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A Batalha do Apocalipse: O Fim do Mundo e o Começo de uma Jornada Lendária

Por: Bernardo Stamato

28 de março de 2018

Com certeza, A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, é um dos livros de fantasia brasileiros mais famosos de todos os tempos.

O autor é um carioca que teve a oportunidade de conhecer diversos países, culturas e povos diferentes graças aos pais – piloto de aviões e comissária de bordo – e já trabalhou como repórter, analista de conteúdo e editor. Como autor, A Batalha do Apocalipse foi sua primeira publicação, seguida pela Trilogia Filhos do Éden, um prelúdio – ou prequel – do primeiro livro, e a enciclopédia de toda a mitologia da tetralogia, o livro Universo Expandido.

A Batalha do Apocalipse parte de uma premissa clichê, mas muito bem aproveitada: a batalha final entre o Céu e o Inferno. Spohr sai do lugar-comum logo de cara quando ambienta o romance nos tempos modernos e descreve minuciosamente cada aspecto apresentado – explica cada casta dos anjos e dos demônios, suas funções e hierarquias, explica a origem e a participação das entidades pagãs e detalha toda as histórias dos conflitos celestes de forma didática, que permite o fácil entendimento para qualquer leitor. No contexto, Ablon, um querubim renegado que escolheu viver no Rio de Janeiro, recebe um convite de Lúcifer para se unir às legiões infernais para o confronto decisivo, e o protagonista se encontra num dilema entre confiar no Príncipe das Trevas para se vingar do tirânico Arcanjo Miguel, que governa o Céu de forma cruel e sanguinária, ou aguardar o Juízo Final de forma independente e só tomar partido nos últimos momentos. Isso já parece suficiente para sustentar um bom romance, mas o autor faz bom uso de reviravoltas e apresenta novos paradigmas que fogem da perspectiva bíblica e transformam a trama numa obra realmente original e criativa – afinal, existe muito mais do que o bem e o mal no cosmo em que vivemos.

E o autor vai além da mitologia e da criatividade, ele também apresenta um profundo estudo histórico em suas páginas. Ao longo do livro, várias sociedades e várias épocas são apresentadas, fazendo o leitor viajar desde a Babilônia, através do Caminho da Seda ao Império Romano e até da Inglaterra recém livre dos romanos ao Império Bizantino nas vésperas de sua queda para os povos bárbaros. E cada cenário é ricamente detalhado e contextualizado, tanto nas construções arquitetônicas quanto na sociedade da época. Spohr também retrata o Rio de Janeiro dos tempos atuais e ainda passa por Jerusalém, descrevendo seus diferentes bairros e a divisão entre as diferentes religiões que convivem lá. Com certeza, deu trabalho produzir algo tão minucioso.

Os personagens d’A Batalha do Apocalipse variam entre originais, como Ablon e Shamira, e reinterpretações de entidades mitológicas, como Nimrod, Appolyon e Miguel, todos movimentando a narrativa e apresentando a cosmologia com um equilíbrio ímpar. Ablon, por ser ao mesmo tempo um anjo renegado e um herói convicto, não pode ignorar o fim dos tempos e precisa escolher um lado na guerra, o que faz com que o leitor conheça a história e as motivações de cada facção. Da mesma forma, personagens, mitos e fatos históricos foram recriados, de forma que todos os leitores ainda vão ser surpreendidos com as escolhas feitas por Spohr. Um exemplo sem dar spoiler: o nascimento de Cristo mudou o mundo, mas se nem todos os arcanjos concordam que a humanidade deva sequer existir, qual foi a postura do Céu em relação ao nascimento do messias católico?

A edição especial vem com um glossário e uma seção de extras. No glossário, lista de nomes e termos usados ao longo do livro, muito útil dentro de uma obra tão cheia de detalhes, onde é fácil se esquecer, por exemplo, qual é a função dos ofanins entre as demais castas de anjos. Dentro dos extras, uma explicação bem completa sobre cada casta dos anjos e seus poderes, a hierarquia do Inferno, a hierarquia do Céu antes e depois da queda de Lúcifer, uma descrição sobre as Sete Camadas Celestes, uma cronologia terrestre que vai desde Atlântida e Enoque até os tempos atuais, a árvore genealógica dos humanos, três capítulos novos (dois excluídos e um extra) e, finalmente, nota do autor, Spohr e Seu Romance e o sobre o autor. Enfim, todo o material necessário para mergulhar e compreender o universo d’A Batalha do Apocalipse.

Porém, o livro não é perfeito e alguns pontos não ficaram muito bem elaborados. O autor peca nos diálogos um tanto clichês e algumas cenas poderiam ter ficado melhores, como o encontro entre Ablon e seu par romântico, a necromante Shamira, em Bizâncio: o querubim entra na cidade em pleno estado de sítio dos bárbaros sem uma descrição de como encontra a feiticeira e eles fogem, só isso, rápido demais, além da pergunta que não cala “o que Shamira estava fazendo em Bizâncio correndo um alto risco de vida mediante a uma invasão iminente?”. Tudo bem que ela havia prometido que encontraria o renegado na cidade-capital, a ideia da cena do fim definitivo do Império Romano é boa, mas seria mais plausível se Ablon tivesse encontrado um recado “não pude esperar mais, a situação ficou crítica, estou em *tal* lugar” e o capítulo se estendesse mais um pouco, dando mais espaço para uma cena de ação da fuga de Ablon e mais uma pequena jornada até o verdadeiro reencontro com sua amada.

Outro detalhe que ficou indevidamente breve é a questão da Shamira: ela é uma humana de carne e osso que descobriu o segredo da imortalidade. O problema é que Spohr narra essa ascensão à imortalidade de forma excessivamente rápida: ela sobrevive à destruição da Babilônia, vai para o Egito, se torna a discípula pródiga de um grande feiticeiro e aprende com ele os segredos da imortalidade, só isso. Tipo, convenhamos que a imortalidade sempre foi algo reservado para os deuses e para as criaturas mais poderosas das mitologias, sendo um dos maiores diferenciais entre as divindades e os mortais. Uma conquista dessas merecia um capítulo inteiro só para a feiticeira, mostrando o que ela fez para se tornar a melhor das discípulas, quais feitos ela teve de realizar, quais obstáculos teve de superar para, de forma épica, ter alcançado a imortalidade, e não um trecho curto e resumido.

Spohr soube produzir um livro de alta qualidade, criativo e com reviravoltas bem aplicadas. Mesmo com pequenas falhas, a leitura é prazerosa e o sucesso desse livro garantiu que o autor provasse seu valor na Trilogia Filhos do Éden, apresentando um progresso poderoso na sua escrita. A Batalha do Apocalipse é um livro brasileiro do nível dos grandes clássicos da literatura estrangeira do mesmo gênero.

Author: Bernardo Stamato

Vencedor do Concurso Cultural "Eu, Criatura" da Devir Livraria, formado em Letras, pós-graduado em Produção Textual, tradutor e escritor (https://www.wattpad.com/user/BernardoStamato). Quando dá tempo para respirar, lê e joga PS4 também.

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