cumprem papéis fundamentais e totalmente diferentes na trama.

Sabe outra saga fantástica com um casal de irmãos ligados a dragões? Viserys e Daenerys Targaryen, de As Crônicas de Gelo e Fogo, uma das inspirações citadas por Caldela no Guia da Trilogia. O que Caldela aproveitou: irmãos interligados a dragões. O que Caldela modificou: além deles terem poderes mágicos e viverem em um mundo bem diferente de Westeros, eles não querem reconquistar nenhum trono e têm destinos totalmente diferentes de suas contrapartes.

Outro exemplo é Arthas, de Warcraft, inspirado em ninguém menos do que Rei Artur. Ambos são cavaleiros honrados, mas Artur se torna um rei benevolente quando tira a Excalibur da pedra, enquanto Arthas se torna um genocida e, posteriormente, o Rei Lich. A base foi a mesma, mas o destino foi praticamente o inverso.

A dica aqui é separar os elementos que você gostou e usar apenas um deles dentro da sua própria criação. E se usar um riff de guitarra com um ritmo diferente na bateria? E se um ator interpretar um personagem similar ao anterior, mas num filme totalmente diferente? E se criarmos um mentor ao estilo Merlin ou Gandalf, mas como um gênio da robótica em uma história de ficção científica? Sabia que o Coringa foi inspirado num filme alemão em preto e branco e mudo, O Homem que Ri? Pegue um elemento e mude todo o contexto ao redor dele para ver no que que dá.

E se…?

Eu já disse que não recomendo que um autor iniciante transforme uma fanfic em livro próprio, mas isso não impede de criar algo se inspirando e modificando o original. O que aconteceu na Terra-Média depois que o Um Anel foi destruído? O que teria acontecido, se Sam e Frodo fracassassem? Como ficou o mundo depois que certos assassinos passaram suas mensagens, como em Se7en – Os Sete Crimes Capitais ou na franquia Jogos Mortais? Seria uma distopia interessante, não? Algumas músicas e clipes musicais de fato contam histórias, e se elas fossem transformadas em contos ou até romances? Às vezes, temos uma ideia no começo de um filme e série e vemos que a história se desenrola de forma totalmente diferente — e se tivesse sido da forma como imaginamos no começo?

Particularmente, eu imaginei como seria Rob Stark, Jon Snow e Theon Greyjoy lutando lado a lado contra os Lannister. Você não precisa ir muito longe em Game of Thrones para saber que minha imaginação passou longe de acontecer. Mas isso não me impede de criar uma história com um herdeiro, um bastardo e um melhor amigo numa guerra por justiça.

Outra coisa que já passou na minha mente: e se o Neo do Matrix morresse? Isso serviria para qualquer história com um herói mais poderoso que todos os outros, como o Superman na DC ou Goku em Dragon Ball. E se um grupo de personagens menos poderosos precisasse enfrentar os Agentes da Matrix, ou uma invasão alienígena ou entidades destruidoras que finalmente despertarem.

Falando em Dragon Ball, sabia que a Saga dos Androides foi inspirada em Exterminador do Futuro? Pois é, dois dos filmes mais importantes para a carreira de Arnold Schwarzenegger inspiraram Akira Toriyama, um dos maiores mangakás de todos os tempos. Essa informação parece estranha a princípio, mas só prova como precisamos buscar inspirações em outras mídias.

Mas acredito que isso seja outra técnica, que vou falar no próximo tópico.

A ideia para a Trilogia Dragões de Éter, de Raphael Draccon, começou com “e o que acontece depois dos contos de fada?”. Os príncipes e princesas realmente foram felizes para sempre? E se as bruxas não forem todas más? E se o filho de um famigerado capitão pirata julgar seu pai injustiçado e desejar vingança? E se os anões de fato representarem os pecados capitais?

Pegue uma das suas histórias favoritas e pergunte “e se…?”. Se o vilão vencer, o que acontece depois? E se seu personagem favorito fosse de fato o principal? E se aquele casal que você “shippou” ficasse junto? E se você criar um elenco com um personagem de cada uma das suas franquias favoritas, seja de fantasia medieval, de super-heróis, de terror etc?

Transmídia

No livro O Inimigo do Mundo, de Leonel Caldela, tem um bardo chamado Senomar, um artista que não é exatamente talentoso, mas que chama a atenção pelo seu ritmo intenso e autêntico e pelas suas críticas aos nobres, burgueses e ao sistema num geral. Agora leia o nome Senomar ao contrário. Leonel Caldela criou um personagem inspirado numa das suas bandas favoritas.

Acredito que se inspirar numa mídia para criar algo em outra mídia é uma das melhores técnicas porque você de fato traz algo inusitado para sua arte favorita, seja ela a escrita, a música, a ilustração, o game designer, seja o que for.

Acho que uma das maiores fontes de inspiração dos últimos tempos é os Mythos de Cthulhu, o que inclui autores como Neil Gaiman, Stephen King, Terry Pratchett, Eduardo Spohr, Leonel Caldela, games como Bloodborne e Darkest Dungeon e até músicas como Behind the Wall of Sleep, do Black Sabbath, e The Call of Ktulu, The Thing That Should Not Be, All Nightmare Long e Dream No More, do Metallica.

E não para por aí. Cthulhu também inspirou desenhos animados como Ben 10 e Digimon, séries como Doctor Who e Supernatural e até mesmo quadrinhos como Vingadores, Darkwing Duck e Pato Donald — pesquise “The Call of C’rruso” no Google!

Experimente criar um personagem inspirado na sua música favorita, ou escrever uma cena inspirada numa cena de um filme, mas com um contexto totalmente diferente, ou criar um vilão ou monstro com personalidade e habilidades de um antagonista de um jogo da sua infância. Pode ser uma inspiração abstrata ou até uma tradução intersemiótica, o que importa é você exercitar sua criatividade e buscar inspiração em fontes inusitadas.

Outro exemplo é o filme Círculo de Fogo, dirigido por Guillermo del Toro, que nasceu como uma tentativa de adaptação do anime e mangá Evangelion. Depois de anos de negociações frustradas, o diretor decidiu criar uma história própria — ainda com robôs gigantes, mas sem anjos e com o acréscimo de que cada robô precisava ser pilotado por dois pilotos em perfeita sincronia. A inspiração continua nítida, mas modificações o suficiente foram feitas para considerarmos cada obra como um trabalho original.

Uma ideia louca que me veio enquanto escrevia aqui. Eu adoro histórias de terror. Meu jogo de terror favorito é Silent Hill e o gênero de zumbis já está aí há algum tempo. E se misturarmos as duas coisas? O enredo do primeiro Silent Hill — do jogo e do filme, e o filme tem no Netflix, a propósito — envolve uma pessoa buscando sua filha numa cidade amaldiçoada. E se fosse um pai ou mãe buscando a filha numa cidade infestadas de zumbis? As chances da menina estar viva é de uma em milhão, mas achá-la é o único sentido que restou na vida dessa pessoa, então ela busca nos lugares familiares à criança — prédio onde moravam, colégio, shopping center, hospital etc. Mesmo que ele ou ela encontre outras pessoas escondidas pelo caminho, seu único objetivo é encontrar a filha custe o que custar. Nunca vi uma abordagem assim numa história de zumbis, acredito que seria interessante.

Falando em Silent Hill, tem uma Alessa e uma Dahlia em A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões. Os aventureiros chegam em Outeiro Silencioso, uma aldeia que está sendo atormentada por um monstro e a principal suspeita é “a bruxa” da vizinhança. O grupo precisa correr contra o tempo para descobrir se a anciã é mesmo responsável pelos assassinatos ou se os aldeões estão prestes a condenar uma inocente. Não usei a dimensão paralela e nem nenhum monstro dos jogos, apenas adaptei o nome da cidade, usei os nomes de duas das principais personagens e o contexto que deu origem à história da franquia.

Fiz algo similar em um dos contos do próximo livro, A Era do Abismo: Crônicas do Éden. O título é O Silêncio dos Condenados e é narrado por um professor que protege sua universidade a qualquer custo. A ideia surgiu enquanto assistia ao filme Hannibal de 2001 e me inspirei na atuação do Anthony Hopkins para criar um personagem descartando o canibalismo e dando origens mais enraizadas no instituto onde ele dá aula no começo do filme. Inclusive, muitos escritores comentam que nunca vão escrever todas as ideias que surgem e acredito que uma solução para isso é buscar ideias que cabem em capítulos ou em contos, assim podemos enriquecer nossos trabalhos em andamento e aproveitar ao máximo nossas inspirações.

Quando você busca ativamente inspiração em tudo o que experimenta, ideias poderosas começam a surgir naturalmente.

Escreva mais

É óbvio que precisamos escrever mais. Inclusive, eu devia estar terminando o próximo livro — a editora já me pediu para ontem —, mas eu tive a ideia de falar sobre criatividade e inspiração e precisei botar isso tudo que você acabou de ler para fora antes de continuar os outros trabalhos.

Inclusive, fica aqui uma última dica extra: escreva mais. Leia muito, mas escreva muito também. Se você tem lido demais e escrito de menos, deixe de ler por uma noite para escrever. As duas atividades são fundamentais, mas exercitar a escrita é muito mais prática do que teoria. Para entrar em forma, um atleta precisa se alimentar e se exercitar tanto quanto um escritor precisa ler e escrever. Se a gente só se alimenta e não se exercita, a barriga cresce. Se a gente só lê e não escreve, nossa escrita também é prejudicada.

No fim das contas, o que importa é escrever muito e buscar inspiração onde nossa mente se sente fértil.

Se você quiser ver como botei em prática essas técnicas, confira A Era do Abismo: O Torneio dos Campeões, meu livro de Fantasia Sombria, clique aqui.

E onde você busca suas inspirações? Livros? Filmes? Séries? Quadrinhos? Games? Qual foi a ideia mais inusitada que já botou no papel? Solta o verbo nos comentários e bora trocar umas figurinhas!

Autor: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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